Faz sentido falar de relíquias?

Estamos quase a encerrar as comemorações dos 500 anos da escolha de São Tiago Menor como nosso padroeiro. Neste encerramento, contaremos com a chegada, de Roma, das relíquias do Santo para veneração. São guardadas na Basílica dos Doze Apóstolos, perto da Universidade Gregoriana em Roma, onde esteve sepultado Miguel Ângelo, o grande artista dos frescos da Capela Sistina.

Não se trata de um ato supersticioso ou um amuleto de sorte. Trata-se de venerar. De olhar para o corpo humano com importância e templo e morada do Espírito Santo. São corpos que ressuscitarão, que serão divinizados e são agora já usados por Deus para distribuir muitas graças. Corpos que se doaram. Que se gastaram por amor.

Diante de uns olhos sem fé, podemos ver aqui apenas um pequeno fragmento de um osso humano, um corpo humano sem vida. Algo do passado sem futuro. Um anacronismo como alguns podiam dizer. Na reforma protestante pensaram o mesmo. Nada de novo.

Mas quando temos fé, nem que seja do tamanho de uma semente de mostarda, as coisas são completamente diferentes. Vemos Amor; vemos um pedaço do Céu. Vemos um corpo que se entregou completamente. Alguém que seguiu Jesus com todo o coração.

Esse pequeno fragmento, no Dia da Ressurreição, verá a Glória de Deus. Já não podemos falar da mesma sorte para os corpos cheios de vida que hoje só pensam em si, fechados no seu orgulho.

Quando Jesus morreu os Apóstolos ficaram destroçados e perdidos. São Pedro voltou para o mar, para a pesca. Disse ele aos Apóstolos: “Vou pescar.” E os Apóstolos responderam: “nós também vamos contigo”. Esta pronta resposta dos Apóstolos em seguir São Pedro deixa-me sempre impressionado. Vamos. Nós vamos contigo. Não se trata simplesmente de ser ovelha no meio do rebanho. De andar por ver os outros andar. Há aqui um verdadeiro ato da vontade em querer ir mesmo com Pedro. Há um novo início, uma nova oportunidade de fazer caminho, juntos, unidos; de levantar-se da tristeza e encontrar um sentido para a existência. Não importava se voltavam para a pesca. Para as redes abandonadas na praia. O importante é que estavam juntos. E as redes voltavam a ser lançadas ao mar, mas naquela noite ficaram vazias. Toda a noite andaram na faina e não pescaram nada. Um fracasso total. Um estranho aproximou-se deles e pediu quase o ridículo: voltar a lançar as redes. Pescadores profissionais confiaram na palavra daquele estranho. E assim fizeram e as redes encheram-se de tanta quantidade de peixes que os barcos quase se afundavam e as redes quase se rasgavam. É o Senhor! Disse, com alegria, São João ao reconhecer Jesus.,
Sem o Senhor as redes continuarão sempre vazias. As relíquias mostram também isso. A nossa fragilidade. Aos olhos simplesmente do humano mais humano, no pior sentido da palavra, são apenas fragmentos de um corpo morto. Aos olhos da fé, são memória de uma vida que se entregou completamente a Cristo. Que confiou inteiramente. Que morreu martirizado ou que se entregou completamente, mas hoje vive na glória junto de Deus. Que, com Deus, não somos apenas um nada e um fragmento na imensidão do Universo. Somos filhos amados. Somos obra das Suas mãos.

No dia 17 de outubro, as relíquias do nosso santo padroeiro vão chegar ao Funchal e percorrer as nossas paróquias e ilhas. Não se trata apenas de uma relíquia. Não se trata apenas de comemorar 500 anos. Trata-se de uma oportunidade de voltar a caminhar juntos. De ser Igreja. De estarmos unidos a celebrar e a louvar a Deus. De trabalharmos juntos para preparar um programa que, acima de tudo, possa dizer que somos todos Igreja. Que podemos participar com os dons e talentos que Deus concedeu a cada um. Que após o pior da pandemia queremos voltar a ser comunidade, a sentir que pertencemos, que não estamos sós. A exteriorizar a nossa alegria e a nossa humanidade e não apenas a confinar espiritualmente em casa e a fazer uma vida religiosa diante do Facebook a ver missas transmitidas. Queremos estar juntos. Queremos juntos seguir O Senhor, com alegria e com entusiasmo. Queremos acolher o nosso padroeiro e pedir-lhe esperança e ânimo para vencer os desafios que a vida nos traz. Queremos ser cristãos no meio deste mundo para o iluminar com a luz de Cristo refletida em nós. Queremos ser de novo enviados para este mundo, para o encher de caridade e de ternura, de atenção para os que mais precisam. Para dizer a toda a gente que Deus nos ama.

Precisamos de cristãos entusiasmados. De cristãos que digam: vamos. Nós também queremos ir. Vamos juntos.

A chegada das relíquias de São Tiago Menor não será a solução mágica para tudo. A solução de todos os problemas da Igreja e do anúncio do Evangelho. Mas poderá ser uma oportunidade de estarmos juntos, de acolher Deus na nossa vida e nos deixarmos surpreender pela Sua ação em nós. A Igreja é obra de Deus. A Igreja é obra da graça de Deus em nós. É esta a oportunidade de trabalharmos juntos. De colaborar. De dar mais de nós. De perguntar: em que posso ajudar? Como posso participar? Trata-se de um exercício de Sinodalidade, de comunhão, participação e missão. Trata-se de um exercício que nos levará a ir mais longe como comunidade, como presença de Deus neste mundo.

Não estaremos apenas diante de uma relíquia. Mas de uma Igreja peregrina. Que quer ser presença de Deus neste mundo.

Vou. Eu também vou contigo.