Assim não (a)vale

Maria Zarco olhou-se ao espelho.

As suas rugas de expressão estavam mais profundas. Passou a escova anti-frizz pela sua cabeleira negra, tentando acalmar as três cãs que dela despontavam teimosamente.

Os jeans azuis modelavam-lhe bem o corpo, a T-shirt amarela caía solta e elegante e o batom vermelho delineava a boca bonita, se bem que ligeiramente assimétrica.

Sentia-se confiante.

Adulta. Resolvida. Competente. Autónoma.

Nesse dia tinha o almoço de família. Uma espetada no Paul da Serra. Todos os anos, a vinte e três de Maio.

Maria gostava de estar com a família. Não que fosse a família perfeita. Longe disso. Havia quezílias, mal-entendidos, ocasionais comentários sarcásticos. E não conseguia gostar do António, o marido da mãe.

Mas havia respeito. Tinham em comum o material genético e um passado. Tinham em comum hábitos, manias e trejeitos. Ela tinha até a mesma forma de arquear as sobrancelhas que o seu primo Henrique quando se irritava e ria quando estava nervosa exatamente como o tio Afonso.

Reconhecia-se na sua família. Compreendiam-se. Apoiavam-se.

Um dia, Maria acordou e percebeu que algo se passava. Sentia-se cansada, as dores fustigavam-lhe o corpo. A dor de cabeça era pungente. O diagnóstico atingiu-a como um raio.

Não podia trabalhar. As despesas médicas amontoavam-se. Os exames custavam os olhos da cara. Recorreu às suas poupanças, as que custosamente fizera, prescindindo de jantares a que gostaria de ter ido e das férias com que tinha sonhado.

Mesmo assim não era suficiente. Passou noites em claro a remoer, a fazer contas mentais. Sempre de subtrair. Não tinha outra solução que não fosse um empréstimo.

A família poderia ajudar, pensou. Não seria assim tão descabido. Mas não lhes quis pedir.

Pediria ao banco. Os formulários eram mais que um par de botas. Só não lhe pediram o grupo sanguíneo. Por sorte. Os juros eram altos. Mas estava confiante. Sabia gerir o seu dinheiro e não dava passos maiores que as pernas.

O seu gerente de conta, o Marcelo, tinha sido seu colega no Liceu. Assegurou-lhe que conseguiria o empréstimo. E, em nome da sua velha amizade e das tardes que haviam passado em mergulhos no Lido, contou-lhe que, se tivesse o aval de alguém da sua família, conseguiria juros muito mais baixos. Poupava para cima de uma fortuna.

Suspirou com algum alívio. Pela primeira vez em semanas. Só tinham de assinar um papel. Sem qualquer custo. Sem encargos. Sem contrapartidas.

Fez uma videochamada no grupo de WhatsApp da família. Explicou-lhes tudo. Os benefícios que lhe traria essa assinatura. Como não os prejudicaria em nada. Frisou bem que não tinham absolutamente nada a perder.

Sentia-se confiante.

Os dias passaram e ninguém lhe dizia nada. Toque de mensagem. Não. SMS da Radio Popular da promoção sem IVA. Toque de mensagem. Não. Fatura da MEO.

Começou a rir. Do nervoso. Exatamente como teria feito o tio Afonso.

Mandou um email a todos os membros da família. Explicando tudo novamente. Reiterando o prazo que tinha de cumprir.

Nada. O dia chegou e ninguém disse nada.

Não conseguia perceber porquê. Estava triste, atordoada, atónita.

O que se tinha passado? Era a pergunta que lhe corria em loop, aos gritos na mente silenciosa. Tinha de haver uma explicação. A sua família não lhe poderia fazer isto. Tinham em comum o material genético e um passado. Compreendiam-se. Apoiavam-se.

Teria havido algum mal-entendido?

Assinou o empréstimo. Sem o aval. Custou-lhe para cima de uma fortuna. E um pouco da sua identidade.

Nesse dia tinha o almoço de família. Uma espetada no Paul da Serra. Todos os anos, a vinte e três de Maio.

Vestiu um vestido amarelo. Por baixo levava o fato banho azul. O novo que tinha comprado em saldos. Colocou os óculos de sol vermelhos.

Sentia-se confiante.

Foi um dia de praia esplêndido.