Porto Santo: erros históricos que se continuam a tentar remediar (mal)

Rui Marote
Conforme o Funchal Notícias já mencionou há dias, estão a decorrer trabalhos de dragagem do porto do Porto Santo, sendo que os sedimentos retirados estão a ser colocados numa zona de Bandeira Azul.
A intenção de colocar a areia escavada do contra molhe do Porto de Abrigo do Porto Santo é colocá-la numa zona onde a erosão já se fazia sentir. Pretende-se repor o circuito natural do sedimento e devolver volume à duna protectora. É um “remendo” que já vem do ano de 1984, ano da conclusão do porto.
Devido à falta de materiais, foram na época da construção, retirados da praia pela firma construtora OPCA os calhaus que davam à costa, assim como  as pedras que protegiam a base das dunas, sendo esta a maneira mais fácil de transformá-las em brita para a construção do porto.
É a prova viva de que a engenharia humana ignora muitas vezes a geografia e a dinâmica da natureza, e depois passa-se o resto do tempo a correr atrás do prejuízo. O que se assiste hoje na estrada de acesso à Vila Baleira ( na via denominada Comendador José da Glória Rosado) é o resultado de uma reacção em cadeia: primeiro, desenhou-se mal a orientação do porto nos anos Setenta do século passado, depois retirou-se pedra da praia e agora tenta-se despejar ali areia solta para tentar tapar o “buraco” de erros de engenharia acumulados há mais de 45 anos.
Ou seja, prossegue a destruição da “armadura” natural da praia. Antigamente, quando as marés de Inverno batiam na costa, a energia das ondas era dissipada ao chocar contra as pedras. Ora, retirar essa pedra para transformá-la em brita ou pavimentos significou deixar a base da duna “descalça” totalmente exposta e sem defesas, à mercê da erosão.
Actualmente está-se a tentar repor a areia (sedimento mole), sem análises químicas ou bacteriológicas, mas a base rígida de protecção (que eram as pedras levadas há 40 anos) já lá não está. O resto da praia começou a emagrecer porque o mar continuava a retirar areia, mas o porto impedia que a nova areia chegasse para repor o que se perdia.
Troço da praia compreendido entre a foz da Ribeira da Vigia (Vale do Touro) e a foz da Ribeira do Tanque (1100 m de extensão)
O grande erro de facto foi de facto a orientação da entrada do porto. Se a mesma  tivesse sido desenhada com a boca orientada a nascente, na direcção do do Ilhéu de Cima, o porto aproveitaria a protecção natural da própria  ponta Leste da ilha.
O molhe principal fecharia a bacia contra as vagas atlânticas dominantes, e a entrada ficaria numa zona de águas muito mais calmas e abrigadas contra as maiores tempestade e a ondulação agressiva de sudoeste.
Foto obtida em 2013. Como se pode ver, havia então muito mais pedra do que hoje em dia.
Mas não vale a pena lamentar ou remoer um erro ou problema que já aconteceu e que não se pode mudar. Voltando ao cordão dunar: de acordo com especialistas, deitar areia para o mar levar é  um “remendo” que dura pouco, se esta reposição não for acompanhada  por técnicos, incluindo a plantação de vegetação ou colocação de paliçadas para segurar a areia.
Está previsto retirar 70 camiões, ou sejam 1.120 metros cúbicos de material escavado.

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