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Morreu o vitelo que nasceu, à vista de todos, na Feira Agropecuária do Porto Moniz, na manhã de sábado. O episódio, aparentemente singular, tornou‑se símbolo de uma crise mais profunda: a forma como a organização de eventos agropecuários trata o bem‑estar animal, a relação com os produtores e o uso político das festas e feiras. A crítica ganhou outro peso por ter sido feita publicamente por Sílvia Sousa Silva, deputada do PS, que usou a sua página de Facebook para denunciar aquilo que considera um grave desleixo com os animais e uma descaracterização da própria feira.
No texto que publicou, Sílvia descreve o drama em poucas linhas: “O vitelo, que nasceu na manhã de sábado na Feira Agropecuária do Porto Moniz não sobreviveu. Provavelmente, valeu a rápida intervenção de uma médica veterinária de uma clínica que participou na feira para que não acontecesse o mesmo à vaca.” A imagem de um animal a nascer num ambiente de barulho, luzes, trânsito de pessoas e stress, para depois morrer, é o ponto de partida de uma interrogação mais larga: como é que, em 2026, uma feira organizada pelo poder público aceita que um animal em fim de gestação seja sujeito a este tipo de exposição?
“Antigamente, havia critério”
A deputada contrapõe o presente à sua memória do passado. “Antigamente, quando a feira do gado era organizada por serviços e pessoas conscientes, responsáveis, respeitadoras do bem estar animal e sobretudo entendidos na matéria, não eram admitidos animais gestantes.” A frase não é apenas nostalgia: remete para uma prática concreta de seleção dos animais, uma regra simples que visava proteger vacas em fim de gestação de deslocações e ambientes de stress, considerados de risco para a saúde da mãe e da cria.
Segundo Sílvia, havia uma filtragem clara: “Havia critério na seleção dos animais expostos, e este em particular, era uma precaução que zelava pela sua saúde e bem estar. Mesmo quando apareciam detentores que queriam expor os seus animais gestantes, pelo orgulho que tinham nos seus exemplares ou pelo dinheiro do prémio de participação, a organização impedia‑os de participarem!” Ou seja, a vontade de mostrar o “melhor gado” e de arrecadar prémios podia existir, mas colidia com um princípio superior: o cuidado com o animal.
Este contraste entre “antigamente” e “agora” abre uma questão central para qualquer leitor: o que mudou na organização da feira? Mudaram as pessoas, mudaram os serviços responsáveis, mudaram as prioridades? O que é que se perdeu pelo caminho em termos de cultura de bem‑estar animal?
“Agora quase não existem animais para expor”
No texto, a deputada traça um diagnóstico duro da situação atual: “Agora não! Agora quase não existem animais para expor e os donos dos poucos que existem estão fartos da falta de respeito com que são tratados, nomeadamente no atraso dos pagamentos dos prémios.” A crítica já não se limita ao caso do vitelo. Aponta para uma quebra de confiança entre produtores e organização, marcada por atrasos nas recompensas financeiras e pela sensação de desconsideração.
A escassez de animais expostos é apresentada como sintoma dessa erosão. Quando os criadores deixam de ver vantagem, respeito ou segurança em participar, o número de exemplares cai. Perante isso, explica Sílvia, a resposta não tem sido recuperar critérios e confiança, mas implorar participação: “Agora é preciso implorar aos produtores que participem e todos os animais são admitidos mesmo que isso coloque em risco a sua vida ou a vida da cria que carregam, como foi o caso.”
A passagem da seleção rigorosa para a lógica “vale tudo” para encher a feira. Onde antes se proibia a presença de animais gestantes, hoje, segundo a deputada, admite‑se “todos os animais”, sem ponderar riscos, porque é preciso mostrar qualquer coisa no recinto.
Bem‑estar animal: o que está em causa?
Do ponto de vista técnico e ético, a questão levantada por Sílvia Sousa Silva é simples e contundente: um animal em fim de gestação, sujeito a transporte, ruído intenso, mudanças de ambiente e manuseamento, está mais vulnerável a complicações. A morte do vitelo, mesmo que não se possa provar uma relação direta com cada variável, surge como alerta: o processo não correu bem, e o contexto não era controlado.
Mesmo sem essas provas, o texto da deputada ajuda a formular a questão: quem define o regulamento da feira? Que critérios existem para aceitar ou recusar animais? E estão a ser cumpridos?
Sílvia Sousa Silva não está apenas a relatar uma fatalidade. Está a apontar para um modelo que considera esgotado ou desvirtuado. O episódio funciona como metáfora dura: um animal que nasce num lugar que devia celebrar e valorizar o gado, mas morre nesse mesmo palco, exposto a um ambiente que não respeitou a sua fragilidade.
Entre a tradição e o presente, entre o orgulho dos criadores e a visibilidade dos políticos, o caso do vitelo do Porto Moniz obriga a reavaliar o sentido de uma feira que, para muitos, já não é bem uma feira de gado, mas sim um palco onde o animal ficou em segundo plano — com consequências fatais.
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