“Estamos preparados para o próximo?” especialistas alertam para riscos persistentes e vulnerabilidades na Madeira

A Madeira continua exposta a riscos elevados perante fenómenos extremos e a resposta futura dependerá tanto da capacidade técnica das instituições como da consciência coletiva da população. A conclusão foi transversal aos intervenientes do segundo painel das “Conversas com a Sociedade”, realizado na Reitoria da Universidade da Madeira, no Funchal, sob o tema “Vulnerabilidade da RAM a eventos extremos. Estamos preparados para o próximo?”.

O debate reuniu Rui Fisca Figueira, diretor do Serviço Municipal de Proteção Civil do Funchal, Richard Marques, presidente do Serviço Regional de Proteção Civil e Bombeiros, Ricardo Tavares, delegado regional do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), e o geólogo João Baptista da Silva.

Ao longo da sessão foram deixados vários alertas sobre o impacto crescente das alterações climáticas, o aumento da intensidade dos fenómenos meteorológicos extremos, a ocupação inadequada do território e a necessidade urgente de reforçar a prevenção e a cultura de risco na sociedade madeirense.

Rui Fisca Figueira defendeu que a proteção civil moderna já não pode ser vista apenas como uma estrutura de resposta à emergência, mas sim como um sistema permanente de prevenção e preparação. “A prevenção tem de começar muito antes da emergência”, afirmou, sustentando que o trabalho junto das populações é hoje tão importante como a capacidade operacional dos meios de socorro.

O diretor do Serviço Municipal de Proteção Civil do Funchal explicou que muitos dos fenómenos extremos registados nos últimos anos demonstram a necessidade de um planeamento contínuo e de maior articulação entre entidades públicas. “Não basta responder bem quando acontece. É preciso trabalhar o território antes, preparar as pessoas antes e reduzir vulnerabilidades antes”, referiu.

Já Richard Marques centrou a sua intervenção na responsabilidade individual e coletiva perante os riscos naturais, defendendo que a proteção civil “começa em cada cidadão”.

O presidente do Serviço Regional de Proteção Civil e Bombeiros alertou que nenhuma estrutura operacional consegue garantir uma resposta eficaz se a população ignorar avisos, desvalorizar riscos ou mantiver comportamentos inadequados em situações de perigo. “Uma população preparada salva vidas, reduz danos e ajuda os próprios operacionais”, afirmou.

Richard Marques destacou ainda que os fenómenos extremos são hoje mais imprevisíveis e exigem uma cultura permanente de autoproteção. “Não podemos pensar que isto acontece apenas aos outros ou que são acontecimentos excecionais. A Madeira tem um histórico muito pesado de aluviões, incêndios e movimentos de massa”, recordou.

Por sua vez, Ricardo Tavares deixou um alerta particularmente centrado na evolução das condições meteorológicas e climáticas. O delegado regional do IPMA explicou que os fenómenos extremos estão a tornar-se “mais intensos, mais rápidos e mais difíceis de prever com grande antecedência”.

Segundo afirmou, episódios de precipitação intensa num curto espaço de tempo representam hoje um dos maiores fatores de risco para a Região. “Os fenómenos estão a mudar e isso exige também uma mudança na forma como interpretamos os avisos meteorológicos”, sublinhou.

Ricardo Tavares defendeu ainda uma maior literacia meteorológica da população, alertando que muitos cidadãos continuam a desvalorizar avisos amarelos ou laranja. “Os avisos não existem para alarmar, existem para prevenir”, frisou.

Mas foi a intervenção do geólogo João Baptista da Silva que deixou os alertas mais fortes relativamente a vulnerabilidades concretas existentes na Madeira, sobretudo na Ribeira de Santa Luzia, no Funchal.

O especialista traçou um retrato preocupante daquele vale, denunciando a existência de deposição de entulhos, resíduos de construção, materiais de escavação e ausência de contenção adequada em vários setores da ribeira. “Aquilo é um cenário perfeito para a desgraça”, afirmou.

João Baptista da Silva explicou que a conjugação entre chuvas intensas, grande inclinação das vertentes, materiais acumulados nas margens e eventual obstrução do leito da ribeira pode provocar fenómenos de enorme violência.

“A água agarra sempre a oportunidade”, afirmou, ao descrever a possibilidade de ocorrer um efeito de represamento temporário seguido da libertação súbita de grandes quantidades de água, lama e detritos em direção ao centro do Funchal.

O geólogo recordou episódios históricos como as aluviões de 1803, 1923 e 20 de Fevereiro de 2010, sublinhando que estes fenómenos fazem parte da realidade geológica e climática da Madeira. “As aluviões continuarão a acontecer. A questão é saber se estamos a reduzir ou a aumentar a vulnerabilidade”, advertiu.

Na parte final da intervenção, João Baptista da Silva defendeu “coragem política, técnica e cívica” para corrigir problemas estruturais que, segundo afirmou, continuam por resolver mais de uma década depois da aluvião de 2010.

O painel terminou com uma ideia comum entre todos os participantes: apesar dos avanços registados na proteção civil, monitorização meteorológica e obras de mitigação, a Madeira continua particularmente vulnerável a eventos extremos, sendo necessário reforçar o ordenamento do território, a prevenção e a preparação da população.

A pergunta lançada no tema do debate — “Estamos preparados para o próximo?” — acabou por ter uma resposta prudente, mas clara: a Região evoluiu na capacidade de resposta, mas continua a enfrentar riscos significativos que exigem vigilância permanente e ação contínua.


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