Estepilha, quando o poder vai à água: a Tonca de Trento e o mergulho obrigatório dos “iluminados”

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Em Trento, no norte da Itália, há uma tradição que devia ser exportada com urgência para meio mundo: uma vez por ano, durante as Feste Vigiliane, a cidade organiza um serviço público de hidroterapia forçada para políticos e autoridades que, ao longo dos doze meses, mais se distinguiram por decisões brilhantes… na direção errada. Chama-se Tonca e, em termos simples, é isto: quem governa mal, acaba na jaula. E quem vai na jaula, acaba no rio.

O Tribunal que julga sem toga, mas com muito humor

Tudo começa com a instalação de um “Tribunal de Penitência” no coração da cidade. Não há juízes de peruca, nem códigos processuais intermináveis, nem argumentos que se arrastam por três audiências. Há, isso sim, um palco, um público atento e uma lista de “candidatos” que o próprio povo ajudou a compor com os melhores (ou piores) momentos do ano.

Diante da multidão, o “tribunal” vai desfiando o rosário de proezas locais:

  • O responsável que inaugurou uma obra três anos depois do prazo, mas a tempo de cortar a fita antes das eleições.

  • O gestor hospitalar que garantiu que “não há listas de espera”, enquanto os doentes esperavam sentados nas cadeiras da sala de espera… desde a legislatura anterior.

  • O autarca que prometeu “revolucionar os transportes” e, no final, revolucionou apenas o horário dos autocarros, que passaram a circular quando já não há ninguém para os apanhar.

Cada caso é apresentado como se fosse um crime hediondo contra o bom senso. E, em certa medida, é. Só que, em vez de multas, suspensões ou relatórios de avaliação de desempenho que ninguém lê, a pena é outra: uma viagem de ida (e volta) às águas geladas do rio Adige.

A sentença: três mergulhos para purificar a consciência (e o mandato)

Chegado o domingo do veredicto, a cidade concentra-se nas margens do Adige. No centro do espetáculo, uma grua, uma jaula de metal e uma placa com o nome do “condenado” do ano. O “réu” é anunciado: pode ser um presidente de câmara, um vereador, um diretor de serviço público, ou qualquer figura que, por ações ou omissões, tenha conseguido irritar, intrigar ou simplesmente fazer rir (de nervoso) a população.

Aqui, convém esclarecer um pormenor importante: quem vai dentro da jaula não é, via de regra, o próprio político, mas um ator que o representa. A ideia não é magoar ninguém, mas encenar, de forma segura e teatral, o castigo simbólico. O “duplo” sobe à jaula, acena à multidão, finge um ar de dignidade ofendida e, de repente, lá vai ele: mergulhado três vezes no rio, entre gritos, risos e comentários pouco caridosos vindos das margens.

Três mergulhos, note-se, não são por acaso. O primeiro é para lavar a campanha eleitoral. O segundo, para limpar as promessas não cumpridas. O terceiro, para ver se sobra alguma ideia aproveitável lá no fundo. Se sobrar, é milagre.

Uma punição medieval transformada em crítica cívica

A origem da Tonca é bem menos divertida. Entre os séculos XIV e XVII, esta “técnica de reeducação” era usada a sério: blasfemadores e outros infratores eram trancados em jaulas e mergulhados no rio como castigo público, humilhante e perigoso. Era a lógica do poder a dizer: “quem manda, castiga; quem desobedece, vai à água”.

Os séculos passaram, as sociedades mudaram, e Trento decidiu inverter a equação. Hoje, quem vai à água é quem manda – ou, pelo menos, quem mais se destacou no “mandar mal”. A jaula deixou de ser instrumento de repressão para se tornar palco de sátira. O rio Adige deixou de ser lugar de purificação religiosa para ser espaço de purificação política: não apaga os erros, mas lembra, de forma gelada e muito visível, que o poder não é intocável.

É difícil imaginar tradição mais adequada aos tempos que correm. Em tantos lugares, os escândalos multiplicam-se, as promessas evaporam-se e as responsabilidades diluem-se em comunicados de imprensa e comissões de inquérito que nunca concluem nada. Em Trento, a resposta é mais direta: fez asneira? Então prepare o fato de banho (ou o duplo que o vai vestir) e conte até três.

O que isto diz sobre poder e cidadania

Por trás do espetáculo, há uma mensagem que atravessa os séculos sem perder atualidade: quem ocupa cargos públicos não está acima da população; está, isso sim, sob o seu olhar. A Tonca transforma o descontentamento em ritual, a crítica em festa, a indignação em teatro. E fá-lo sem violência real, mas com constrangimento simbólico: o “condenado” não se afoga, mas a sua reputação fica, durante uns minutos, completamente submersa.

Há, claro, quem diga que isto é apenas folclore, que não muda leis, não demite ninguém, não resolve problemas de hospitais, transportes ou obras públicas. É verdade. Mas também é verdade que, em muitos sítios, nem folclore há: há apenas silêncio, indiferença e a sensação de que o poder fala sozinho, sem nunca prestar contas em praça pública. Em Trento, pelo menos uma vez por ano, o poder é obrigado a ouvir as gargalhadas da multidão enquanto vai parar ao rio.

E se a tradição chegasse cá?

É impossível não pensar: e se esta tradição fosse importada? Que figuras nacionais e regionais não mereceriam, pelo menos, um estágio intensivo de natação no rio ou ribeira mais próximo/a? Quantos ministros, secretários de Estado, presidentes de câmara e gestores públicos não veriam a sua carreira ganhar novo fôlego depois de um bom mergulho simbólico?

Claro, haveria obstáculos. Alguns alegariam que “isto é populismo”. Outros diriam que “fere a dignidade do cargo”. Outros ainda tentariam legislar contra a Tonca, criando uma comissão parlamentar para estudar o impacto dos mergulhos na imagem das instituições. No fim, acabariam por criar um grupo de trabalho, marcar três audiências, adiar a decisão… e, ironicamente, tornar-se candidatos perfeitos à próxima edição.

Entre o riso e o aviso

No fundo, a Tonca é isso: riso com aviso incluído. Uma maneira de dizer, com humor, que a política não é um jogo reservado a iniciados, que as decisões têm consequências reais na vida das pessoas e que, de vez em quando, é saudável que quem decide sinta, mesmo que simbolicamente, o frio da responsabilidade a bater-lhe à porta (ou à jaula).

Em Trento, todos sabem que, no próximo junho, haverá novo tribunal, novos “crimes” de lesa-bom-senso e novo condenado à hidroterapia forçada. E todos sabem, também, que essa tradição não resolve tudo. Mas lembra, de forma única, uma verdade simples: o poder pode estar no palco, mas a plateia é o povo. E, por algumas horas, é a plateia que decide quem vai à água.

Se algum dia esta tradição chegar à Madeira, convém já ir reservando datas no calendário… e fato de mergulho para certas figuras. O Atlântico é mais frio que o Adige, mas a mensagem, essa, seria a mesma: quem governa, um dia, pode acabar na jaula. E, quem sabe, isso não nos faça respirar todos um pouco melhor.


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