O passeio da relíquia

Para encerramento das comemorações dos 500 anos do Voto a São Tiago Menor, a Diocese organizou uma peregrinação das relíquias do apóstolo, que, através de um sorteio realizado na Câmara do Funchal em 8 de Junho de 1521, foi designado “intercessor e advogado ao Senhor Deus por o povo desta cidade”, no combate à peste.

Entendeu a Diocese exibir, por toda a Região, um fragmento ósseo, dito de São Tiago Menor, e congregar os católicos em torno dessa relíquia, como se ainda vivêssemos na Idade Média. Já em Dezembro de 2005 estiveram na Madeira as relíquias de Santa Teresinha do Menino Jesus, no périplo pelas dioceses portuguesas.

A veneração das relíquias associa-se ao culto dos santos e mártires. Mas, esclareça-se, o martírio não se restringe à condenação cruel. Foi também ansiado, incentivado, praticado e festejado por muitos cristãos nos primeiros séculos da nossa era, num “louco comportamento”, como escreveu Santo Agostinho.

Com a expansão territorial da Igreja, e perante a impossibilidade de reunião de todos os cristãos junto das sepulturas dos apóstolos, santos e mártires, iniciou-se a prática de retalhar os cadáveres e distribuir os fragmentos pelas diferentes comunidades. Estavam assim inventadas as relíquias sagradas, que podiam ser ossos, unhas, cabelos, sangue, o leite de Maria … ou instrumentos do martírio, tais como a cruz de Cristo, pregos, espinhos, lanças, flechas, correntes…. Havia também as relíquias de contacto: peças de roupa, terra da sepultura, adereços, o que havia estado em contacto com o cadáver do mártir ou santo.

Quando alguém morria com fama de santidade, logo o seu corpo era mutilado para obtenção de relíquias. Um dos exemplos mais confrangedores é São Francisco Xavier (1506-1552), diversas vezes exumado e mutilado, numa espécie de martírio após a morte. A profanação do cadáver era então tolerada em nome do sagrado e da fé.

Em 1686, uma relíquia de Xavier chegou a Salvador da Baía para socorro da peste, denominada de Bicha, que então grassava na cidade. Francisco de Holanda (c. 1517-1585) escreveu, em 1571, que um braço de São Sebastião protegeu Lisboa da peste durante 40 anos, referindo-se a um tempo sem a maligna, anterior a 1569, quando uma terrível epidemia, só na capital, matou mais de 70 000 pessoas em apenas quatro meses.

Às relíquias atribuíam-se poderes miraculosos, principalmente na peste, guerra e doença. A posse de relíquias significava protecção, remédio, poder, riqueza, prosperidade e nobreza. À sua volta, criaram-se narrativas mirabolantes, repetidas em sermões fervorosos.

O negócio e o culto supersticioso das relíquias desenvolveram-se com tal exagero que se tornou motivo de escândalo para muitos cristãos, no Renascimento. Erasmo (1466-1536) afirmou que as igrejas da Europa possuíam pedaços do Santo Lenho em quantidade suficiente para construir um navio. Havia cinco tíbias do jumento montado por Cristo na entrada em Jerusalém e doze cabeças de São João Baptista. O arcebispo de Mogúncia gabava-se de possuir uma libra do vento, que soprou sobre o profeta Elias no Monte Horeb, e duas penas e um ovo do Espírito Santo. Relíquias desta natureza descredibilizavam a Igreja de Roma, tendo merecido a crítica severa de alguns cristãos, católicos e protestantes.

Contudo, o Concílio de Trento veio legitimar e regular esta prática devocional. O Tribunal do Santo Ofício encarregou-se de reprimir e punir qualquer crítica a essa veneração.

Havia afamadas colecções de relíquias, como, por exemplo, as de Filipe II, no Escorial, ou de Frederico, o Sábio, no Castelo de Wittemberg. Alguns mosteiros também possuíam numerosas relíquias, como o Convento de Jesus, de Setúbal, que, entre outras, exibia um pêlo da barba de Cristo, um pedaço do pão da Última Ceia, o pano usado no lava-pés, a cana que os soldados de Pilatos colocaram na mão de Jesus, ossos e dentes de apóstolos e santos.

Na evangelização dos territórios ultramarinos, jesuítas e franciscanos promoveram a veneração de relíquias, importadas e locais, que serviam para incrementar a devoção aos santos intercessores de graças e favores divinos, junto dos indígenas.

O culto das relíquias está, por de mais, envolvido em fantasias absurdas e embustes. Pouco ou nada contribuiu para a elevação espiritual ou a edificação do verdadeiro cristão. Revelou-se um dos caminhos do obscurantismo religioso e uma forma de idolatria. Se São Paulo tivesse a possibilidade de visitar muitas cidades medievais, que disputavam a posse de relíquias, talvez se sentisse tão irritado como quando esteve em Atenas: “irritava-se-lhe o espírito ao ver quão idólatra era a cidade.” (At 17, 16)

Se hoje criticamos essa veneração, como o fizeram alguns cristãos noutras épocas, é porque há quem, infelizmente, se empenhe em trazer tenebrosas práticas do passado para a Igreja do século XXI. O culto dos relicários não se compatibiliza com o nosso tempo. Como afirmou o Papa Francisco na Catedral de Bratislava, em Setembro passado, “a evangelização não é mera repetição do passado, jamais!”

Respeito a liberdade do crente e a sua fé, mas estranho esta deambulação de uma relíquia, considerada de São Tiago Menor, pelas ilhas da Madeira e Porto Santo, como ocasião para “renovar e revigorar” a fé. Em vez da curiosidade mórbida por um fragmento ósseo, que a fé se manifeste nas obras, como preconizou o apóstolo, numa carta que lhe é atribuída (Tg 2,14-17).

Não tenho capacidade nem formação para discutir fundamentos teológicos do culto de relíquias, mas, pelos caminhos da História, conheço bem o lado perverso dessa prática obscurantista e idólatra, que, por sinal, os católicos não toleravam aos não cristãos, como, por exemplo, fez um arcebispo de Goa, que no século XVI, em acto público, destruiu, num almofariz, um dente de Buda. Guardo e preservo memórias e lembranças dos meus antepassados, mas não os seus restos mortais.