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1 – Governar é, em democracia, o exercício da responsabilidade única e pesada de, quem representa os cidadãos por sua exclusiva vontade, administrar e gerir a coisa pública garantindo coesão social, segurança, tranquilidade, acesso à educação e à saúde, enfim, a tudo o que contribua para garantir, com a sua acção dedicada e atenta, uma vida digna, justa e equilibrada para todos e socialmente potenciadora de um ambiente de paz e concórdia que a todos convoque para o cumprimento das óbvias obrigações perante os nossos concidadãos, perante o nosso País e perante o mundo. É difícil não concordar que foi neste quadro de desafios e de compromissos que os deputados constituintes encontraram a inspiração para o desenho global do texto que acabou por dar corpo à Constituição da República Portuguesa, em que esmagadoramente nos revemos, trave-mestra da democracia portuguesa ao longo dos últimos (quase) quarenta e três anos – e a evocar, comemorando, já, daqui a uns dias, no dia 25 de Abril. Em síntese, as maiores obrigações de quem governa são: mobilizar os cidadãos, valorizá-los na diferença, estimulá-los no que lhes incumbe, sublinhar-lhes as valias e juntá-los face aos objectivos a atingir com que permanentemente se é confrontado.
Promover e fazer o contrário de tudo isto, estimulando a inveja, a desconfiança, a falta de respeito pelos cidadãos e pelos seus direitos e interesses e o salve-se quem puder virando os portugueses uns contra os outros, – jovens contra mais velhos, funcionários do sector privado contra os do público e vice-versa, gente no activo contra reformados, reformados entre si, ensino privado contra o público -, como aconteceu durante os quatro anos e meio de governação PSD/CDS, conduziu ao descrédito, à crispação, à intolerância e à generalização de um clima de “guerra civil”, como foi apelidado por alguém, em nada compatível com as necessidades de Portugal face às suas debilidades e às exigências que lhe foram impostas. Quem se dê ao trabalho de um recuo atento à comunicação social desse período, ao essencial do comentário político orientado e comprometido, às redes sociais e às intervenções públicas dos políticos da, então, maioria, confirmará as razões do péssimo ambiente social criado e das razões pelo qual foi fomentado e ampliado.
O défice, e a possibilidade de penoso procedimento por ele ser excessivo, o desemprego, a reversão, o crescimento, o PIB, os juros, o investimento, a confiança, o sistema financeiro, as 35 horas, o emprego, os salários, as pensões, as agências de notação, o lixo, o quantitative easing, o eurogrupo, o holandês, o ecofin, o BES, o Novo Banco, as ameaças, as incompreensões, as politiquices adjacentes, são exemplos de palavras e ideias que, sem que entendamos muito bem porquê, por vezes, ainda agora, nos surgem em catadupa, nos assaltam, nos invadem, nos obsessionam, nos chegam, até, a atormentar e que foram recheando o discurso da divisão, do esfrangalhamento, do “dividir para reinar”.
Trata-se, agora, como vem sendo dito, de normalizar a vida dos cidadãos em Portugal, tranquilizá-los, contar com todos eles, sugerir-lhes os caminhos do futuro. Como se tem vindo a dizer, urge descrispar a sociedade portuguesa e coloca-la ao lado do que é necessário fazer. Atrevimento, eu sei, mas poria descrispar no topo das palavras de ordem dos dias que vivemos.
Sente-se.
E ajuda.
2 – Já acertamos contas com a crispação/descrispação. Mas esbarramos na confiança, ou na falta dela, em outros patamares do exercício soberano e constitucional da separação de poderes e, tratando-se da justiça, porque é disso que se trata, as preocupações agigantam-se.
Não é o caso A, B ou C, não, é a justiça (sistema), e a sua imagem, face aos interesses da economia, da verdade, da coesão e do cumprimento dos desígnios que a democracia inspira e do País; e, por isso, vendo o que vemos, lendo o que lemos, e avaliando o que nos é possível avaliar, desconfiança é, agora, a palavra de impacto, de mais fiel tradução do espírito que nos vai invadindo. Também por estes lados as palavras se vão amontoando e engrossando a falta de confiança, – justiça, prazos, tempos, magistrados, ministério público, administrativo, penal, cível, Procuradoria-Geral da república (PGR), acusação, cartas rogatórias, defesa, acusação, acórdãos, violação do segredo de justiça, presunção de inocência, “linchamento” -, que preferíamos não ter naquele que é, por definição, o pilar de suporte do Estado Democrático e de Direito.
O País merece e precisa mais (da) justiça.
3 – Acompanhei, quase sem querer, e tanto quanto ao cidadão comum é possível acompanhar, a actividade desenvolvida em torno da realização no Funchal do amistoso Portugal vs. Suécia, selecções principais. O legítimo entusiasmo posto pelas pessoas, a cobertura mediática, as opiniões, as expectativas, a euforia, em suma.
Numa reportagem da Antena 1, por um desses dias, junto ao Estádio do Marítimo, ao repórter, um senhor confessava que estava na fila desde as quatro e meia da manhã, que não lhe estava a custar nada a experiência, que tinha convivido com outros compradores de bilhetes durante a noite e, com muita graça, confidenciou que tinha conhecido uma senhora grávida que, no entusiasmo do momento, o terá convidado para ser padrinho do nascituro, convite que ele terá aceitado com alegria e orgulho…
Este episódio traduz, por si, o modo como, quem se interessa por estas coisas da bola e, complementado com a expectativa de poderem ver ao vivo, no campo, o melhor, o mais bem pago, o mais conhecido, o mais popular e bem-sucedido futebolista do mundo, filho da terra e razão de orgulho para todos os madeirenses, encararam o acontecimento, a festa, o regozijo esperado, a alegria comungada, a exaltante jornada desse jogo de futebol.
Todo este ambiente se prolongou até ao final dos primeis quarenta e cinco minutos do tão desejado jogo; a selecção nacional encarregou-se de, nos segundos 45, ter feito muito pouco, ou nada, para que o orgulho, a satisfação e a sensação de ter valido a pena, por parte de quem participou e assistiu jogo se mantivesse no lote dos bons momentos e das boas memórias.
A selecção devia ter feito mais.
Muito mais.
Foi um desconsolo!
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PS:
Apenas por curiosidade, junto texto meu publicado a 17 de Agosto de 2016:
https://funchalnoticias.net/2016/08/17/homenagens-e-oportunismos/
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Nota: o autor deste texto escreve de acordo com a antiga ortografia.
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