Padre José Luís Rodrigues faz duras críticas ao Cardeal-patriarca de Lisboa, classificando-o de “pastor menor”

 

O padre José Luís Rodrigues reage às recentes declarações do Cardeal-patriarca de Lisboa, a apelar à “continência” ou abstinência sexual dos recasados da Igreja, para tecer duras críticas a D. Manuel Clemente.

Pela oportunidade e pertinência do tema, o FN reproduz o artigo de opinião, publicado hoje pelo padre José Luís Rodrigues, no seu blogue, “Banquete da Palavra”, com o título “O carnaval religioso 2018″.

  1. Andava meio mundo descansado a comprar farinha e fermento para as malassadas, os jovens a contorcer-se no samba pelos salões e garagens em ensaios para os desfiles de carnaval, que nos próximos dias irão colorir e encher de carne desnudada as ruas das nossas cidades e vilas por esse país fora. É neste ambiente que surge do cardeal de Lisboa, Manuel Clemente (digo de Lisboa apenas e só e não o «responsável máximo da Igreja Portuguesa», como andam muitos a dizerem erroneamente. É Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, que é um órgão meramente consultivo e de reflexão, não tem a função de gerir nada. Este antístite é “responsável máximo” por si mesmo e pela Diocese de Lisboa, ponto). Numa «nota para a receção do capítulo VIII da exortação apostólica ‘Amoris Laetitia’», considera o bispo de Lisboa no ponto nº 5, alínea d) «Quando a validade se confirma, não deixar de propor a vida em continência na nova situação». A frase caiu como uma bomba, que rebentou ontem de manhã na comunicação social e durante o dia incendiou as redes sociais.
  1. O cardeal com esta frase totalmente descabida, desnecessária e profundamente infeliz provocou uma onda geral de indignação, antecipou o carnaval, semeou a chacota da Igreja Católica e remexeu o veneno terrível das injustas generalizações. Não podia ser de outro jeito, porque a sua posição é um retrocesso e uma recomendação errada que viola a dignidade humana e a liberdade dos casais, estejam em que situação for. Nenhum clérigo tem nada com isso, deve respeitar a liberdade e vontade própria de cada pessoa. D. Clemente mais uma vez considera a sexualidade não como um bem, mas, quando exercida fora das regras que foram convencionadas por pretensos celibatários, é um pecado ou algo diabólico que precisa de rectificação religiosa para ser válida e querida por Deus. Nada mais retrógrado e absurdo. A frase ainda choca mais se nos lembrarmos da doutrina da misericórdia, os apelos ao acolhimento e a pastoral da inclusão para os recasados defendido pelo Papa Francisco.
  1. O bispo Manuel Clemente é um homem da história, disciplina que nunca devia ter abandonado, porque até tinha algum jeito para isso. Porém, aconteceu-lhe o que acontece a muitos na Igreja Católica, quando caem em graça, tornam-se «menino bonito e sabichão», por isso, servem para tudo, mesmo que tantas vezes se revelem com uma carga de incompetência confrangedora. Relativamente a D. Clemente, por causa dessa lógica amiguista, provavelmente, perdeu-se nas calendas da história um bom professor para termos pastor menor. Algumas vezes compromete a Igreja toda ou pelo silêncio estudado ou por pronunciamentos deste género totalmente descabidos, que descredibilizam toda a Igreja e metem no mesmo saco toda gente.
  1. Já vai sendo tempo de os hierarcas não se meterem onde não são chamados, muito menos mexer no que está quieto. A teimosia de que os hierarcas da Igreja Católica sabem tudo e de tudo, cai neste ridículo diante de uma sociedade informada, liberal no domínio da sexualidade e em todas as questões sobre a vida. Daí que não colem estes anacronismos, ainda mais são patéticos perante uma sociedade esclarecida e com tanta gente especializada nas questões sobre a vida e a sexualidade. Porque deve falar sobre um assunto quem não tem experiência nenhuma sobre a matéria, renunciou à família e aceitou a missão que implica viver na solidão? – Nem vou pelo lado dos escândalos que têm assolado a Igreja inteira e que a desautorizaram por completo neste domínio da sexualidade. A famosa diplomacia de D. Clemente desta vez espatifou-se…
  1. Face ao escândalo e indignação que se vive mais uma vez por causa de disparates sobre a sexualidade ou mais concretamente a vida dos casais em qualquer circunstância, proponho o seguinte: a) calem-se os hierarcas moralistas encartados de uma vez para sempre de falarem sobre o que não percebem e do que não vivem; b) Paremos de uma vez por todas de impor fardos pesados no âmbito da sexualidade sobre os outros, porque começa a levantar a suspeita de que estão invejosos; c) Vamos purificar-nos desta obsessão doentia pelo sexo e deixar em paz a intimidade dos casais; d) Deixemos de considerar as pessoas em geral como se fossem infantis e de que precisam de umas dicas para não caírem em pecado; e) Deve calar-se para sempre quem não é capaz de compreender a vida de hoje cheia de contornos multifacetados e que não vai ser capaz de assumir uma linguagem sempre nova que as mais variadas possibilidades da vida actual apresenta todos os dias; f) Enfim, é preciso deixar quieto o que não nos diz respeito e aceitar as opções de cada pessoa que pretenda refazer e assumir novas opções quantas vezes entender desde que não fira a dignidade de ninguém, mas persegue a felicidade.”