Madeirenses na Madeira. Até quando?

Este artigo nasceu de uma explosão de indignação. Após a leitura das receitas tributárias da Região Autónoma da Madeira, referentes a 2025 e divulgadas pela Direção Regional da Madeira (DREM).

A receita ascendeu a 1324 milhões de euros. Um crescimento ridículo de 567 mil euros. Relativamente ao IVA, a receita desceu para 600,9 milhões de euros, quando em 2024 tinha sido de 626,7 milhões de euros (este valor representou um crescimento de 14,0% em relação a 2023), uma queda de aproximadamente 4,1%. Tentaram explicar esta queda com a entrada em vigor da nova taxa reduzida de 4% (anteriormente 5%) em outubro de 2024. Esta diferença de 1% na taxa reduzida no último trimestre não pode justificar os -4,1% do valor total, num quadro de crescimento económico. Em flagrante contraste o IVA cresceu, em 2025, no conjunto das Administrações Públicas do País, 7,2% e na Região Autónoma dos Açores 8,73%. Alguém tenha a coragem de explicar a verdadeira razão de tal discrepância.

O turismo é o principal motor económico da RAM, com o seu peso no Produto Interno Bruto (PIB) regional estimado em cerca de 29% para o ano de 2025. Os dados do turismo na RAM têm registado recordes sucessivos nos últimos anos, com 2025 a consolidar-se como o melhor ano de sempre para a região. Aqui estão os números principais compilados a partir da Direção Regional de Estatística da Madeira (DREM):

Ano

Hóspedes (Turistas)

Dormidas

Passageiros (Aeroportos)

2022

1,8 milhões

9,6 milhões

4,2 milhões

2023

2,1 milhões

10,9 milhões

4,9 milhões

2024

2,2 milhões

11,7 milhões

5,0 milhões

2025

2,44 milhões

12,8 milhões

5,7 milhões

Em relação 2024, as dormidas cresceram 8,4% e o número total de hóspedes aumentou 9,4%. Segundo a DREM os proveitos totais do alojamento turístico atingiram cerca de 894 milhões de euros com um crescimento de 17,4% comparado a 2024.

Penso que todos compreendem a indignação!? Se os proveitos crescem 17,4% num setor que representa perto de 1/3 do PIB, a queda de 4,1% no IVA torna-se matematicamente inexplicável. Mas o problema não fica por aqui. É aceitável que os hotéis cobrem a taxa reduzida do IVA de 4% nas dormidas? Aplica-se a serviços de luxo a mesma taxa que se aplica a bens de primeira necessidade como pão, leite, fruta e medicamentos.

É o próprio o Fundo Monetário Internacional (FMI) a recomendar que o Governo português elimine as taxas reduzidas de IVA no turismo. Lembramos que estas taxas reduzidas foram aplicadas no contexto da crise que colocou o país sob resgate da troika. Medida que, à época, foi fundamentada com a necessidade de recuperar os níveis de emprego. Ora, nos nossos dias, o emprego criado na hotelaria já não beneficia maioritariamente os locais, mas sim a mão-de-obra imigrante.

A conclusão é muito clara: o crescimento económico e a estagnação da receita fiscal é incompreensível, nomeadamente no que diz respeito ao IVA que até diminuiu. A riqueza produzida na RAM vai aumentando, mas não reverte para os Madeirenses. As condições de vida degradam-se em parte devido ao impacto dos excessos do turismo no custo de vida, na falta de habitação acessível, na circulação rodoviária, … Não é justo que a economia desregulada esteja a expulsar as pessoas da sua terra.


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