Quando se fala de Tiago Menor

Nos últimos tempos foi mais do que abundante a literatura produzida à volta do Santo Tiago Menor. Menor para se distinguir de um outro Tiago, o Maior, irmão de João e apóstolo de Jesus. Um homem corajoso e aventureiro.

Porém, este Tiago Menor fazia parte da tróica da Igreja de Jerusalém: Pedro, Tiago e João. Muito me divertem as esforçadas explicações que tanta gente espremida vai dando sobre o facto de este apóstolo ser apresentado como «irmão de Jesus».

Certo é que considera Flávio Josefo, o historiador das antiguidades judaicas, que um certo Tiago tomou para si o encargo de dirigir a Igreja de Jerusalém cerca de dezoito anos, quando Pedro saiu da cidade. É dele também que se diz ter participado activamente no primeiro Concílio da Igreja, que se debruçou sobre a questão da circuncisão e do anúncio do Evangelho aos pagãos. Parece que é levado a efeito este evento por volta do ano 54.

Este acontecimento do Concílio e os respectivos temas, faz-nos descobrir o carácter e a têmpera de que era feito Tiago Menor. Parece que fazia jus ao cognome. Nele parece ter encarnado a figura do Apóstolo- factorum, que é aquele que vive numa sujeição absoluta ao mestre, ao chefe e à ortodoxia. Nunca deixei de considerar estas figuras meio ou completamente patéticas, cujo desejo maior que sentem enquanto estão na terra é depender de outrem ou das ideias estereotipadas. Não admira que por todo o lado tenhamos que conviver com discursos totalmente formatados onde o vocabulário pouco ou nada destoa um do outro.

São Tiago Menor, dito também como irmão de Jesus, não é muito valorizado na historiografia judaica. Foi considerado um renegado. Porém, a literatura cristã farta-se de valorizar Tiago Menor, embora se perceba por entre linhas, que tais exageros colocam-nos diante de um chefe escrupuloso, roçando a picuinhice, de uma igreja exclusivamente para judeus, unida ao Templo, auto-suficiente da verdade que considera ser apenas e só para judeus convertidos ao Cristianismo.

Face a este exposto compreende-se a disputa que se vai gerar entre a igreja de Jerusalém e São Paulo. Os temas do primeiro concílio de Jerusalém são sintomáticos e dão-nos pistas para concluirmos que o Apóstolo Tiago Menor, é respeitável, mas é uma figura um pouco básica, opõe-se à acção extraordinária de Paulo, um homem visionário, o primeiro a perceber o que era a globalização, a universalidade, abrindo portas derrubando muros, abolindo as diferenças entre judeus e gregos, entre circuncisos e incircuncisos, entre escravos e livres, mulheres e homens… Felizmente, venceu a irrequietude e desobediência providencial de Paulo.

Entre nós ganhou proeminência o Apóstolo São Tiago Menor por causa daquela historieta do voto a São Tiago da cidade do Funchal, que assolada em 1521 por um surto de peste que ceifava a vida a centenas de pessoas. O voto surgiu nesse contexto, precisamente nesse mesmo ano, quando a vereação da Câmara do Funchal, impotente perante o alastramento dos contágios da peste, recorreu à protecção divina. Deitando sortes calhou o nome de São Tiago Menor. A cidade prometeu fazer uma procissão anual em sua homenagem, entre a Sé e a Igreja de Santa Maria Maior. Falta não esconder que a peste durou mais do que o razoável. É óbvio que a indiferença do Santo deve ter feito o milagre, a peste andou por aí até 1538. Outras se seguiram por essa história da Madeira: peste (1521-1538); cólera morbus (1856); peste bubónica (1906); cólera (1910) e covid-19 (2021-)…

Perguntamos: – por onde andam os santos? Respondemos: – andam no entretenimento devocional, que para a mentalidade do nosso tempo, na sua maioria, vale zero… Por isso, graças a Deus, falou a ciência. Mais uma vez ficou provado, com a pandemia do covid-19, que nem sequer a medicina resolveu o problema, mas sim, a investigação científica.

Não tenho visto semelhante roda-viva de devocionismo em torno de santos por esse mundo fora, como estamos assistindo nos dias de hoje na Ilha da Madeira. Tudo mais do mesmo e reciclagens malfeitas que resultam em nada. Temos assistido a exageradas mediocridades devocionais para assinalar os 500 anos do voto a São Tiago, coisa que é pertença da Câmara do Funchal. Por isso, não devia sair da sua alçada. O seu a seu dono.

Assim sendo, atordoa-nos os anacronismos ridículos, nomeadamente as passeatas de relíquias supostamente consideradas e apresentadas como pertencentes ao corpo do santo. A par disto vimos gente que se considera séria escrever títulos deste jaez, que nos devia fazer verter lágrimas de tristeza se alguma vez correspondesse à verdade: «São Tiago Menor: Querubim divino armado».

E a Epístola de São Tiago? – Falta ser pensada e estudada com olhos de ver, sem filtros e sem o funil do pensamento único e estereotipado.


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