Construção de habitação em altura: “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”

Rui Marote
A famosa frase” Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” é o primeiro verso de um conhecido soneto de Luís Vaz de Camões, que reflecte sobre a inconstância da vida.
Esta frase do poeta Luís de Camões  resume perfeitamente a reviravolta política e urbanística na Madeira. O que antes era impensável no Funchal  tornou-se agora a solução oficial para crise imobiliária.
Antes havia forte resistência à construção em altura para preservar a paisagem tradicional. Agora a pressão do mercado habitacional forçou a mudança de mentalidade das autoridades.
A justificação é a de que construir verticalmente permite aproveitar melhor o solo escasso e reduzir o preço final das casas. Mas as implicações são mais que muitas.
O quarteirão Leacock tem uma história profundamente ligada ao desenvolvimento económico, industrial e comercial da cidade do Funchal, evoluindo de uma antiga sede familiar de produção de vinho a um dos eixos mais modernos
da ilha.
A história do quarteirão começou com a chegada do britânico John Leacock à Madeira em 1741, estabelecendo uma forte dinastia ligada ao comércio do Vinho Madeira. Nas décadas seguintes, a firma expandiu os seus negócios. O quarteirão no centro do Funchal (delimitado pelas ruas Dr. Brito Câmara  e da Ponte de São Lázaro) tornou-se o coração das operações da Casa Leacock & C.ª Lda.
Com o grande incêndio de 1938 na madrugada 15 de Abril, o quarteirão sofreu um rude golpe, com a destruição da sede da empresa. O fogo consumiu os escritórios, a secção de bordados, a fábrica de borracha e as oficinas de reparação de automóveis. Após a catástrofe, a reconstrução arrancou rapidamente e em 1939 ,ergueu-se um novo edifício imponente.
A meio do século XX, o espaço consolidou-se como um núcleo multiusos pioneiro na ilha. Além das fábricas, o quarteirão Leacock transformou-se numa referência da era motorizada, servindo como uma grande oficina e stand de venda de automóveis e motas de marcas clássicas britânicas (como os carros Austin Ten ou motas Triumph).
Com o declínio das actividades industriais  no centro da cidade ,o quarteirão pedia uma reabilitação. Em Dezembro de 2000 o arquitecto catalão Ricardo Bofill apresentou uma proposta monumental para o local. Tratava-se do complexo Funchal Centrum, que previa a inclusão de duas torres gémeas de grande volumetria. Contudo, a polémica gerada pelo forte impacto visual na malha urbana tradicional da cidade congelou a ideia.
Apesar do cancelamento das duas torres  de Bofill, o antigo quarteirão foi inevitavelmente demolido no início de 2000. A volumetria foi adaptada e área viu nascer o complexo definitivo que redefiniu os hábitos dos funchalenses. Actualmente, o espaço do Antigo Quarteirão é ocupado pelo Centro Comercial Plaza (anteriormente designado Dolce Vita e depois La Vie  Funchal) e pelo requintado hotel The Vine.
Recordamos que em 2000 o presidente da Câmara do Funchal era Miguel Albuquerque, que assumiu o cargo em 1994.
Funchal Centrum
O chumbo das autoridades, tanto Governo Regional quanto a Câmara Municipal do Funchal, foi total: rejeitaram liminarmente a proposta das duas torres sendo descartada e nunca saindo do papel.
Na altura falou-se que Bofill “desligou-se” do projecto que ficou sob as ordens de um arquitecto madeirense. No dia da inauguração, 23 de Outubro de 2007 o catalão  não compareceu .
Hoje por ironia “mudam-se os tempos, mudam-se as verdades” adaptando-se agora ao actual debate urbanístico na Região Autónoma da Madeira a ideia de construir em altura, expondo uma clara mudança de critérios políticos e de ordenamento do território ao longo das ultimas duas décadas.
Actualmente, a construção de edifícios com 20 andares é tecnicamente e legalmente possível, dependendo  do Plano Director Municipal (PDM) da respectiva localidade.
No Funchal por exemplo, o Governo Regional e a Camara Municipal (estão de braço dado) defendem a revisão do PDM e a construção em altura para combater a escassez de solos e os custos da habitação.
Em poucos anos nascerão pequenos ” Panama City”…
O Plano Director Municipal (PDM) define o índice de utilização do solo  o número máximo de pisos e as áreas de implantação permitidas em cada zona. A engenharia moderna e a regulamentação sísmica actual permitem a construção destas torres, desde que sejam seguidos rigorosos projectos de estabilidade e segurança. Vamos avivar a memória acerca da construção de uma Torre no conjunto habitacional da Caixa de Previdência do Funchal  na rua Elias Garcia em 1960 da autoria do arquiteto Raul Chorão Ramalho com 12 pisos  e 30 habitações. Essa altura era algo impressionante e audaz para a Madeira dos anos 60, quebrando completamente a silhueta tradicional de edifícios baixos no Funchal.
Nos anos 60, o Funchal era uma cidade de traçado predominantemente histórico, com edifícios baixos de pedra e cal.
Foi um choque visual, uma torre de betão à vista com cerca de 12 andares erguida na Rua Elias Garcia. Causou um enorme impacto na silhueta urbana. Foi vista por muitos como uma “afronta” à escala tradicional da cidade e por outros como o símbolo máximo de modernidade e progresso.
 O projecto provou que era possível criar habitação social e colectiva de alta qualidade, estética e funcional no centro da cidade, rompendo com o conceito de bairros operários afastados.

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