Gil Canha: “Jardim não foi afastado, actualmente é ele que manda em tudo”

foto LR

Na sequência das entrevistas que o Funchal Notícias vem fazendo com os cabeças de lista dos diferentes partidos às anteriores eleições regionais, publicamos hoje uma troca de impressões com Gil Canha, o polémico deputado que se tem batido contra o jardinismo e contra os alegados interesses instalados que, considera, medraram à sua sombra. Admirado por uns, detestado por outros, Gil Canha é, todavia, uma personalidade à qual é impossível ficar indiferente, por tudo o que representou numa luta pública que teve Alberto João Jardim, durante décadas presidente do Governo Regional, como o alvo a abater a todo o custo. Em 2015, encabeçou, com Baltasar Aguiar, a candidatura do PND, partido que foi pioneiro na confrontação, com outras armas políticas que não as habituais, ao PSD.

Gil Canha recorda esses tempos, no seu habitual estilo combativo e ao mesmo tempo irónico: “Na altura era independente, isto é, não era filiado no PND (só me filiei em finais de 2015 no PND, somente porque existia um membro do partido com atitudes desviantes e anti-sociais altamente condenáveis, que me levaram a ter que entrar no partido para metê-lo na rua. Esse cavalheiro é actualmente cafofiano e era para mais um submarino do PS/Madeira dentro da nossa estrutura com a missão de nos espiar). Comecei a aderir ao projecto do PND, porque gostava da luta politica de Baltasar Aguiar e embora não concordasse com certas posições de Manuel Monteiro, admirava-o, porque o considero o politico mais honesto e clarividente que este país conheceu pós-25 de Abril”, explica.

Ao FN, este antigo simpatizante do PSD, que se tornou, com o passar dos anos, num dos mais férreos opositores do mesmo, justifica porque não optou pela via mais confortável, preferindo combater aquilo com que discordava.

“O meu pai, ao contrário da minha mãe que era proveniente de uma família de industriais e de grandes proprietários, era de origem humilde e do campo, foi emigrante e sempre lutou contra os monopólios e contra a política de sacristia de Oliveira Salazar. Um dia, prometeu ganhar muito dinheiro, para os filhos poderem dizer abertamente aquilo que ele nunca pudera dizer”.

Foi assim, recorda que surgiu a “sua” luta, que classifica como “quase uma vocação sacerdotal contra a intolerância, o totalitarismo, os monopólios, e o populismo doentio da ditadura jardinista”. Uma luta que acabaria por ter os seus custos. Canha teve bastantes problemas, e – garante – inclusive financeiros.

“Só numa obra da minha família, perdemos acima de um milhão de euros, fora os ataques terroristas a que fomos sujeitos, fogo-posto em estabelecimentos comerciais meus, em carros, etc… Até tivemos ex-cadastrados a perseguir-nos e a agredir-nos, perante a passividade das autoridades e da sociedade em geral”, acusa. “Enquanto a maioria dos políticos entram na politica para ganhar dinheiro e enriquecerem, eu e a malta do chamado “grupo do jornal Garajau” só perdemos dinheiro”, assume. Em jeito de brincadeira, costuma dizer que nem que estivesse no parlamento regional vinte anos, conseguiria pagar todos os prejuízos da sua actividade politica ao longo destes últimos 30 anos. “Só em carros destruídos e custas judiciais, gastei, num ano, mais de 50 mil euros”.

Valeu a pena afrontar o “statu quo” do jardinismo? Gil Canha não se arrepende. Acha que valeu a pena, por duas razões. “Primeiro”, diz, “porque cumpri os desejos do meu pai. Segundo, porque acordo todas as manhãs e não tenho vergonha de olhar-me ao espelho”.

Amante de literatura, cita o escritor mexicano Carlos Fuentes”: “A poliítica é a arte de engolir sapos sem fazer caretas”. Mas, na sua actividade nesse campo, “tenho imenso orgulho em afirmar que nunca engoli sapos”. Ex-vereador da CMF na coligação encabeçada por Paulo Cafôfo e contra a qual também se revoltou, diz que quando esteve na edilidade, “o sr. Paulo Cafôfo tentou que eu engolisse alguns sapos e que alinhasse em esquemas de corrupção. Eu nunca me verguei. O meu lema era antes quebrar que vergar, e nunca me verguei nem aos Sousas, nem ao lobbie do betão nem aos barões do regime. Fui e sou um homem livre, porque felizmente o meu pai trabalhou imenso para que os filhos fossem homens livres. Se eu fosse um corrupto ou alinhasse em maroscas, hoje, possivelmente era presidente de Câmara, bastaria alinhar com as jogadas de Victor Freitas, Cafôfo e Iglésias e engolir sapos gigantes”, garante.

Olhando para trás no tempo, assume que foram o PND e o “grupo do Garajau”, o irreverente jornal satírico que coleccionou processos em tribunal, os responsáveis pelo desgaste do regime jardinista, muito mais do que os outros partidos que sempre alinharam por uma forma “tradicional” de fazer oposição. “Se não fossem os mal-entendidos e o carácter errático de José Manuel Coelho, teríamos derrubado o jardinismo há mais tempo”, afirma mesmo Gil Canha.

O chamado jardinismo, para o nosso interlocutor, foi um projecto de poder a todo o custo, não um projecto de governação. Por isso interessava-lhe derrubá-lo. “Na minha opinião, a governação de Jardim foi uma fraude. Aliás, arderam durante estes últimos 30 anos, cerca de 500 milhões de euros anualmente. Uma coisa das Arábias, uma espécie de cópia do reinado despesista de D. João V, em que as verbas disponíveis foram gastas em obras megalómanas, em projectos de encher o olho, mas que não trouxeram mais valias, nem reformas, nem educação, nem consistência à economia regional”. Pelo contrário, acusa, “temos uma divida colossal e três grupos económicos que mandam e desmandam na Madeira. É esta a herança do jardinismo e que a própria chanceler alemã Angela Merkel denunciou publicamente”, não deixa de frisar.

Hoje, olha com profundo cepticismo para a realidade regional, à luz da transição para o chamado PSD renovado. Também vê de forma “sui generis” o afastamento de Alberto João Jardim da política activa. Para Gil Canha, “Jardim não foi afastado, actualmente é ele que manda em tudo”.

O actual presidente e o vice-presidente do Governo Regional, Miguel Albuquerque e Pedro Calado, respectivamente, “transformaram-se em marionetes de Jardim”, dispara. Por outro lado, considera, “o espírito reformista morreu no dia em que Paulo Cafôfo começou a imitar os vícios do jardinismo e a enganar a população como fizera Jardim. Quem matou a tentativa de reforma interna do PSD foi Cafôfo, e perante o perigo que ele representa para a oligarquia e para os tachos deles, é que foram obrigados a se aliarem aos ultras do regime, para poderem vencer e manter os seus privilégios. Foi assim que os chamados “renovadinhos” bateram as botas, e agora o que se vê, é o jardinismo puro e duro e suas politicas suicidas que nos levaram à falência e a este beco sem saída. Desesperos incontroláveis têm estes efeitos. Imaginem, um Marcelo Caetano a governar com um Salazar desperto em São Bento, seria a mesma coisa, uma aberração politica assente nos princípios decadentes e cristalizados duma “Brigada do Reumático” perante uma Europa pasmada”, ironiza.

Para o entrevistado, hoje a politica regional caiu num labirinto, e só com a queda dos partidos chamados tradicionais (PSD, PS e CDS) é que se poderá mudar alguma coisa. Porém, confessa que não acredita nessa possibilidade.

“Para isso acontecer teria que haver uma revolução cultural e das mentalidades do povo madeirense. Deste modo, mais depressa acredito que um madeirense vá ao espaço cósmico, que acontecer essa “revolução”.  Estamos muito próximo de África e longe dessa Europa civilizada e instruída. É esse o nosso destino e o nosso fadário”, lamenta.