Dever de memória

 

Quem me conhece, sabe que a minha grande paixão foi, sempre, o jornalismo. Um jornalismo entendido como exercício de cidadania, na perspectiva de quarto poder, independente, por conseguinte, dos demais poderes.

Uma paixão que começaria na juventude, na 2ª metade da década de 60, aquando da passagem, no Funchal, pela Juventude Operária Católica, escrevendo curtos textos numa folha policopiada em stencil e no órgão mensal da organização, “Juventude Operária”, e que se intensificaria com a aproximação estabelecida como semanário “Comércio do Funchal”. Uma ligação que prosseguiria no pós-25 de Abril quando em 1975, entre 15 de Janeiro e 25 de Novembro, fui redactor do Emissor Regional da Emissora Nacional e correspondente do vespertino “República”.

Foi esse gosto, esse prazer pela escrita que me levaram, em finais de 1987, a candidatar-me a um concurso destinado à admissão de jornalistas que a empresa D. N., Lda., propriedade do “Diário de Notícias” do Funchal, então promoveu.

“Diário de Notícias”, com quem, aliás, já colaborava, nomeadamente através do suplemento «Domingo», coordenado pelo jornalista Tolentino de Nóbrega, no qual, a partir da edição de 22 de Novembro de 1987, era responsável pela rubrica «A semana vista por …», em que comentava a actualidade, nas suas três dimensões: regional, nacional e internacional.

Tratou-se de um concurso, sujeito a provas de selecção e que culminou com uma entrevista com o psicólogo dr. Agostinho Trindade de Sousa, que, por sinal, na segunda metade da década de 60, sucedera ao dr. José Manuel Paquete de Oliveira, na chefia de redacção do “Jornal da Madeira”, que, no final, disse-me não ter dúvidas que reunia as condições para poder ser admitido como jornalista no «DN», mas que, naturalmente, a decisão competiria à respectiva Administração e Direcção.

Tinha sabido, entretanto, que fora dos melhores classificados do concurso, bem como que estavam a ser ouvidas pessoas para eventual admissão como jornalistas no «DN», sem que tivesse sido chamado.

Contactado o então Director-Geral da empresa D.N., Lda., dr. José Câmara foi-me dito que o meu nome “havia sido excluído por decisão do Director do «Diário de Notícias», Sílvio Silva e que o mesmo havia acontecido com, pelo menos, mais duas pessoas”.

Inconformado com a exclusão, expressaria o meu descontentamento e protesto através de carta dirigida a Richard Blandy, presidente do conselho de administração da citada empresa que, em resposta, invocando a “Lei da Imprensa”, referiu que “compete ao Director a orientação, superintendência e determinação do conteúdo do periódico” e que “não pretendia imiscuir-se nas tarefas que não lhe dizem respeito, como a escolha de pessoas para o exercício de funções de jornalista do Diário de Notícias”. Nessa missiva, datada de 3 de Junho de 1988; Richard Blandy fez ainda questão de acrescentar: “Esta empresa como privada que é, norteia-se por objectivos comerciais legítimos, não faz política, nem se deixa condicionar por pressões exteriores que possam alterar os seus propósitos”.

Aqui chegados, permitam-me um parenteses: esta história, contada na primeira pessoa, ao contrário do que o leitor possa estar a pensar ou a interpretar, não tem como objectivo contar um episódio da minha existência, mas, a partir dele, demonstrar como, ao longo de dezenas de anos, foi construída uma Região que, passados 50 anos, está muito distante de poder ser apresentada como modelo de virtudes.

Mas, para completar esta história pessoal, há ainda factos adicionais:

A rubrica «A semana de …» terminaria a 3 de Abril de 1988. Uma semana antes (Suplemento «Domingo» de 27/3/88), analisando a actualidade regional, designadamente a posição do Governo Regional face à greve geral contra o pacote laboral do governo de Cavaco Silva tinha escrito (cito): “(…) tal como lá, o Governo Regional viu-se na necessidade de tentar desmobilizar os trabalhadores, chegando ao ponto de afirmar que aderir à greve «é atrair sobre si as atenções», o que convenhamos constitui uma forma de intimidação”. Em consequência, sou informado que deixaria de poder escrever sobre matérias de âmbito regional e nacional. E em sinal de gratidão, a criatura que se auto intitularia de «único importante», em entrevista publicada no «Jornal da Madeira» de 1 de Maio desse ano, afirmava: «o DN está muito bem entregue» (sic)!.

A 9 de Janeiro de 1989, Jorge Figueira Silva, advogado da empresa Blandy, militante do PPD, sucede a Sílvio Silva na direcção do matutino madeirense.

E o autor destas linhas que voltara a colaborar no aludido suplemento publicando dossiers vários e entrevistas com vultos de diferentes áreas da sociedade portuguesa, um dia dirige-se à redacção do «DN» e pede para falar com o novo director. A conversa decorre no último andar das instalações, à época situadas na Rua da Alfândega, 8. Tinha como intenção retomar a publicação de textos de opinião. O dr. Jorge Figueira da Silva diz-me que, para já, só se forem de análise internacional. E coloca ainda uma outra condição: arranje um pseudónimo. Questionado sobre o porquê, e apontando para as janelas do referido andar (onde ao longe se podia visualizar a zona onde se situa a denominada Quinta das Angústias, sede da Presidência do Governo), disse-me: «Você não imagina as pressões, os telefonemas que recebo aqui, todos os dias!».

O gosto, a paixão pelo jornalismo levou-me a aceitar escrever apenas sobre assuntos de carácter internacional, recusando, porém, fazê-lo através de pseudónimo. Recorri aos nomes do meio do meu próprio nome e assim, em Novembro e Dezembro desse ano de 1989, no diário que se reclama de «independente», lá estão alguns artigos da autoria de um tal de Henrique Fernandes (para quem não sabe, o meu nome completo é António Henrique Fernandes Sampaio).

A obsessão do ex-destacado colaborador do «Voz da Madeira» pelo controle da comunicação social começara desde cedo, ainda como líder parlamentar. Uma das primeiras medidas apresentadas, no início da 1ª sessão legislativa da Assembleia Regional, eleita na sequência das eleições de 27 de Junho de 1976, foi precisamente a de uma proposta de criação de uma denominada «CIRCE – Comisao dos Interesses Regionais na Comunicação Estatizada», cujo objectivo era o de, com base na representatividade eleitoral, interferir e condicionar o exercício na Região da actividade dos emissores regionais da rádio e televisão – a proposta não passaria no crivo da então Comissão Constitucional, mas, como é por demais evidente, a intenção de controlar, domesticar e manipular a generalidade da comunicação social nunca foi abandonada, constituindo um desiderato fundamental da futura governação.

A história da Madeira foi profundamente marcada pelo secular regime de colonia, assente num regime de subserviência, de servilismo, de completa dependência do caseiro relativamente ao senhorio.

O regime seria oficialmente extinto em 1977, pondo termo a essa sujeição.

A canga, contudo, não foi eliminada. Permaneceu com outras roupagens e protagonistas.

A autonomia conquistada foi capturada por um partido e em particular pela personagem que o bispo Francisco Santana catapultaria para o exercício do poder. E em lugar desses senhorios surgiu o grande senhorio que ao mesmo tempo que reclamava de Lisboa mais autonomia centralizava em si todo o poder. Ameaçando e ostracizando quem não se submetia à sua omnipotente vontade. Insultando e perseguindo adversários políticos e simples cidadãos. Aliciando pessoas e instituições. E criando, em simultâneo, um gigantesco polvo, cujos tentáculos cobriam (cobrem) todas as áreas e sectores da sociedade regional.

É, por isso, insultuoso que quem edificou esta gigantesca canga, tenha a suprema lata de perorar sobre «Bem Comum», «Liberdade», «Valores», «Primado da Pessoa Humana».

A democracia tem regras. Não é o reino do vale tudo. Não se define apenas pela realização de eleições livres. Implica separação de poderes (legislativo, executivo, judicial).

Uma alegada «democracia musculada» não passa de uma caricatura de democracia.

Quem acompanha de perto a política internacional conhece, por exemplo, os nefastos efeitos de uma governação como a de Victor Órban na Hungria ou da passagem pelo poder de Donald Trump nos EUA.

Ora, num território como o da Região ou numa população de 250, 260 mil habitantes, uma governação, exactamente com essas mesmas características, produz consequências incomensuravelmente bem mais gravosas, tanto mais que foram disseminadas ao longo de dezenas de anos.

E elas estão à vista, para quem queira ver. Uma sociedade onde predomina a apatia, o acomodamento, o servilismo, o medo.

 

* por opção, o presente texto foi escrito de acordo com a antiga ortografia.


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