Forever Young

Forever Young senti-me eu naquela festa.

Como se o tempo fosse uma ilusão.

Como se a minha versão que deambulava por aquele pátio, de Levis 501 coladas, com os botins de salto grosso da Pablo Fuster e as camisas três tamanhos acima, surripiadas do vestuário de meu pai, ainda ontem tivesse andado pelo Liceu a passear os livros pela mão. Antes destas coisas dos tablets.

Como se as rugas que vi a espreitar nos rostos daqueles tão forever young como eu tivessem de ser fenómenos esdrúxulos de luz e não marcas inevitáveis do tempo.

(Queria mesmo ouvir o “Zombie”. Como nos bailes de finalistas.)

Como se, numa alucinação coletiva, todos os que ali estavam rodeados das paredes cor-de-rosa, com vista para o relógio – jurava que aquele relógio não existia – tivessem sido teletransportados pelo Scotty até ao passado.

Numa versão anos noventa de um “peace and love” dos setenta. Todos, por passe de mágica, se conheciam. Rivalidades de grupos era coisa enterrada, os desentendimentos perfeitamente esquecidos e a distribuição pelos saudosos bancos das diversas classes – betos, metaleiros ou totós – absolutamente irrelevante.

Todos ávidos, sedentos daquela música, das pessoas do nosso tempo.

Que festa tão boa.

(Nunca passam o “Zombie”, caramba).

Perceção coletiva daquilo que ouvi e repeti ad nauseum. Os clichets. O tempo passa tão depressa. Ainda ontem aqui estávamos e daqui a nada são os nossos filhos. Como é que aqui chegámos?

Como é que aqui chegámos?

Conversas entrecortadas, acenos à distância, sorrisos abertos. E muitas gargalhadas.

Grupos de amigos que se mantêm unha e carne desde o Liceu. Bonito.

Recordações e revelações, num misto de nostalgia e novidade. Lembrou-se a Nádia das minhas socas brancas com sola de madeira, que eu amava. Quase parti a cabeça mil vezes por causa das minhas socas brancas com sola de madeira, que eu amava. Nem por isso as deixei de usar.

Forever young me senti naquela noite.

(Já sei, vou chatear a Sofia para ir comigo pedir o “Zombie” ao DJ)

E dei por mim a olhar para a minha versão de Levis 501 tão apertadas que quase me cortavam a circulação e sussurrei-lhe entredentes que vai correr tudo bem.

Outro clichet.

Mas quis dizer-lhe. Dizer-me. Que a adolescência passa, que os receios serenam e as dúvidas não desaparecem, mas passam a ser outras. Que a culpa era das hormonas.

Não me vou contar como serão as hormonas, ou falta delas, agora. Coitada, já tem o suficiente com que lidar.

Quis dizer-me que, passados mais anos do que aqueles que quero contar, estaria ali de volta.

Que, depois de um dia glorioso na Fajã dos Padres, com a família que construi e me faz tão feliz e amigos que me fazem rir, estaria ali.

Que enquanto esperava pelo whisky cola – ou é old school ou não é – e olhava para os amigos de sempre que estavam à minha espera para dançar, sentiria o círculo a fechar-se. A coisa a compor-se.

Que ia ficar tudo bem.

(Está a dar o “Zombie”, Sofia! Zombieeee, zombie…..!)

Forever young me senti.

E depois veio o dia a seguir.

A dor de cabeça. Maldito whisky.

A dor na lombar. Maldita PDI.

“It’s in your head, in your head….”

Um autêntico zombie.


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