Homenagens e oportunismos (?)

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Há pelo menos duas coisas que nunca imaginei pudessem, um dia, virem a ser temas centrais de um escrito do tipo dos que, de há uns tempos a esta parte, tenho vindo a produzir e a publicar nestas virtuais páginas do FN. Uma delas relaciona-se com os incêndios, com a sua ocorrência, com as suas causas e com as trágicas consequências deles resultantes; a outra prende-se com a necessidade, que sinto actual, de deixar para memória futura, não vá o diabo tecê-las, a minha sensibilidade sobre a decisão de atribuir ao aeroporto da Madeira o nome de um prestigiado e consagrado desportista madeirense de quem gosto, que muito defendo contra os que o detractam e cujos méritos comportamentais, enquanto ser humano, acima de qualquer suspeita, são dignos de registo e, mesmo, de exaltação. E, assim sendo, cá estou eu para, sobre ambas, deixar notas que pretendo breves mas esclarecedoras do meu posicionamento crítico.

Não sei nada de incêndios e, valha a verdade, nunca tentei saber mais do que aquilo que me parecia, e parece, ser o essencial para a análise do que nos apoquenta no quotidiano. Temo que os incêndios ocorram, preocupo-me com as causas dessas ocorrências, lamento que se desenvolvam, quantas vezes nos limites do que penso ser humanamente controlável, e não deixo de avaliar, ainda que sem qualquer preocupação de rigor, as consequências humanas, patrimoniais, económicas, climáticas, ambientais, paisagísticas, afectivas e, não raramente, de perda de vidas humanas. Múltiplos e graves são os resultados daquilo que, pelo que nos dizem vozes autorizadas, é acção negligente ou criminosa de indivíduos que, aproveitando os descuidos, ou a incúria, na protecção e na vigilância, se deixam guiar pelo “quero lá saber…” ou pela incontrolável e doentia vontade de engrossarem o número dos que, com as mais diversas motivações, optam pelo crime, insensíveis que se revelam ao drama da tragédia emergente. Depois, vem o combate aos fogos: caro, insuficiente, pouco eficaz, os meios parcos… O costume. Impõe-se, de facto, prevenção séria a montante e, havendo fogo e tratando-se de crime, punição pesada a jusante.

De bom, nestas ocasiões, fica a coragem, e a abnegação dos homens e das mulheres que, nas corporações de bombeiros, dão tudo, incluindo a vida, para tentar emprestar aos cidadãos a segurança que eles reclamam e a que têm direito. São sempre credores da nossa admiração, do nosso respeito, da nossa homenagem. Ficam as inúmeras manifestações de solidariedade, de entreajuda, de compreensão, de dádiva, de entrega e de altruísmo, – e não só entre as vítimas -, como se pôde observar por toda a Madeira durante os pesados dias da tragédia.

De mau, de muito mau, infelizmente inevitável, a crueldade dos que, indiferentes à desgraça, a aproveitaram para a pilhagem, para o roubo e para um oportunismo desenfreado de que, quero acreditar, muitas vezes, nem consciência têm.

De sofrível, guardei a imagem deixada pelas prestações públicas das autoridades regionais. Exigir-se-ia serenidade, responsabilidade, comedimento e sentido de oportunidade e, afigura-se-me, sobrepôs-se uma incontornável vontade de protagonismo político – não questiono a preocupação dos responsáveis face ao sucedido, claro – que, como se viu por algumas afirmações produzidas e por algumas decisões tomadas, nem sempre militou ao lado do que era exigível e desejável em cada momento.

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A – Em fase de afirmação no plano internacional, e no início da sua experiência internacional no Manchester United, era então um miúdo de vinte e poucos anos, Cristiano Ronaldo concedeu uma entrevista televisiva a uma consagrada jornalista das nossas televisões, em horário nobre, a partir da qual, para mim, Cristiano Ronaldo deixou de ser, exclusivamente, o atleta de alta competição que a todos enfeitiçava suscitando a admiração pública conhecida, para se transformar num ser humano respeitável, com convicções, sereno, respeitador da sua família, da sua história e do seu percurso desde o Funchal ao MU. Nessa entrevista, a jornalista, inúmeras vezes, tentou que CR reagisse a perguntas sobre a família, sobre o seu pai, sobre a sua vida no seio de uma família humilde, sobre como tinha sido lutar contra essas adversidades; CR, olhos nos olhos, firme, reiterou por várias vezes o seu orgulho na família, no pai, a quem dedicava, estivesse ele onde estivesse, o seu sucesso até àquele momento e apontando-o mesmo como o homem que impulsionou a sua carreira. Não era o que a jornalista queria, – ai, as audiências -, mas foi o que teve. O futebolista, o atleta de elite, o melhor, o mais conhecido, é, também, – e muitas têm sido as manifestações públicas que o provam -, um grande homem.

B – A pista ampliada do Aeroporto do Funchal foi inaugurada, penso, a 15 de Setembro de 2000. Era o concluir oficial de uma “teimosia” política com, pelo menos, 23 anos de exercício. A partir de Dezembro de 1977, ampliar a pista do aeroporto, ou edificar um novo, passaram a ser opções na ordem do dia do debate público. Alimentaram-se todas as ideias, recusaram-se outras tantas. De um hipotético aeroporto no Paúl da Serra, passando por um outro no Santo da Serra, concluiu-se pela viabilidade da ampliação da pista do existente com base num ambicioso e dispendioso projecto de engenharia. O autor deste texto que desempenhava, por altura da inauguração referida, funções políticas na liderança do maior partido da oposição na RAM, o PS-M, tinha passado uma parte significativa desses anos de indefinição, manifestando o seu cepticismo face à possível concretização de qualquer uma das soluções apontadas, incluindo a que foi adoptada por me parecer ser megalómano, estulto, hors budget. Na véspera da inauguração, convidei a comunicação social para um encontro durante o qual tive o prazer de reconhecer que me tinha enganado, a obra estava feita, a pista era larga, a pista era comprida, a pista ia ser inaugurada, a Madeira ficava dotada de uma infraestrutura fundamental para o seu desenvolvimento económico rumo ao futuro; e que o mérito de tal feito cabia, sem dúvida, mantenho essa opinião ainda hoje, ao, então, Presidente do Governo Regional da Madeira, pela sua persistência, pela sua teimosia, pela sua resistência, pela sua capacidade negocial, pela estratégia urdida, pelo seu acreditar. Num mar de divergências, tenho esta comunhão.

Toda esta conversa a propósito do nome atribuído ao Aeroporto da Madeira. Se eu privasse com Cristiano Ronaldo, e como gosto dele e o prezo, tê-lo-ia aconselhado a não aceitar a honraria; configura um indesejável oportunismo. Como não tenho essa possibilidade…

Estava a terminar este texto quando, vá-se lá saber porquê, me lembrei de um madeirense, falecido há quase ano e meio, e um dos maiores poetas portugueses contemporâneos, perante cuja memória me curvo: Herberto Helder!