Rui Marote
Em Portugal a palavra “bombote” (ou” bomboteiro”) têm uma raiz histórica e refere-se especificamente ao homem que na baía do Funchal se deslocava aos navios em canoas para vender produtos regionais.
A palavra “bambote”é um regionalismo que nasceu da influência inglesa na Madeira. Deriva directamente da expressão inglesa bumboat (pequenas embarcações usadas para transportar provisões e mercadorias para navios ancorados). Os madeirenses adaptaram o termo para fonética portuguesa, surgindo o “bambote”(barco) e o “bamboteiro”(o vendedor).
O bomboteiro é uma das figuras mais tradicionais ,carismáticas e nostálgicas da história da ilha da Madeira – em especial da baía do Funchal.
Durante o século XIX e grande parte do século XX, o Funchal era um ponto de paragem obrigatório para os grandes navios de passageiros e de carga que cruzavam o Oceano Atlântico. Como não existia um porto acostável como o de hoje, os navios ficavam ancorados no mar, e era aí que os bomboteiros entravam em acção.
Quem eram e o que faziam estes homens? Utilizavam pequenos barcos (canoas) a remos para se aproximarem dos navios e vender produtos típicos aos turistas e tripulantes. Comercializavam vinho da Madeira, bananas, maracujás, bordados tradicionais, vimes e flores frescas.
Muitos faziam-se acompanhar por rapazes novos que saltavam das amarras para o mar para apanhar moedas que os passageiros dos navios lançavam à água.
O Funchal Noticias sabe que só existe um sobrevivente desses tempos no cais sul da Pontinha (ver foto da barraca).
Esta actividade passou de geração em geração durante os séculos XIX e XX. Com a modernização do porto do Funchal, a construção de cais acostáveis e as rigorosas normas internacionais de segurança marítima que proibiram a abordagem de canoas (barcos) informais aos navios de cruzeiro, a profissão foi desaparecendo, até se extinguir quase por completo com a inauguração do novo molhe do porto do Funchal em 1964.
Da profissão, que durante quase um século sustentou famílias e deu cor à baía, pouco resta; nem postais antigos para preservar a memória cultural existem para serem lembrados, com enorme saudade, como um dos maiores símbolos do comércio tradicional e da hospitalidade antiga da Ilha da Madeira.
Toda esta história narrada tem uma finalidade: prestar o tributo a uma profissão símbolo do comércio madeirense. Daí o alerta ao Secretário Regional da Economia José Manuel Rodrigues, porque tem raizes familiares; o avô materno era conhecido na Cidade Velha pelo alcunha o “torto” e o seu tio Jorge o “fonas”, que estudou na Escola Industrial, um excelente datilógrafo que quis seguir a profissão do pai.
O Funchal presta tributos a vários ofícios tradicionais, como a Bordadeira Madeirense, o Trabalhador, o Emigrante a Florista, o Semeador, etc. E os históricos bomboteiros que outrora animavam a baía ainda não fora eternizados na mesma proporção.
Houve, contudo, iniciativas pontuais para reavivar a memória desta profissão quase extinta, como recriações na Festa da Flor e abordagens históricas pelo Museu Etnográfico da Madeira.
Bem se poderia fazer uma estátua. O local ideal para a colocação desta estátua seria na frente marítima junto ao Porto do Funchal que eram as antigas “portas de entrada” da Ilha. A colocação nesta zona junto à água faria todo o sentido histórico pelas seguintes razões: colocar o monumento perto do antigo cais ligaria a obra dircetamente ao local onde os bomboteiros operavam e aguardavam os barcos a vapor enquadramento geográfico perfeito.
Os turistas actuais, que desembarcam no porto moderno, cruzar-se-iam imediatamente com a estátua, aprendendo como os antigos viajantes eram recebidos.
Vamos historiar mais alguns parágrafos desta profissão. Os navios de passageiros que cruzavam o Atlântico ancoravam longe do cais da cidade pois o porto do Funchal não tinha extensão actual. Antes mesmo das âncoras tocarem o fundo, dezenas de lanchas e canoas a remos já cercavam o gigante de ferro. Famílias inteiras viviam desse comércio marítimo. Há relatos locais de bomboteiros que começaram a vida no mar enfrentando as ondas para gritar para o convés : Lady, who much you give ? “(Senhora, quanto dá ?). Quando rapazito, muitas vezes o jornalista autor deste artigo acompanhava os tios, que trabalhavam nas lanchas “Gaivota” e “D. Lúcia ” que fazia o transbordo
do barco para o cais e vice versa.
Ouvíamos este clamor em alto e bom som tentando negociar os famosos bordados da Madeira. O sucesso dessas vendas era tão expressivo que alguns desses homens conseguiram, mais tarde, juntar economias e fundar fábricas de bordados em terra firme ao lado do Mercado dos Lavradores.
O bombote era uma canoa carregada até a borda (um bazar flutuante). Quem via de cima, testemunhava uma mistura caótica e colorida, móveis de vimes, cestos da Camacha, bananas, maracujás, papagaios em gaiolas, garrafas de vinho Madeira e postais .
Ao lado dos bomboteiros operava um grupo mais jovem e audacioso, os miúdos da “mergulhança” .
Eram rapazes da Zona Velha em trajes menores com calção de ganga azul (fato de banho) nas suas pequenas canoas desafiando os turistas ricaços a atirar moedas à água. Todas estas peripécias arrojadas ficaram registadas em relatos de passageiros, alguns dos quais escritores e viajantes europeus que passavam pela Madeira rumo à América Latina ou África e que registavam o fascínio nos seus diários de bordo. Contavam que bastava um brilho da prata rasgar o ar para que os garotos se atirassem em mergulhos sincronizados.
O fascinante para os visitantes era que as moedas nunca chegavam ao fundo do mar.
Os miúdos apanhavam-nas a meio da descida na água cristalina e regressavam à superfície exibindo a moeda entre dos dentes ou guardando-a nas bochechas prontos para a próxima rodada. Recordamos a coragem de uns jovens do “Anão” ,do” Mautuão”em competição feroz entre colegas quando os turistas britânicos atiravam por pura diversão as moedas propositadamente perto das hélices dos navios ou em áreas onde a água borbulhava para testar a coragem.
Assistimos a mergulhos do convés para a água, sempre em busca da moeda.
Os bomboteiros estavam impedidos de subir a bordo e os visitantes não desciam para comprar. A venda era feita inteiramente por cordas. Como se procedia?
O visitante demonstrava interesse apontando para um artigo do bombote. O vendedor colocava o produto (por exemplo uma toalha de mesa de linho bordada) dentro de um cesto de vime amarrado a uma corda comprida .O cliente içava o cesto até o convés examinava a peça e gritava o preço de volta. Um autêntico vai vem… Depois funcionava o regateio como entretenimento de viagem. Se chegassem a um acordo, o turista colocava as moedas ou notas no cesto e descia-o de volta ao mar.
Por mais romântica que pareça a imagem dos barcos a remos vendendo frutas e bordados, a Alfândega do Funchal exercia uma fiscalização rigorosa sobre essa actividade.
Os Bomboteiros eram comerciantes formalmente legalizados e matriculados pela Alfândega do Funchal.cada embarcação (o bambote) tinha de ostentar um número de registo bem visível no casco. Os homens precisavam de uma licença especial emitida pelas autoridades portuárias e aduaneiras para poderem aproximar-se da área de fundeio dos barcos.
Em 1964, com o prolongamento da pontinha e a inauguração do novo porto acostável, os navios deixaram de fundear ao largo da baía. A Alfândega e as autoridades policiais passaram o controle para as portas de acesso ao cais e em lojas francas terrestres. Ficou proibida a abordagem por via marítima por razões de segurança portuária internacional o que retirou o sustento dos tradicionais bomboteiros e encerrou este capítulo da história fiscal e social da Madeira.
As autoridades sabiam que o fluxo de dinheiro estrangeiro trazido pelos bomboteiros alimentava directamente economia e subsistência de centenas de famílias no Funchal. O dinheiro ganho no mar acabava por ser gasto nas mercearias (vendas), como a do Carlinhos, Jacinto, Favorável e outras três que não recordamos o nome, onde funcionava o tradicional livro do” rol” – conta fiada – tabernas e lojas, movimentando o comércio da ilha.
O que atrás narrámos , por muito que falte contar, é uma realidade merecedora de uma homenagem ao homem do “bomobote”. E porque não uma estátua? É a nossa história.
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