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A um ritmo que se organiza fora de qualquer intervenção humana o tempo decorre, hora após hora, numa fuga constante, incontrolável, perante a qual todos nos submetemos à necessidade de estruturar tarefas e lazeres, ainda que o pregão da livre vontade faça parte dos nossos mais veiculados desejos. Hora vai… hora vem, somos levados na corrente, a sucessão das horas vai reduzindo o tempo das nossas vidas, e, por isso, cada qual escolhe a melhor forma de utilizar as suas energias para superar os efeitos desconfortáveis deste fenómeno natural. O tempo é um enigma. O maior enigma com que se debatem os estudiosos da Física e da Matemática. Nós, a humanidade comum, apenas nos apercebemos de que o tempo nos compartimenta entre o dia e a noite e que, quando o sol se põe, se não pudermos contar com a lua, ou outro qualquer luzeiro, o mundo deixa de existir. É a treva completa.
Entre a treva e a luz, movimentou-se a capacidade humana de inventar: de início, o fogo minimizava o incómodo das noites, depois o sol determinava os períodos do dia através das sombras projectadas, até ao aparecimento do relógio que utilizava a sombra dum ponteiro ; a clepsidra, de pingo em pingo, marcando um compasso regular; a ampulheta deixando escorrer a areia entre duas âmbulas e por fim o relógio mecânico de corda. Mais tarde a introdução de pilhas; recentemente o sistema digital.
Detenho-me no relógio mecânico de corda. É este modesto objecto, memória ancestral de um tempo tão diverso, responsável pela invenção duma escrita que agora recupero de um livro de alguns anos. «Crónica Breve da Cidade Anónima, À hora do Tordo».
Respigo dessa data o relato, que então evoco, de um tempo incerto mas real, de vidas que antes de mim existiram, de quem herdei o sangue e os olhos, esta maneira de olhar que transforma a soma dos anos em torrentes de palavras. Herdei igualmente um despertador revestido de esmalte amarelo, entre outros despojos «que outras mãos, tantas mãos tocaram, usaram, guardaram para um futuro que não sabiam se existiria ou não, mas guardaram, em gavetas com poeira nas fendas, molas e colchetes, fivelas e botões, contas de mercearia, postais do Brasil, e uma gasta moldura com uma inscrição dourada: Este lar é feliz. Surgiu mudo e firme e marcava uma hora qualquer em um instante que ficou sem história e não é mais possível recuperar».
No momento do encontro com este «velho achado», à cautela, na espectativa de trazê-lo de novo à vida, movi a pequena chave de enrolar a corda, colocada no reverso do mostrador, rodeia-a lentamente e soltou-se então o som sincopado dos segundos, acordando a minha alegria. Surpreendeu-me a resistência desta pequena máquina centenária que voltava a medir o meu tempo e me indicava a existência duma fábrica portuguesa, eficiente construtora de relógios de longa duração: a REGULADORA. Afirmei então o meu louvor ao excelente e anónimo relojoeiro.
Desde aí, o tempo fui seguindo o seu misterioso percurso e hoje é possível saber que A BOA REGULADORA foi um ícone da indústria portuguesa, a mais antiga fábrica de relógios da Península Ibérica com sede em Vila Nova de Famalicão, onde se instalou, vinda do Porto em1895.Esta fábrica projectou-se na que é agora a REGULARFAMA, onde antigos trabalhadores continuaram o seu labor e deixaram aos novos operários o conhecimento das técnicas artesanais da construção de relógios, que se empenham na manutenção, restauro e fabrico destas tradicionais peças de velha tecnologia.
O meu despertador esmaltado de amarelo, está agora adormecido no alto da estante onde guardo os volumes duma vetusta e qualificada Enciclopédia. É uma raridade que, nos actuais leilões, atinge consideráveis valias. Retirado da vida activa, as suas vísceras enrijeceram, a chave já não roda no reverso do mostrador. Contudo, mantenho-o ali, sereno mas expectante, com os números nítidos, do 1 ao 12 e ponteiros em riste. Parece ter guardado uma espécie de consciência de que há um mundo à sua frente, diverso daquele em que nasceu. Não se move, não interfere, aguarda simplesmente um tempo próximo em que eu possa resgatar-lhe, de outro modo, a onomatopeia dos segundos, como um coração atento, disposto a prosseguir na sua tarefa de assinalar os vários momentos do dia, de parceria com a preciosa luz do sol e os diálogos da vida.
Maio, 2026 I
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