“Em 2001, em “A Parábola dos Cegos” é apresentado um conjunto escultórico de alvas figuras de vulto redondo com os olhos vendados, enfileiradas como que numa marcha lenta e silenciosa, mas onde se pressente uma queda anunciada. O título remete-nos para a pintura renascentista de Pieter Bruegel que assenta, por sua vez, na passagem bíblica de Mateus (15:14): “Deixai-os; são cegos condutores de cegos. Ora, se um cego guiar outro cego, ambos cairão na cova””.
Conforme aponta, há outras referência à cegueira mais tarde no trabalho de Patrícia.
“A intertextualidade que existe no trabalho escultórico de Patrícia Sumares revela, ainda, sinais claros de uma inquietação metafísica e espiritual que vem de longe. Formas do passado parecem ter migrado para o imaginário da artista, que subverte a familiaridade das formas, desloca pontos de vista e reinventa novas relações que mantêm acesas algumas questões essenciais, humanas, através da escultura, esse lugar aparentemente capaz de nos tornar aptos a tocar as regiões do pensamento, apesar do interior da nossa cabeça, como notou Didi-Huberman (2009), continuar invisível aos nossos olhos”, refere Martinho Mendes.
“A integridade dos corpos antropomórficos presentes nas primeiras instalações, deram lugar, a pouco e pouco, à representação parcial, das cabeças com expressões de sorriso ambíguo, que, como uma pele, têm revestido tantas superfícies e lugares no espaço público. Um exemplo claro dessa plasticidade que nos olha fixamente foi a Porta 41, uma peça escultórica realizada em 2011 para a Rua de Santa Maria, no Funchal, através da qual centenas de representações de pequenas cabeças infantis, em cerâmica branca, interpelavam os transeuntes. Uma pequena caixa-espelho encastrada nesta obra de simultânea tactilidade e pensamento, refletia e convocava para o interior a cabeça dos observadores, relembrando o crânio-lugar, eternamente insondável, preenchido de invenções e imagens visuais, numa extensão do aparelho psíquico que é, também, a moradia singular do pensamento do cada indivíduo”, relembra.
“O trabalho de Patrícia Sumares parece alinhar-se com a conceção de escultura de Didi-Huberman, definida como um campo de tensão entre a superfície visível e o que está oculto, no interior. A escultura passa, com efeito, a ter o valor de pele pois é capaz de desenvolver uma espacialidade que a experiência visível não consegue, de todo, circunscrever; vai além dos objetos e centra-se nos lugares por onde passa, atenta aos volumes como configuração do oculto, num processo onde o toque da mão do escultor sobre a matéria é a via para fazer sugerir o próprio invisível a partir do visível”, acrescenta.
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