T(r)APalhadas!

Soube-se esta semana que a companhia aérea TAP, acrónimo que em Inglês se traduz, com alguma razão, como “Take Another Plane”, depois de milhares de milhões de euros de dinheiros públicos usados para a salvar, uma mera insignificância de quase 4 mil milhões, vai renovar a sua frota de automóveis, espatifando, o dinheiro público, “para variar”, na substituição de 50 viaturas Peugeot para os seus muito modestos e poupadinhos administradores e gestores por humildes modelos BMW, com valor de mercado a partir de económicos valores de 52 e 65 mil euros. “PEANUTS”, como dirão os privilegiados e seus sequazes.

Afinal, não há nada mais edificante do que dar o bom exemplo, com mais este admirável “esforço de contenção” com novos popós para meninos bem!!! Mas, “Keep calm”, não comecem já com juízos precipitados. Uma voz do Além da Companhia já fez saber que a maioria da frota é detida em regime de ‘renting’ operacional desde 2017 e atinge o máximo de prorrogações possíveis em contrato no próximo ano. Ou seja, era necessário renová-la, independentemente da escolha dos novos veículos. Sublinhe-se “independentemente da escolha dos novos veículos”, razão pela qual a escolha recaiu sobre carros de luxo que a Companhia quer fazer passar por uma espécie de “Marca Branca” para sultões.

Num comunicado interno, com toda a certeza cozinhado por especialistas em vigarice anónima, como convém, a justificação corre nos seguintes termos: “Com a opção que fizemos, estamos a poupar anualmente até 630 mil euros, se tivéssemos mantido os carros que temos hoje”. “Não havendo outra opção senão celebrar novos contratos, optou-se por viaturas híbridas “plug-in”, em vez do atual diesel, por motivos ambientais, mas também pelos benefícios fiscais associados a estas viaturas, menos poluentes”, justificou a comissão executiva da TAP, “uma poupança superior a 20% do valor mensal da renda e tributação, relativamente a novos contratos de “renting” para viaturas com características semelhantes às atuais (gasóleo), estando em linha com o plano de reestruturação, uma vez que representa o menor custo possível em sede de concurso no mercado”. Mais, “A proposta escolhida foi a que apresentou o preço mais baixo, com uma renda mensal de 500 euros. Como referência, as outras propostas apresentadas à TAP com valor mais competitivo contemplavam rendas mensais de 750 euros”, segundo a mesma voz aérea. Como se diz num anúncio publicitário: “Sim, sim, sim. Mas podemos ir ao que interessa?”

O que verdadeiramente interessa ou, em bom politiquês, a “questão essencial”, que, afinal, se divide em duas, é que a alegada poupança (ou será esbanjamento?) de 630 mil euros/ano, diz a Companhia, está no Contrato, apenas com um insignificante pormenor: o Contrato, ou Contrato-Fantasma, não se encontra disponível no Portal BASE!!! Por estas e por outras é que uma pessoa não consegue evitar lembrar-se das sábias palavras  do Primeiro-Ministro sobre a importância do desenvolvimento cuneiforme da escrita pelos Sumérios. Talvez  fosse bom lembrar-lhe que a anedota mais antiga de que há registo tem assinatura suméria, remontando a 1900 a.C., e, conforme se vê, tem muitos seguidores.

Quanto à segunda parte da “Questão essencial”, há que dizer que a Moralidade e a Ética andam há muito divorciadas da Legalidade. Pior ainda, com divórcio litigioso.

Não que os contribuintes já não estejam habituados a explicações de “Física Quântica” e a argumentações pinoquianas, de resgates de bancos, de distribuição igual de sacrifícios e apertos, da necessidade de “todos” (todos já está no dicionário como sinónimo de “os mesmos”) pagarem o pato, mas apenas alguns se repimparem com arroz de pato. O Presidente da República esteve muito bem ao lembrar que “Quando se está num período de dificuldade deve fazer-se um esforço para dar o exemplo de contenção”, é preciso “ter algum bom senso” quando o país e o mundo atravessam um “período difícil”, mas, melhor ainda, esteve ao recordar igualmente aos senhores de outras cores partidárias, incluindo a sua, que esta coisa de atirar pedras, quando se tem telhados de vidro, merece alguma moderação e memória de médio e longo alcance. “Já falei em relação a várias entidades públicas no passado,  em relação à distribuição de dividendos, e em relação aos salários, e entendo que quando se está num período de dificuldade deve fazer-se um esforço para dar o exemplo de contenção”. Muitas manifestações de repúdio (e bem) vieram de extremos políticos opostos, exigindo uma atuação do Governo, considerando um insulto o que a Administração da TAP fez ao país e apelando no sentido de que o Governo, enquanto representante do Estado junto da empresa, faça o devido reparo,  manifestando outros a vontade de questionar o Ministério das Infraestruturas, que, até agora, reagiu com  um silêncio ensurdecedor. Da parte dos trabalhadores da TAP veio a reação, por sinal, mais contundente. Muito oportunamente, o Sindicato dos Pilotos da Aviação Civil fez questão de sugerir à TAP a mesma lógica de “gastar mais, para poupar”, lógica da batata com a qual a companhia se defendeu sobre a renovação da frota automóvel corporativa, para a reposição das condições laborais dos trabalhadores. Em comunicado, o Sindicato dos Pilotos da Aviação Civil da TAP traduz muito claramente o quão repugnante e revoltante foi a decisão da renovação das carruagens reais da Administração, e citamos: “Enquanto uns têm cortes brutais nos seus vencimentos, quando ainda há processos de despedimento em curso e quando se condiciona a qualidade de vida a outros, em simultâneo, renova-se o parque automóvel dos cargos de direção”, defendendo que “para a existência de paz social, é imperativa a presença de justiça social”. Neste contexto, o SPAC considera que a “nova atitude” perante “os gastos” terá de abranger os pilotos na reposição das condições laborais. “Se tal não acontecer ficaremos realmente surpreendidos e seremos obrigados a acreditar na hipótese de que a administração da TAP ou não quer aplicar o excedente financeiro na justa reposição das condições laborais dos trabalhadores, ou não existe excedente financeiro e esta renovação da frota foi paga com os cortes nos salários dos trabalhadores”, acrescenta-se. Será a primeira hipótese mais provável, a segunda mais provável que a primeira ou ambas igualmente prováveis?

A opção de natureza fiscal associada aos veículos “plug-in” poderia ser considerada, mas noutras circunstâncias, que não as atuais, não sendo de todo compreensível a falta de preocupação com a imagem que se passa, sobretudo quando a contratação de veículos “premium”, topo de gama, é paga com a ida ao bolso já roto e descosido dos contribuintes do costume para uso e abuso dos reizinhos “avezados” a costumeiras, injustas e imorais mordomias, sempre   inadiáveis e irreversíveis.

Medida de boa gestão, além de “verde”, seria gestores e diretores  deslocarem-se para a TAP ecologicamente a pé ou de trotinetas “verdes”. Ou melhor, a bem da Saúde, sua e nossa, gestores destes, “ponham-se a andar”.

O silêncio e não reversão destas e de outras malfeitorias que tais só vêm provar mais uma vez a perceção de que em Portugal a culpa não morre, vive solteira e feliz para sempre, num filme de terror perto de si.

Antes de acabar, lembrei-me que até  pode não estar mal pensado. Ao preço de assalto descarado a que estão as passagens para a Madeira, a frota dos módicos bólides estará saldada neste Natal ou, o mais tardar, pouco depois do fim de ano.