O valor que o cérebro e o corpo pagam para nos defender e a nossa dívida de saúde para com eles

22 de Julho – Dia Mundial do Cérebro – O cérebro pesa aproximadamente 1,3 kg a 1,5 kg e armazena por volta de 86 mil milhões de neurónios. É o principal órgão do sistema nervoso, é o centro de comando do corpo humano (o que fazemos ; pensamos e sentimos) e consume 20% a 25% da energia total do corpo. Para proteger este órgão tão complexo e evitar doenças como demências, AVC´s e Alzheimer não é imprescindível é importante: “a lista” de hábitos de vida. O que realmente é imprescindível: os mecanismos fisiológicos que os hábitos de vida modulam. Leitores, despertei a vossa curiosidade ?! Ótimo ! Tentarei explicar um pouco mais a frente. Agora, apenas para relembrar e enquadrar…

Todos os órgãos têm as suas funções e a sua estrutura. As funções principais do cérebro são: o processamento sensorial, ou seja, recebe e interpreta informações de todos os sentidos (visão – audição – tato – paladar – olfato); funções cognitivas, isto é, controlam a memória, a linguagem, o raciocínio, a inteligência e o comportamento emocional e o controlo motor – inicia e coordena os movimentos voluntários do corpo.

A estrutura do cérebro é composta por três partes: córtex é a maior parte e está dividida em dois hemisférios (direito e esquerdo) e é responsável pelos nossos pensamentos complexos e controlo dos músculos ; cerebelo localiza-se na parte inferior e posterior e é responsável pelo equilíbrio, postura e coordenação motora e tronco encefálico faz a conexão à medula espinhal e controla as funções vitais automáticas (a respiração e os batimentos cardíacos). O cérebro está protegido pelo líquido cefalorraquidiano, no qual “flutua” e pelos ossos do crânio. E é precisamente aqui que, na proteção do cérebro, além de estar protegido pelo cefalorraquidiano e pelo crânio, a neurociência começou a investigar o sono profundo por uma perspectiva diferente. Além da recuperação física, o sono profundo participa no equilíbrio do sistema glinfático, este sistema nada mais, nada menos é o mecanismo responsável por favorecer a circulação do líquido cefalorraquidiano e a remoção de resíduos metabólicos produzidos durante a atividade cerebral. Mais ! A própria atividade dos neurónios durante o sono facilita este mecanismo assim reforça a relação entre qualidade do sono, metabolismo cerebral e preservação da função cognitiva.

Quando estou como Terapeuta da Fala e com um paciente independentemente da idade que apresenta fadiga persistente, dificuldade de concentração, alterações de memória, ansiedade, inflamação crónica… compreender, por exemplo, a qualidade do sono passa a fazer parte da interpretação fisiológica do caso e não apenas ter conhecimento da duração do sono e das orientações sobre o estilo de vida. Esta interpretação fisiológica compreende os mecanismos que estão a impedir aquele organismo de restaurar a sua fisiologia durante a noite. E é aqui que o raciocínio clínico e consequentemente terapêutico evolui. As escolhas dos nutrientes deixa de ser empírica. A interpretação dos biomarcadores ganha contexto. A microbiota, o ritmo circadiano, neurotransmissores, a inflamação e o metabolismo passam a fazer parte da mesma linha.

A inflamação que começa na boca pode não terminar nela. Cada vez mais estudos mostram como a saúde oral, microbiota e inflamação sistémica caminham juntas na evolução de diversas doenças crónicas.

Antes da minha pratica terapêutica individualizada, conectar e compreender a fisiologia, biomarcadores, neurociência, metabolismo, causa-raíz dos pacientes, que confiam em mim, é essencial para compreender como cada mecanismo influencia a resposta do paciente, em vez de estudar cada tema de forma isolada. Quando estudamos o envelhecimento cerebral, memória e cognição alguns mecanismos aparecem repetidamente: sono; atividade física; stress; aprendizagem; alimentação e conexões sociais todos estes mecanismo mencionados participam na forma como o cérebro se adapta, responde ao ambiente e mantém as suas funções ao longo da vida.

Caros leitores no início escrevi que tentaria explicar, o porquê da “lista” de hábitos ser importante e os mecanismos fisiológicos que os hábitos de vida modulam serem imprescindíveis, pois bem a plasticidade cerebral é a capacidade exímia do cérebro de se adaptar, reorganizar e mudar a sua estrutura e funcionamento ao longo de toda a vida. O cérebro não é um órgão fixo é uma estrutura dinâmica capaz de criar, desfazer ou fortalecer redes de neurónios (sinapses) em resposta a novas experiencias, aprendizagens ou até mesmo lesões.

Este conhecimento fortalece a minha atuação dentro da equipa e acima de tudo permite interpretar o paciente de forma integrativa.

Aquilo que ontem nos envergonhava pode ser aquilo que amanhã nos distingue. Trocar a urgência pela presença diária, não é apenas mudar alguns hábitos é mudar de vida e no futuro quando olhar para trás acreditará que tenha sido uma das decisões mais importantes da sua vida para acompanhar saudavelmente os seus netos e a sua família. Porque no final não irá saber as horas que dormiu, o que comeu, os exercícios que realizou… terá a memória das histórias que eles deram e proporcionaram. É sempre sobre amor, tempo, liberdade e mudança.

Drª. Luísa Maria
Terapeuta da Fala
Especialista em Miofuncional Orofacial

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