Maçarico-de-bico-virado bate recorde mundial com voo de 11 000 km sem paragens entre o Alasca e a Nova Zelândia

AF!

Um pequeno limícola cinzento, o maçarico-de-bico-virado (Limosa lapponica baueri), detém o recorde verificado de voo mais longo sem escalas da natureza: atravessa o Oceano Pacífico entre o Alasca e a Nova Zelândia/Austrália numa única etapa de cerca de 11.000 a 12.000 km, durante 8 a 11 dias, sem pousar, comer nem beber.

Uma travessia extrema sobre o Pacífico

A rota Alasca–Nova Zelândia é a mais longa migração sem paragens conhecida em qualquer animal. Em 2007, uma fêmea (E7) foi rastreada a percorrer ~11.680 km em 8 dias; em 2020, outro indivíduo voou ~12.200 km em 11 dias, estabelecendo um novo marco. Com velocidades médias de 55–56 km/h, os maçaricos aproveitam ventos de cauda para manter um ritmo sustentado sobre águas abertas, onde não podem descansar nem alimentar-se.

Como é possível voar dias sem parar?

A preparação começa semanas antes da partida: as aves acumulam reservas de gordura que podem chegar a ~55% da massa corporal, quase duplicando o peso. Para otimizar o voo, o organismo “desmonta” temporariamente tecidos dispendiosos: intestino, estômago (moela), fígado e rins podem reduzir 20–25% em massa; os músculos das pernas atrofiam, pois não serão usados durante a travessia. Essa remodelação liberta energia e diminui o custo metabólico, funcionando como uma estratégia de “levar mais combustível e menos lastro”.

O mistério do sono em voo

A expressão “dormir com metade do cérebro” refere-se a sonos unihemisféricos, já documentados noutras aves marinhas de grande autonomia. No maçarico, essa estratégia ainda não foi confirmada diretamente; o que se sabe é que ele voa continuamente durante dias, o que sugere sonos muito curtos/fragmentados ou uma necessidade de sono reduzida, mas sem prova definitiva de sono unihemisférico nesta espécie.

Chegada e recuperação na Nova Zelândia

Ao tocar terra na Nova Zelândia ou na Austrália, os maçaricos alimentam-se intensamente nas zonas entre-marés e regeneram rapidamente os órgãos digestivos e musculares, recuperando a condição corporal para o inverno austral. A façanha, repetida todos os anos, coloca esta ave discreta no topo das proezas de resistência do reino animal.


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