
Nelson Veríssimo
A freguesia dos Prazeres foi criada por carta do bispo D. António Teles da Silva, de 2 de fevereiro de 1680, na sequência da autorização concedida pelo alvará de 28 de dezembro de 1676, do príncipe regente D. Pedro. Teve como sede a Capela de Nossa Senhora dos Prazeres, edificada no século XVII.
Esta invocação mariana está relacionada com supostas visões em Alcântara, no final do século XVI. Celebra as sete alegrias de Maria: o anúncio do nascimento de Jesus pelo anjo Gabriel (Lc 1,26-38), a saudação de Isabel (Lc 1,39-45), o nascimento de Jesus (Lc 2,1-20), a visita dos Magos do Oriente (Mt 2, 1-12), o encontro com Jesus no Templo aos 12 anos (Lc 2,41-52), a aparição de Jesus Ressuscitado e a coroação de Maria no céu (episódios sem fundamento nos Evangelhos, mas ambos sustentados pela tradição da Igreja de Roma).
Depois de 1680, a igreja dos Prazeres esteve sujeita, em diferentes anos, à jurisdição das paróquias do Paul do Mar e do Estreito da Calheta. Só em 13 de março de 1734, o bispo D. Frei Manuel Coutinho desanexou a Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres da de Nossa Senhora da Graça do Estreito da Calheta, criando novamente a paróquia.

Nos provimentos da visitação de 1689 a Nossa Senhora dos Prazeres, o cónego Francisco de Sousa escreveu que esta igreja havia sido ereta em freguesia há mais de cinco anos, mas que não se deu princípio ao seu registo. Recomendou também algumas obras «visto a igreja ser mui pequenina e o alpendre dela estar tão arruinado». Em 1698, o visitador lembrou que o rei D. Pedro II tinha mandado construir uma igreja nesta freguesia, mas não se lhe tinha dado início, por haver dúvidas sobre a sua localização. Então o visitador indicou, como local ideal, um cerrado na Carreira por ser «um sítio mais acomodado e por ser mais abrigado dos ventos e no meio da freguesia junto à maior parte das casas e mais vizinho do Jardim de baixo». A ermida existente, segundo o mesmo visitador, localizava-se «muito à serra», num lugar frio e ventoso.
O novo templo começou a ser edificado em 1751. Por meados do século XIX, foi objeto de intervenção, por ordem do governador José Silvestre Ribeiro. Nos anos vinte do século passado, a igreja foi ampliada e profundamente remodelada. Novas intervenções ocorreram nas décadas de 1940 e 1960.
Em 1998, beneficiou também de obras de restauro, inauguradas em 5 de agosto desse ano. Nesta intervenção, as paredes interiores foram revestidas, na sua parte inferior, por um lambril de azulejos policromos, de padrão geométrico e ornamental, em tons de azul, branco e amarelo. Por esta altura, iniciou-se a construção do campanário da torre do lado da Epístola – há décadas inacabada –, com o objetivo de estabelecer a simetria da fachada.
Nossa Senhora das Neves tornou-se, em 1881, o novo orago da matriz. No assento de batismo de 2 de novembro desse ano, ocorre, pela primeira vez nos registos paroquiais, a denominação Igreja paroquial de Nossa Senhora das Neves. Contudo, o nome da freguesia continuou a ser Prazeres.

Durante séculos, esta freguesia dependeu da navegação marítima através do porto do Paul do Mar. Um caminho íngreme ligava as duas localidades. Só a partir de 15 de dezembro de 1935, o automóvel pôde circular entre o Funchal e os Prazeres.
A abertura da estrada trouxe forasteiros interessados em conhecer a freguesia, em particular os seus lugares pitorescos. Para a sua comodidade, foi fundada uma casa de chá, anunciada na imprensa em junho de 1937.

A rede de distribuição de energia elétrica chegou em 1955 ao concelho da Calheta, tendo sido inaugurada no dia 1 de outubro. Pouco a pouco, foi-se propagando às diversas freguesias deste município. Em 11 de junho de 1957, foi aprovada, em Conselho de Ministros, a adjudicação da empreitada de fornecimento e montagem da linha de transporte de energia elétrica (troço: Estreito da Calheta-Prazeres) e da rede de distribuição de baixa tensão dos Prazeres.
Paulo Dias de Almeida, em 1817, escreveu a respeito dos Prazeres: «Os terrenos estão em parte incultos, tendo muitos próprios para pinheiros. Pode produzir muito milho e trigo, porém tem falta de água, a qual lhe pode vir do Paul da Serra.» De facto, foi essa a solução, com a Levada Velha do Rabaçal em 1860 e, a partir de 1953, com a inauguração da Central Hidroelétrica da Calheta e a beneficiação hidroagrícola da Calheta-Ponta do Pargo. Esta levada veio a ser recuperada através de um projeto cofinanciado pela União Europeia – Fundo Europeu de Orientação e de Garantia Agrícola (FEOGA) e Fundo Europeu Agrícola de Desenvolvimento Rural (FEADER) – tendo o empreendimento sido inaugurado em 12 de maio de 2009.

A produção de cereais na freguesia e redondezas, na primeira metade do século XX, pode ser testemunhada pela existência de azenhas e uma fábrica de massas alimentícias nos Prazeres.
Na década de 1930, existiam duas azenhas de António Gomes de Araújo no sítio da Estacada, uma da sua esposa, Helena Neves Farinha, no mesmo sítio, e outra no Lombo da Velha, de Manuel Agrela Reis. Os seus proprietários tiveram, então, de comprovar a sua existência anterior a 15 de janeiro de 1932 e demonstrar que, após essa data, as azenhas não tinham sofrido alterações suscetíveis de aumentar a sua capacidade de laboração, nem tinham permanecido inativas por um período superior a dois anos, com vista à obtenção do respetivo licenciamento junto da Inspeção-Geral das Indústrias e Comércio Agrícolas.
António Gomes de Araújo achava-se coletado como fabricante de massas alimentícias desde o ano económico de 1932-1933. A sua fábrica situava-se no sítio da Estacada, num prédio urbano que possuía. Em 3 de janeiro de 1939, requereu alvará de licença para legalizar o seu estabelecimento. A energia era fornecida por uma roda hidráulica que se deslocava à força de 6 a 8 cavalos. A capacidade de produção, num período diário de oito horas, estava estimada em 480 kg.
Para dar maior desenvolvimento aos ramos de comércio e indústria que vinha explorando, Araújo resolveu associar-se com Manuel Agrela Farinha e Higino Alfredo de Abreu, constituindo, em 12 de outubro de 1948, uma sociedade por cotas de responsabilidade limitada, designada por «Araújo, Farinha & Companhia Limitada».
ANÚNCIO. ECO DO FUNCHAL. 2 OUTUBRO 1955.
António Gomes de Araújo faleceu em 1951. O seu filho vendeu a sua cota em março de 1961, ficando como senhorio das instalações do estabelecimento fabril, através da renovação do contrato de arrendamento. Foi então alterada a sociedade com a entrada de três novos sócios, permanecendo, da composição inicial, apenas Manuel Agrela Farinha, ex-vice-presidente da Câmara da Calheta.
A introdução da energia elétrica permitiu substituir a força hidráulica que anteriormente acionava os equipamentos e adquirir outros destinados à secagem das massas. Estas inovações contribuíram para a adoção de novas técnicas de fabrico e para o aumento da produção.

A firma «Araújo, Farinha & Companhia Limitada» atingiu o seu nível máximo de produção de massas alimentícias em 1955, sob a administração de Manuel Agrela Farinha.
Em março de 1962, foi transferida a sede e estabelecimento principal da sobredita sociedade para a Rua 5 de Outubro, n.º 8, no Funchal. Por escritura de 27 de novembro de 1973, deu-se a incorporação da sociedade «Araújo, Farinha & Companhia Limitada» na «Sociedade Mercantil Insular, Limitada», ficando dissolvida a primeira.
Com a mudança da fábrica para o Funchal, continuaram a ser produzidas as «Massas Prazeres» até 1985.
Nesta freguesia, laborou também uma fábrica de curtumes, desde setembro de 1993 até outubro do ano seguinte. Gerou contestação popular e política por causar poluição ambiental. Hoje, nas suas instalações, desenvolve-se o projeto cultural «Fábrica de Prazeres», um espaço multifuncional para exposições, concertos e eventos culturais diversos, fundado e dirigido por Vladislav Bejder. Abriu oficialmente ao público em 30 de abril de 2026.

A fim de apoiar os agricultores locais, travar o êxodo rural e estruturar o comércio agroalimentar da zona oeste da ilha, de acordo com as normas europeias, foi construído o Centro Hortofrutícola dos Prazeres (CAPRA), um investimento público de 771 mil contos, inaugurado em 8 de outubro de 1999. Para além da sua atividade de cariz logístico, esta infraestrutura destaca-se como polo de dinamização social e cultural ao acolher eventos festivos, com especial relevo para a tradicional «Noite do Mercado da Calheta».
Outros importantes projetos culturais dos Prazeres são a Quinta Pedagógica e a Galeria dos Prazeres.
A Quinta Pedagógica foi fundada em outubro de 2000, nos terrenos contíguos à igreja paroquial, pelo padre Rui de Sousa, com o objetivo de promover a educação ambiental, dinamizar culturalmente a freguesia, impulsionar a economia local e contribuir para a diminuição do despovoamento do meio rural. A utilização de fruta e ervas aromáticas para a confeção artesanal e natural de sidra, vinagres, licores, compotas e infusões tem vindo a ser apreciada pelos consumidores e reconhecida por entidades nacionais e internacionais.

A Galeria dos Prazeres, inserida no projeto da Quinta Pedagógica, foi inaugurada em 2008, por iniciativa do Padre Rui de Sousa e a curadoria de Patrícia Sumares. Mantém-se ativa e ao longo destes anos tem proporcionado a exposição de obras de muitos artistas portugueses e estrangeiros, constituindo um polo de dinamização cultural da localidade.

Nos ‘Censos de 2021’, esta freguesia apresentava 685 habitantes. Desde 1940, a população tem vindo a diminuir consideravelmente. Pelos últimos Censos, verifica-se que a população era 47,43% da recenseada em 1940. O Recenseamento Eleitoral, de 15 de junho de 2025, registou 830 cidadãos nacionais.
Num artigo publicado no Diário de Notícias (Funchal, 19-10-1941), pode ler-se: «Nesta, freguesia, talvez como em nenhuma da Madeira, a emigração, nomeadamente para o Transval, tem especiais seduções, que se transmitem, entre os seus habitantes, de pais para filhos.»
Assim, se pode concluir que a emigração explica, em grande parte, a diminuição da população. Todavia, o articulista deixou-nos um testemunho ímpar:
«Falei uma vez com um homem da Ponta do Pargo, que me pareceu pessoa de categoria, e que nos Prazeres aguardava a saída da camionete para a sua freguesia. As suas palavras impressionaram-me, quando, ao referir-se à impossibilidade que hoje frustram o desejo daqueles que pretendem ir trabalhar em terras estrangeiras, me afirmou: – Um dia que as facilidades da emigração voltem ao que já foram, fique sabendo que desde o Arco da Calheta até à Ponta do Pargo, só ficarão mulheres, velhos e crianças. O mais abala tudo! …».
É a procura de melhores condições de vida que justifica a emigração. Emigrar motivado pelo espírito de aventura traduz uma perspetiva marcadamente burguesa, própria de quem dispõe de condições materiais que permitem encarar a emigração como uma escolha, e não como uma necessidade.
Infraestruturas e investimentos turísticos com baixos salários não pararão a emigração e não impedirão o despovoamento dos meios rurais. Pelo contrário, atrairão, sim, mão-de-obra estrangeira, desenraizada, que se acomoda em habitações indignas e aceita salários baixos, mas, comparativamente, altos, em relação aos seus países de origem.

Heráldica da freguesia: Armas – Escudo de azul, coroa mariana de ouro, com sua pedraria e dois pinheiros arrancados de prata, frutados de ouro, tudo alinhado em roquete; movente da campanha, monte de três cômoros de prata. Coroa mural de prata de três torres, listel branco com a legenda a negro: “PRAZERES – CALHETA”. (Diário da República n.º 22, 2.ª Série, Parte H, de 02-02-2009).
Agradecimentos: Eugénio Perregil, Ilídio Gonçalves, Paulo Melich Farinha, Rev.º Padre Rui de Sousa, Rev.º Padre Roberto Manuel Sé Aguiar.
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