AF!
Era uma vez um menino muito vaidoso, habituado a entrar em campo com a certeza de que todos deviam servi-lo, aplaudi-lo e, de preferência, pedir-lhe desculpa quando alguma coisa corria mal. Durante anos, a mamã — neste caso, uma espécie de corte nacional com megafones, bandeiras e comentadores especializados em idolatria — repetiu-lhe que ele era o melhor, o maior e, provavelmente, a última esperança da humanidade futebolística.
O menino cresceu. Marcou golos, ganhou troféus e acumulou estátuas, prémios e fotografias suficientes para decorar um estádio inteiro. Mas, com tanta celebração, acabou por confundir admiração com direito adquirido. Sempre que jogava, esperava tratamento VIP; sempre que era substituído, parecia que lhe tinham retirado a nacionalidade; e sempre que alguém ousava criticá-lo, era como se tivesse cometido um crime contra a pátria.
Até que apareceu o “pai”. Não um pai verdadeiro, naturalmente, mas alguém com a inconveniência de exercer autoridade: decidiu repreender a criança, lembrar-lhe que a Seleção não é uma extensão da sala de estar e que nenhum jogador, por maior que seja, está acima da equipa.
A reação não se fez esperar. O menino franziu o sobrolho, cruzou os braços e anunciou que já não queria brincar. A bola deixou de ser interessante, os colegas passaram a ser figurantes e a camisola nacional, que durante anos servira de capa para discursos patrióticos, foi arrumada no armário — ao lado da humildade, aparentemente desaparecida há muito tempo.
“Se não posso mandar em tudo, então abandono a Seleção!”, terá pensado a criança, enquanto aguardava que o “pai” viesse pedir desculpa em nome de todos os portugueses.
Entretanto, o país dividiu-se. Uns perguntaram onde estava a gratidão; outros procuraram imediatamente um culpado; e os mais devotos começaram a preparar a habitual cerimónia de canonização desportiva. Porque, em Portugal, um jogador pode abandonar a equipa, desrespeitar colegas ou comportar-se como se o balneário fosse propriedade privada — mas basta ter marcado muitos golos para que qualquer crítica seja considerada heresia.
O problema é que a Seleção não é um infantário para egos milionários. É uma equipa. E numa equipa há regras, responsabilidades, treinador, colegas e, sobretudo, a noção básica de que ninguém recebe imunidade diplomática só por ter uma estátua no aeroporto.
Se Cristiano Ronaldo decidiu mesmo abandonar a Seleção por não aceitar uma repreensão, então talvez tenha finalmente revelado a verdadeira dimensão do problema: não lhe faltam pernas para correr atrás da bola; falta-lhe disposição para ouvir quando alguém lhe diz que também pode estar errado.
E assim termina mais um episódio da longa novela do menino mimado da mamã: habituado a ser tratado como rei, descobriu, com horror, que até os reis podem ser chamados à atenção. A diferença é que, neste caso, o castelo é financiado pelos contribuintes, a coroa é feita de manchetes e o trono fica no banco de suplentes.
Quanto à Seleção, talvez sobreviva. Afinal, Portugal já passou por crises maiores — incluindo outras conferências de imprensa, várias guerras de egos e a eterna dificuldade nacional em distinguir patriotismo de culto da personalidade.
Nota: A rubrica “Estepilha” utiliza uma linguagem metafórica e irónica (característica do termo regional madeirense “estepilha”, usado como interjeição ou para descrever alguém traquina) para tecer críticas sociais ou desportivas sob o formato de uma fábula (“Era uma vez um menino muito vaidoso…”). Não se trata, portanto, de uma notícia factual ou de um comunicado oficial sobre a Seleção Nacional de futebol.
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