Rui Marote
A cidade do Funchal está a transformar-se a ritmo acelerado. Mesmo assim, hoje em dia ainda conserva algumas marcas do passado que convém procurar preservar. Um destes dias percorremos , de manhã bem cedo, a Rua Fernão de Ornelas no sentido Bazar do Povo-Mercado dos Lavradores.
Aquela que foi durante muitos anos a principal artéria comercial do Funchal era uma rua deserta aquela hora. Com o “vício” de colocar o dedo no “gatilho” resolvemos fotografar os letreiros dos estabelecimentos que resistem e enfrentam um desafio entre a modernização e a conservação da alma madeirense.
É notória a transformação acelerada das fachadas e a substituição de reclames tradicionais, descaracterizando esta artéria.
A perda do comércio tradicional das cidades (conhecida como ” gentrificação comercial” e que abordámos em anteriores publicações apaga as memórias e a identidade do povo madeirense. Quando uma mercearia ou ourivesaria antiga fecha para dar lugar a um café moderno (esplanada), bolo do caco ou uma nova gelataria, o Funchal perde um pouco da sua alma.
As lojas antigas funcionavam como pontos de encontro da comunidade. O comércio tradicional focado nos moradores está, no entanto, a ser substituído por serviços voltados apenas para o turismo. É um apagão na memória.
Na Europa e em Portugal através da protecção física dos letreiros e fachadas em algumas cidades está-se a tentar travar esse fenómeno. As fotos registadas estão a partir de agora no museu Atelier Vicentes para que a memória não se apague. Os resistentes Casa Amorim, Relojoaria Figueira, Carlos Fotógrafo, Casa Dural, Casa Chinesa e Pretinha dos Cafés mantêm-se; o resto foi desaparecendo com o tempo. Há muitos anos, a rua emblemática do comércio tradicional por excelência era a Rua dos Tanoeiros, que obteve o seu nome por volta do século XVII devido à importância dada aos construtores de pipas. Esteve directamente ligada à exportação do vinho Madeira. Nos dias de hoje só a Mercearia do Bento conhecida como Pharmácia do Bento sobrevive. O estabelecimento ganhou fama devido à sua mistura de especiarias (uma receita com mais de 100 anos), que também é vendida na África do Sul, na Venezuela, na Áustria e em França.
No nº 7 nasceu Max, o que muitos desconhecem, não existindo uma placa, quando reivindicam um museu prometido para o homenagear. Na restante artéria as lojas são outras, o comércio é outro. Chamou-nos atenção uma placa em duas línguas: português e inglês fixada numa das paredes: “Adopte Uma Loja”. Trata-se de uma iniciativa da Câmara Municipal do Funchal que procura ou “procurava” contribuir para a dinamização da economia local através da arte urbana, e que convida a população e turistas a desfrutarem do comércio tradicional, da cultura e das muitas histórias que esta rua tem para contar. Ou tinha…
Como deve ser combatida esta “gentrificação”? Com apoios financeiros directos aos lojistas tradicionais para aguentarem a pressão mobiliária(o alojamento local já chegou). Com Planos Directores Municipais(PDM) restritivos, leis que proíbem a alteração do tipo de negócio em certas artérias históricas, para não permitir que uma loja centenária não se transforme num alojamento local.
Com a criação de roteiros, arquivos e inventários de memória oral para recolher testemunhos dos antigos comerciantes antes que desapareçam… Mais vale tarde do que nunca.
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