Patrícia Sumares propõe uma mostra de obras e instalações marcantes dos seus últimos 24 anos de trabalho

A artista plástica madeirense Patrícia Sumares, como já foi anunciado, inaugurará uma exposição de sua autoria, intitulada “Triunfo da Cegueira”, na galeria Espaçomar, da Escola Gonçalves Zarco, no Funchal. A mostra tem o acto inaugural marcado para as 14 horas do dia 17 do corrente, quarta-feira.
De acordo com a própria artista, um dos objectivos principais “é o de  mostrar no meio escolar ao qual o espaço expositivo está associado, obras e instalações marcantes nestes últimos vinte e quatro anos de produção artística”.
Numa das paredes, estará patente uma porta que Patrícia Sumares realizou para o “Projectos das Portas Abertas”, uma iniciativa artística na Rua de Santa Maria, no Funchal. Depois de algumas dissenssões, a porta acabou por ser retirada e a artista levou-a para sua própria casa, onde se encontrava até agora. É possível, agora, novamente contemplá-la.
Por outro lado, explica Patrícia Sumares, foi recriada a instalação que a mesma apresentou no Centro Cultural John dos Passos em 2016, com algumas adequações, não só tendo em conta a adaptação ao espaço mediante uma nova leitura, como integrando uma nova peça que dá origem ao título da exposição.
Essa peça foi recuperada da instalação “A parábola dos Cegos” (distinguida com menção honrosa na edição de 2001 do prémio Henrique e Francisco Franco) e que agora é apresentada como um troféu.
Além destes trabalhos, “será apresentada uma nova peça que irá ocupar o interior da janela e que tem por base o trabalho desenvolvido actualmente com caras, caras estas que agora se apresentam-sorridentes”, explica Patrícia.
Por forma a complementar estas peças, serão apresentadas algumas fotografias das intervenções de maior referência realizadas durante estas duas últimas décadas, explica a artista. Esta exposição tem curadoria de Luís Guilherme de Nóbrega.
Sobre o trabalho artístico de Patrícia Sumares refere o artista e museólogo Martinho Mendes que o mesmo tem representado, desde cedo, a figura humana em diferentes fases do seu desenvolvimento. “Os corpos apresentam-se em conjuntos densos que criam padrões ritmados que evocam, por seu turno, o tempo, através de outras imagens, anacrónicas, abertas ao diálogo, ao pensamento e à procura de sentidos”, refere.

“Em 2001, em “A Parábola dos Cegos” é apresentado um conjunto escultórico de alvas figuras de vulto redondo com os olhos vendados, enfileiradas como que numa marcha lenta e silenciosa, mas onde se pressente uma queda anunciada. O título remete-nos para a pintura renascentista de Pieter Bruegel que assenta, por sua vez, na passagem bíblica de Mateus (15:14): “Deixai-os; são cegos condutores de cegos. Ora, se um cego guiar outro cego, ambos cairão na cova””.

Conforme aponta, há outras referência à cegueira mais tarde no trabalho de Patrícia.

“A intertextualidade que existe no trabalho escultórico de Patrícia Sumares revela, ainda, sinais claros de uma inquietação metafísica e espiritual que vem de longe. Formas do passado parecem ter migrado para o imaginário da artista, que subverte a familiaridade das formas, desloca pontos de vista e reinventa novas relações que mantêm acesas algumas questões essenciais, humanas, através da escultura, esse lugar aparentemente capaz de nos tornar aptos a tocar as regiões do pensamento, apesar do interior da nossa cabeça, como notou Didi-Huberman (2009), continuar invisível aos nossos olhos”, refere Martinho Mendes.

“A integridade dos corpos antropomórficos presentes nas primeiras instalações, deram lugar, a pouco e pouco, à representação parcial, das cabeças com expressões de sorriso ambíguo, que, como uma pele, têm revestido tantas superfícies e lugares no espaço público. Um exemplo claro dessa plasticidade que nos olha fixamente foi a Porta 41, uma peça escultórica realizada em 2011 para a Rua de Santa Maria, no Funchal, através da qual centenas de representações de pequenas cabeças infantis, em cerâmica branca, interpelavam os transeuntes. Uma pequena caixa-espelho encastrada nesta obra de simultânea tactilidade e pensamento, refletia e convocava para o interior a cabeça dos observadores, relembrando o crânio-lugar, eternamente insondável, preenchido de invenções e imagens visuais, numa extensão do aparelho psíquico que é, também, a moradia singular do pensamento do cada indivíduo”, relembra.

“O trabalho de Patrícia Sumares parece alinhar-se com a conceção de escultura de Didi-Huberman, definida como um campo de tensão entre a superfície visível e o que está oculto, no interior. A escultura passa, com efeito, a ter o valor de pele pois é capaz de desenvolver uma espacialidade que a experiência visível não consegue, de todo, circunscrever; vai além dos objetos e centra-se nos lugares por onde passa, atenta aos volumes como configuração do oculto, num processo onde o toque da mão do escultor sobre a matéria é a via para fazer sugerir o próprio invisível a partir do visível”, acrescenta.