Quercus critica “aposta irracional no golfe” e quer salvaguarda da agricultura e recursos hídricos

O Núcleo Regional da Quercus da Madeira alertou ontem, em comunicado, para a excessiva dependência da região face ao exterior no que respeita ao abastecimento alimentar e para a vulnerabilidade que daí resultará perante uma eventual crise alimentar global. Apela à conservação do solo agrícola, essencial para garantir um nível mínimo de resiliência e autonomia, e ao abandono da aposta irracional no golfe e no imobiliário associado.

O desenvolvimento sustentável pressupõe uma utilização regrada dos recursos naturais, garantindo a sua disponibilidade para as gerações atuais e vindouras. Um destino turístico sustentável é aquele que preserva o património natural e cultural, que dita a vinda do turista, sem pôr em causa a sua preservação e a qualidade de vida das populações locais, diz a Quercus.

As assustadoras alterações climáticas estão a criar situações muito delicadas com o aumento da temperatura global, alteração dos regimes de precipitação e eventos meteorológicos extremos, como períodos de precipitação intensa de curta duração e ondas de calor.

Por essa Europa fora, sucedem-se ondas de calor em regiões onde antes eram raras, multiplicam-se incêndios florestais sem precedentes e observa-se uma  diminuição dos caudais dos rios.

Estudos sobre o impacte das alterações climáticas em culturas agrícolas importantes, como o trigo, o milho e a soja, preveem o declínio dessas produções, ameaçando o sistema alimentar global que tem de suportar uma população mundial ainda em crescimento. Há quem defenda que a próxima crise alimentar global já está em curso.

Além da ameaça climática, o mundo enfrenta a insegurança e imprevisibilidade de conflitos que se prolongam e que podem vir a agravar-se, afetando tanto a produção como a distribuição de alimentos.

A segurança alimentar é motivo de preocupação para muitos governos. Infelizmente, na Madeira, que depende muitíssimo do exterior no que diz respeito à alimentação, não vemos o governo regional verdadeiramente preocupado em garantir uma produção agrícola regional que diminua a nossa dependência do exterior, quando o contexto incerto, presente e futuro, deveria ditar políticas assertivas e responsáveis, não focadas unicamente na satisfação dos interesses imediatos (não raras vezes gananciosos e supérfluos), mas considerando também o médio e longo prazo.

Sendo o solo um recurso estratégico escasso na região, é forçoso que se salvaguarde os terrenos com aptidão agrícola e que não se permita que os mesmos sejam absorvidos pelo sector imobiliário – especulativo, diga-se de passagem, e pelos campos de golfe, ambos grandes consumidores de recursos hídricos.

É penoso ver, na Ponta do Pargo, a destruição de terrenos agrícolas para o campo de golfe e, não tarda, para a urbanização. O governo regional quer, igualmente, construir mais um campo de golfe na freguesia do Faial e outro no Porto Santo. Essa pretensão parece, de modo geral, não incomodar autarcas e população. É preocupante o que se está a passar! E o futuro? E a nossa segurança alimentar? Talvez seja oportuno ler os manuais de História ou perguntar aos mais velhos como foi viver na Madeira durante a segunda grande guerra. Muitas dificuldades, porque quase não chegavam alimentos do exterior, aponta a associação ambientalista.

Para a mesma, tem de existir uma política que salvaguarde os terrenos agrícolas e que faça uma gestão responsável dos recursos hídricos. Se a terra não for cultivada hoje, poderá sê-lo amanhã e a água é um bem essencial que previsivelmente estará menos disponível no futuro. Estes recursos constituem uma reserva “soberana”, uma mais-valia que não tem preço. Não se compreende que sejam delapidados para suportar um desporto de elites, que poderão nem vir, em caso de agravamento da conjuntura internacional.

A excessiva dependência da economia madeirense do sector turístico constitui a sua grande vulnerabilidade e pode colocar a região numa situação de grande fragilidade em caso de contexto externo desfavorável. Precisamos, antes que seja tarde, de uma alteração de rumo de modo a nos tornarmos mais resilientes e autónomos, conclui a Quercus.


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