Os trilhos da Paz são tão difíceis

 

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O Papa Francisco pronunciou na Praça São Francisco o discurso conclusivo do Encontro de Oração pela paz, em Assis perante os representantes das Igrejas, Comunidades cristãs e Religiões: «Não nos cansemos de repetir que nunca o nome de Deus pode justificar a violência. Só a paz é santa e não a guerra!» Um discurso brilhante, diga-se claramente. Mostra por aqui que o verdadeiro entendimento sobre o que é a paz e guerra nas religiões, é muito importante para a construção da paz. Não há paz no mundo se as religiões não forem elas caminhos de paz no seu seio e entre si como movimentos congregadores de multidões.

Nele o Papa Francisco definiu o que é a paz e quais sãos os seus trilhos: «Paz, um fio de esperança que liga a terra ao céu, uma palavra tão simples e ao mesmo tempo tão difícil. Paz quer dizer Perdão que, fruto da conversão e da oração, nasce de dentro e, em nome de Deus, torna possível curar as feridas do passado. Paz significa Acolhimento, disponibilidade para o diálogo, superação dos fechamentos, que não são estratégias de segurança, mas pontes sobre o vazio. Paz quer dizer Colaboração, intercâmbio vivo e concreto com o outro, que constitui um dom e não um problema, um irmão com quem tentar construir um mundo melhor. Paz significa Educação: uma chamada a aprender todos os dias a arte difícil da comunhão, a adquirir a cultura do encontro, purificando a consciência de qualquer tentação de violência e rigidez, contrárias ao nome de Deus e à dignidade do ser humano» (Papa Francisco).

O texto do «bom Papa» João XXIII, Pacem in Terris, «A Paz na Terra», de 11 de abril de 1963, reveste-se de uma atualidade impressionante. Não fora estarmos sob a ameaça de vários focos de guerra efetiva em vários lugares do mundo. Porém, se pensarmos na doutrina que este texto nos apresenta e se nos concentrarmos em alguns dos temas tratados concluiremos que são essênciais para compreendermos os nossos tempos. O desrespeito levado a cabo pela humanidade em relação ao «bem comum universal e os direitos da pessoa humana» e «Princípio de subsidiariedade»; «a luta desenfreada pelo lucro»; os problemas relacionados com a ecologia»; «a globalização da indiferença» (…) entre outros assuntos de urgente actualidade conduziu-nos a esta tragédia da crise e da austeridade cega que leva à catástrofe do desemprego, à pobreza e à fome. Os alicerces da violência e da falta de paz.

A paz é uma realidade interior e exterior que todos os homens procuram. Alguns autores separam uma paz da outra, mas outros, numa perspetiva mais conciliadora, entendem que uma não é sem a outra. A doutrina da Igreja sobre esta matéria, também entende claramente que a paz exterior é fruto da paz interior. Ou seja, uma não é sem a outra, estão ambas as dimensões da paz ligadas entre si.

Santo Agostinho, no Livro 19 da «Cidade de Deus», deu-nos a primeira definição de Paz, que vai influenciar todas as definições posteriores: «A Paz de todas as coisas é a tranquilidade na ordem». Depois procurou exemplificar com nove casos, que vão desde «a paz da alma racional» à «paz dos cidadãos», passando pela «paz doméstica». Em tudo, há que fixar e lidar com dois elementos cruciais: a harmonia e a ordem. A primeira, é a tranquilidade desejada nesse estado de alma que todas as criaturas anseiam. E a ordem, como diz Santo Agostinho, é «a disposição que segundo as semelhanças e diferenças das coisas confere a cada uma o seu lugar».

É muito bom que neste encontro de Assis sobre o mundo sedento de paz, se tenha confirmado: «Procuramos em Deus, fonte da comunhão, a água cristalina da paz, de que está sedenta a humanidade: essa água não pode brotar dos desertos do orgulho e dos interesses de parte, das terras áridas do lucro a todo o custo e do comércio das armas» (Papa Francisco). Importante e corajosa denúncia.

Por isso, o mundo em que vivemos exige atitudes, gestos e sinais que impliquem uma conversão aos outros, porque não há outra forma de viver senão com todos e ninguém deve ficar para trás, «a nossa estrada é mergulhar nas situações e dar o primeiro lugar aos que sofrem; assumir os conflitos e saná-los a partir de dentro; percorrer com coerência caminhos de bem, recusando os atalhos do mal; empreender pacientemente, com a ajuda de Deus e a boa vontade, processos de paz» (Papa Francisco). As religiões têm também uma grave responsabilidade a este nível e devem dar o exemplo com a sua opção preferencial pelos mais necessitados, os sem lugar e vez neste mundo profundamente desigual em que vivemos.

Neste sentido, quem nos dera que as sociedades, os políticos e os líderes religiosos, hoje pensassem nisto: «O nosso futuro é viver juntos. Por isso, somos chamados a libertar-nos dos fardos pesados da desconfiança, dos fundamentalismos e do ódio» (Papa Francisco). Esperemos que este tempo de reflexão entre os vários líderes religiosos em Assis, sob a inspiração do gigante S. Francisco de Assis, venha a dar os seus frutos e que a humanidade cada vez mais perceba que sem desbravar os trilhos da paz, a pobreza, a exploração do homem pelo homem, a violência nunca acabarão, porque a humanidade não pode viver na injustiça e no desrespeito pelo bem comum.