![]()
«O maior desejo do Homem é amar e ser amado. Por isso, o seu maior medo é ser rejeitado. Ou não ser aceite pelo que é. Desta realidade, nascem as defesas, os preconceitos, as barreiras, os muros altos e intransponíveis que tantas vezes erguemos à nossa volta (…)». As palavras não são minhas. São de Laurinda Alves. Hoje, lembrei-me delas, com o carinho com que as li, mais ou menos, no final de 2011.
Enquanto decidia, uma vez mais, entre o vermelho “Copacabana”, o preto, opaco ou com brilho e, o tantas vezes escolhido nude, que é cor de nada, mas que para mim, é a cor de tudo, oiço, sem querer ouvir, porque estou em mais um dia cheia de ouvir nada, uma série de conversas paralelas, sobre nada, uma vez mais, até que uma delas me faz desligar do modo “serviços mínimos garantidos”. Quem me conhece, sabe que entro neste modo, quando estou mesmo muito cansada. De nada. De pequenos nadas.
E, lá estava eu, de ouvidos e coração à escuta. A conversa de nada interessava. Quanto mais ouvia, mais lamentava estar ali. Presa a um verniz que tinha que acabr de ser posto. Daqueles que têm que secar. Má opção, lamentava. Cheia de pressa, para variar. E a conversa continuava. Vazia. «Preconceitos». «Ausência de Ser». Estes foram os meus primeiros pensamentos.
Entre duas mulheres, praticamente da mesma idade do que a minha. Já entrei nos famosos “entas”, há algum tempo. Não muito. O necessário.
Da conversa, só se ouvia a mulher que tinha uma voz tímida, mas que se queria fazer ouvir. Com tiques de sabedoria. Daquela que aprendemos na tão afamada “escola da vida”. A que realmente ensina e, que por vezes, questionamos: «vida, porquê eu?»
Bem, na verdade a conversa começou como todas aquelas que se iniciam quando temos tinta na cabeça e os secadores trabalham a todo o vapor. Dizia uma para a outra: «Sabe aquelas raparigas giras, que quando estão no secundário, a acabar o liceu, são perfeitas, lindas de morrer, que não precisam de fazer nada ao cabelo, mas que não têm nada na cabeça? Aquelas giras, que aos dezoito anos aparecem grávidas?, eu não era assim». Ri, entusiasmada. «Nada, assim. Sou assim desde sempre, com este cabelo meio desgrenhado, sem estilo,» reforçava. «Já lhe mostrei uma fotografia minha com 16 anos?», pergunta. Responde a outra que sim, abanando a cabeça. Deduzi, eu «um horror!». E remata, «eu era daquelas cromas, sem estilo, que só queria ler, cromas mesmo, está a ver? Daquelas que os rapazes não se interessam, cromas, cromas…». Mas, retorquiu com um ar de conhecedora da vida, com o mesmo entusiasmo: «não engravidei aos 18 anos, ainda bem que era croma», termina por ali. Ou não, não sei bem…as unhas já estavam quase secas, pedi para pagar, coloquei a mala ao ombro e fui embora. Cheguei a casa. Meti as chaves à porta. Estraguei duas unhas, mas não protestei. No meu pensamento apenas aquela conversa de cabeleireiro. Ainda vinha a decidir se era preconceito ou era defesa. Era preconceito, com certeza!
Começo a ouvir chegar o elevador. O barulho já fazia adivinhar. Chegavam dois dos meus três filhos, o Afonso e a Constança. A algazarra de sempre. Faltava a mais velha, a Mariana. Pois, já tem 25 anos. Um pormenor, que interessa para a conversa: fiquei grávida e fui mãe aos dezoito. E, sim, também pertencia ao grupo das chamadas «cromas». Não das que se julgavam um horror. Ou que julgam, sequer! Que andam o dia todo a fugir dos reflexos dos espelhos e dos vidros das montras. Simplesmente daquelas que gostam de si, como são. De espírito leve, mas não inconsequente. Daquelas felizes! Não, não sou uma exceção! Sou uma miúda sem preconceitos, que se tornou gente crescida!
Façam o favor de crescer, felizes!
Descubra mais sobre Funchal Notícias
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.



