Política no pináculo

Logo que se conheceram os resultados das eleições para a Assembleia Legislativa da Região Autónoma da Madeira, ficámos a saber que o PSD e o CDS estavam para casar, o que nos leva a supor que o namoro vinha de longe, embora de forma discreta.

O líder do CDS, que acabava de perder mais de 9200 votos e 4 mandatos, mostrou-se bem-disposto, a sorrir, faceta, na verdade, quase desconhecida do público. O outro noivo também cantou vitória, com um ar mefistofélico, depois de ter perdido 3 deputados e, por conseguinte, a maioria absoluta. E festejou na rua, apesar de ter obtido a percentagem mais baixa de sempre em votos no PSD, nas eleições legislativas regionais.

Preparam agora o casamento governamental, que deverá ser oficialmente anunciado depois das eleições para a Assembleia da República, que se realizarão no próximo domingo. Provavelmente, esperam ainda idêntico matrimónio em Lisboa, o que não deverá acontecer.

O PS, que se mostrou demasiado confiante antes do tempo, obteve excelente votação, mas com o casamento à direita, resta-lhe uma oposição firme na Assembleia Legislativa Regional, um trabalho sem tréguas, pensando no bem comum e no futuro, que se constrói sem desânimos e com muita persistência. Neste resultado, há que distinguir o efeito da popularidade de Paulo Cafôfo na votação dos socialistas. Contudo, Cafôfo precipitou-se, quando, na noite eleitoral, lançou o repto de construção de uma alternativa governativa com diversas forças políticas, uma espécie de salada russa. Deveria ter gerido esse projecto de forma recatada, fora dos holofotes da comunicação social, e só apresentá-lo quando tivesse conquistado a noiva, inicialmente rendida aos encantos do PSD.

O JPP também perdeu 2 mandatos e 5284 votos, o que se pode justificar, entre outras razões, pela inegável bipolarização – PSD / PS, que afectou todos os partidos mais pequenos, e também, por agora, confrontar-se com um contexto bem diverso das eleições de 2015, tempo em que estava mais presente o sentimento de repúdio pelas fórmulas governativas do PSD e do Dr. Jardim.

A CDU perdeu 1 deputado e 4483 votos, enquanto o BE deixou de ter representação parlamentar.

Não fosse a ganância pelo Poder, a política madeirense centrar-se-ia doravante na Assembleia Legislativa, como deveria ser, e nunca aconteceu devido às maiorias absolutas.

Obrigar o PSD a negociar no parlamento, para governar, fortaleceria a nossa democracia. O casamento de conveniência dará ao CDS o prazer de degustar a governação da Região, mas, como em outros matrimónios interesseiros, a excitação da lua de mel cedo poderá transformar-se numa grande desilusão, com prejuízos avultados. O conúbio ficará ainda marcado indelevelmente pela violência e humilhações que uma parte sujeitou a outra durante quatro décadas. Contudo, o noivo deslumbrado com a cadeira, onde aspira vir a se sentar, parece esquecido desses tempos em que era insultado e ridicularizado.

Se o casamento vier a se consumar, mesmo contra a vontade de alguns notáveis da família CDS, que ainda têm memória e dignidade, resta aos deputados, que não se identificam com a governação PSD, a união de forças no sentido de a presidência da Assembleia Legislativa da Madeira ter uma cor diferente, para que assim a Região comece a trilhar o percurso de uma democracia adulta. Negociações discretas, estratégias bem delineadas e o voto secreto podem assegurar este desejável desfecho.

Se assim não acontecer, estão a abrir caminho para que, daqui a 4 anos, o PSD retome a maioria absoluta e o CDS caia do pináculo.


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