Família recupera história do “Chefe dos Voluntários” que esteve na tragédia de 1930 em Câmara de Lobos, fundou o Museu do Bombeiro e doou o espólio que foi metido num armazém

Bombeiro auxilia tsunami em C. de Lobos
O bombeiro Vasco Florentino Campos na operação de socorro na tragédia de 1930 em Câmara de Lobos. Fotos DR

Num contexto em que os bombeiros surgem, com toda a pertinência pelo relevante papel que desempenham, no lugar da frente dos inúmeros combates a fogos que têm assolado o País e a Região, com recordações bem recentes dos incêndios ocorridos no Funchal, fez agora um ano, além daquela tragédia que há pouco ocorreu em Pedrógão Grande, torna-se sempre importante relatar episódios que marcaram as corporações de bombeiros da Madeira, ao longo dos anos, dando ênfase a factos históricos que, se por um lado, são conhecidos por alguns, certamente não o são para a maioria. Factos e pessoas que foram a cara da história.

O Bombeiro e a sua história

É num enquadramento de particular evidência do papel do bombeiro nas sociedades, hoje e sempre, que vamos rebuscar a História, dela ressaltando a figura de um homem que chefiou os Bombeiros Voluntários Madeirenses, que em 1963 editou uma publicação “O Bombeiro Madeirense e a sua História” e que doou o Museu do Bombeiro à cidade do Funchal, cujo espólio acabou encaixotado e depois “levado” pelas águas em dia de temporal. Vasco Florentino Campos escreveu o documento em parceria com Alberto Malho, então jornalista do Diário de Notícias, que na altura tinha como diretor Alberto Araújo, um homem que viria a ser deputado à Assembleia Nacional e que era conhecido pelos discursos lidos em voz alta pelos corredores daquele matutino. São histórias de vida, as vidas de outros tempos, que só podem ser mesmo lidas à luz de um tempo diferente, daquele tempo com aquele pensar e com aquele saber.

Governador Inocêncio Camacho de Freitas

Vasco Florentino Campos
Vasco Florentino Campos, chefe dos Voluntários Madeirenses e fundador do Museu do Bombeiro. Foto DR

Ficamos a recordar, logo nas primeiras páginas da publicação, quem eram as figuras de comando na Região. O Governador do Distrito Autónomo do Funchal, Capitão-de-Mar-e-Guerra João Inocêncio Camacho de Freitas, o Presidente da Junta Geral do Distrito Autónomo do Funchal, Coronel Fernando Homem da Costa e o Presidente da Câmara do Funchal, António Bettencourt Sardinha. E soubemos, ainda, que o documento impulsionado por Vasco Florentino Campos tinha, também, o propósito de homenagear a equipa de bombeiros portugueses, que a 18 de agosto de 1900 foi campeã do mundo numa competição realizada em França.

Museu do bombeiro representava o homem e a missão

Com uma vida interventiva, no conhecimento e na obra a favor dos bombeiros, Vasco Campos apontou objetivos bem definidos que pudessem, de alguma forma, deixar para o futuro memórias que traduzissem a missão das corporações, compostas por homens que não poupavam esforços em defesa da população, com meios escassos, mas onde a dedicação superava, às vezes milagrosamente, as dificuldades que os tempos idos apresentavam. E a obra que estava a ser preparada para perpetuar precisamente essa nobre missão, era o Museu do Bombeiro, para o que solicitou a diversas individualidades o apoio que pudesse resultar na concretização de um sonho. Escreve que conseguiu reunir 1.725 escudos, montante que, em nome da transparência, indica estar disponível para consulta dos contribuintes naquilo que se prende com a utilização que foi dada.

As memórias que marcaram

Pela vida passou uma história, pela história de vida passou o homem, o bombeiro, indissociados pela missão que abraçaram e pelos inúmeros episódios que, umas vezes deixando escrito, outras por relatos que entretanto ficaram noutras memórias, de familiares e amigos, acabaram por resistir aos tempos, podendo hoje haver uma recordação o mais exata possível sobre acontecimentos que marcaram sobremaneira os bombeiros madeirenses. E até a vida da Madeira.

A tragédia de 1930 matou várias crianças

Bombeiro tragédia
Os jornais da época retrataram os efeitos da derrocada e da consequente “invasão” do mar em Câmara de Lobos.

Foi enquanto bombeiro que ressalta aquilo a que na altura se denominou de uma espécie de “tsunami”, no dia 4 de março de 1930, em Câmara de Lobos. Com um balanço final de 18 mortos. Esteve lá, viu o “mundo desabar”, vidas perdidas, passaram-lhe pelas mãos corpos de 14 crianças, famílias destroçadas. Ajudou naquilo que foi possível, mas o que se passou deixou marcas difíceis ou mesmo impossíveis de apagar. O documento que Vasco Florentino Campos e Alberto Malho deixaram, relata que “na foz da ribeira do Vigário, uma forte quebrada caíu da Fajã Grande, próximo do Cabo Girão, onde vinham extraindo, pelo processo de brocas, pedra para ser usada na construção de fornos. A quebrada caiu para o lado do mar e foi essa avalanche de calhaus que acabou por provocar a tragédia. “O oceano que acabara de receber em seu seio aquela mole de rocha tão apavoradamente fragmentada, dividiu-se em duas vagas enormes que seguiram diferentes direções: uma tomou o rumo de Oeste e outra de Leste. Foi a última que se encarregou de ceifar, ingloriamente, preciosas vidas, no número das quais se contaram algumas infelizes criancinhas que, junto de suas mães, davam largas, no terrível momento, aos inocentes folguedos próprios das suas idades. Esta vaga de proporções gigantescas, entrou em verdadeira fúria, pela Ribeira do Vigário, onde diversas mulheres se encontravam lavando roupa, tendo algumas ali perto os filhos, arrebatando-os para o mar. Uma dessas infelizes mulheres, casada, lutou por largo espaço de tempo com as ondas, pois que sabia nadar, mas ninguém lhe poude acudir, sendo mais tarde retirada morta, levando no seu ventre, posto que estava prestes a ser mãe, o fruto dos seus amores”.

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A corporação de bombeiros voluntários, no então quartel, hoje Palácio de São Lourenço. Foto DR

Este relato da época, com a forma de escrita da época, que podemos tomar conhecimento na publicação mencionada, refere ainda que “um tal Francisco de Freitas, vendo sua filha Maria de Freitas, de 6 anos, levada pelo mar, lançou-se à água, no intuito de a salvar, desaparecendo também”.

Condolências do Presidente Carmona

Os jornais deram naturalmente conta da trágica ocorrência, com o Diário de Notícias a afirmar que a vaga deveria ter sido de 30 metros de altura, apresentando um número de mortos que se situava nos 19, além de 5 feridos e de ter posto em perigo outras pessoas. O Jornal fala do acontecimento e faz referência às condolências enviadas pelo então Presidente da República General Carmona.

Vasco Florentino Campos, na altura um jovem bombeiro de 30 anos de idade (nasceu em 1900), foi mobilizado para esta ocorrência, prestando auxílio e vivendo a tragédia daquelas gentes de Câmara de Lobos, sentindo a dor daqueles que perderam familiares, algumas crianças, naquele dia que jamais conseguiu esquecer, como podem testemunhar os filhos deste homem, que era alfaiate, tinha a “Alfaiataria Campos”, na Rua da Carreira, mas que era bombeiro voluntário por paixão. Foi pai de 14 filhos, três dos quais, Artur Campos, Leonel Campos e Teodorico Campos, ainda vivos, revelam essa disponibilidade do pai para ajudar os outros. Ouviram falar de todas estas histórias e guardam memórias gratificantes daquela que acabou por ser uma figura destacada entre os bombeiros madeirenses.

Temporal leva espólio doado à Câmara

Vasco Florentino com Braamcamp Sobral
O Governador Braamcamp Sobral, na imagem com o chefe dos “Voluntários Madeirenses” Vasco Florentino Campos, na inauguração do Museu do Bombeiro. Fotos DR
Museu biombeiro
Visita das autoridades ao Museu do Bombeiro. Fotos DR
Bombeiro capa
Capa do documento “O Bombeiro Madeirense e a Sua História”, de Vasco Florentino Campos e Alberto Malho.

O Museu foi o corolário lógico deste seu empenho, deixar uma memória física, mandou reconstruir peças, ergueu o projeto e teve o Governador Braamcamp Sobral na inauguração. Durante anos manteve-o aberto ao público na Estrada Luso Brasileira. No tempo da gestão autárquica de Virgílio Pereira, doou esse espólio à Câmara Municipal do Funchal para que fosse encontrado, mais tarde, um espaço amplo para o Museu do Bombeiro. Nunca aconteceu, as peças, os quadros e as moto-bombas, foram guardadas num armazém da Rua D. João, mas um dia, com temporal, a água inundou o espaço onde se encontravam e o sonho desvaneceu-se. A família lamenta que o Museu tenha sido desmantelado.

Nunca mais se ouviu falar no Museu do Bombeiro. O sonho desfeito de Vasco Florentino Campos. Morreu em 1979, no dia de Carnaval.