Carlos da Áustria

Numa tentativa de reescrever a História e até de limpar a imagem de uma Monarquia Absoluta que perdurou até à Grande Guerra, há um grupo poderoso que tudo promove para fazer do último imperador da Áustria um santo. Como se tal condição apagasse o passado. Desdobram-se em edições, algumas patéticas, como ‘Carlos e Zita de Habsburgo: Itinerário Espiritual de um Casal’, conferências, exposições, viagens de promoção, Liga de Oração do Imperador Carlos para a Paz dos Povos, Associação para a Beatificação da Imperatriz e Rainha Zita, Esposa e Mãe de Família, e anseiam «milagres». Até na nossa Catedral e noutras igrejas foi exposto o retrato do imperador, em lugar proeminente, fomentando a sua veneração, sem contar aos crentes o que ele e a sua família representaram.
Infelizmente uma visão retrógrada do Catolicismo, apadrinhada pela organização eclesiástica, faz com que muitos clérigos falem mais de beatos e santos do que da palavra, por vezes incómoda, do Filho de Deus.
Cristo, porém, condenou os fariseus por, entre outras razões, filtrarem um mosquito e engolirem um camelo (Mt 23,26).
Rezam pela obtenção de um sinal da santidade do imperador, por um «milagre», mesmo vindo de remotas partes do mundo, esquecendo o que Cristo disse aos escribas, que também pretendiam um sinal do Mestre: «Uma raça iníqua e adúltera procura um sinal; e nenhum sinal lhe será dado, a não ser o sinal de Jonas, o profeta. “Tal como Jonas esteve nas entranhas do ser marinho durante três dias e três noites, assim estará o Filho da Humanidade no coração da terra durante três dias e três noites.” (Mt 12,38-40). O verdadeiro sinal é a Ressurreição, pedra basilar do Cristianismo.
Como já escrevi em 30-04-2022, no FB: Para a História, o último imperador da Áustria, monarca absoluto de um vasto território, onde perdurava a miserável exploração dos camponeses e do operariado, não é o “santo” que a sua família e a Igreja Católica querem colocar nos altares.
É certo que Carlos da Áustria, como, de resto, outras personalidades do seu tempo, inclusive o papa Bento XV, pretendia a paz e o fim da Grande Guerra. Também é certo que a Áustria-Hungria se retirou da guerra em 4-11-1918. Mas convém lembrar as revoltas nas casernas do seu exército, que estava exausto, subalimentado, desmotivado, revoltado e agitado pela luta das nacionalidades. Em 1918, no interior da Áustria-Hungria havia cerca de 300 000 desertores, que organizados em bandos, denominados “reservas verdes”, dedicavam-se ao banditismo. Em 12-11, o Imperador Carlos I reconheceu o direito da Áustria-Hungria de determinar a sua forma do Estado e renunciou ao direito de participar nos assuntos do Estado austríaco. Dois dias depois publica idêntica proclamação para a Hungria. Não abdicou, como erradamente se diz. E manifestou-se disponível para assumir as funções que os povos dos dois Estados, eventualmente, lhe quisessem atribuir. O que, tanto a maioria dos austríacos como a dos húngaros, não quiseram. Face a esse repúdio da população, que não esqueceu as agruras passadas no império absolutista, ele conspirou para restaurar a monarquia, tendo a sua atitude sido condenada a nível internacional, pois poderia colocar em risco a paz. Foi, exactamente, por conspirar que foi exilado na Madeira. […]
Uma coisa é a história do imperador, construída com rigor sobre documentos e factos, outra é a versão romanceada (ou branqueada) sobre essa personagem, que assumiu o poder, por acaso do destino e sem estar devidamente preparada. A História não julga, mas também não pode ignorar o que, com efeito, aconteceu.
Nota final: Vejo tanto empenho da Diocese do Funchal e da RAM na canonização do Imperador e tão grande esquecimento pela causa da Irmã Wilson, essa sim, uma grande mulher que se dedicou aos mais desfavorecidos da sociedade madeirense, promovendo, em especial, a Educação e a Assistência na Doença, valores essenciais da prática cristã. Mas Mary Jane Wilson não precisa de ser beata ou santa para ser lembrada! E termino, citando novamente Mateus: «A pessoa boa tira coisas boas do bom tesouro; a pessoa má tira coisas más do tesouro mau.» (12,35)
Texto publicado por Nelson Veríssimo na sua página de Facebook.