Conceição não tinha mais do que a quarta classe. Aos setenta anos de vida, acumulava o saber das amarguras e uma argúcia por demais reconhecida. Lia todos os dias, com uma atenção de fazer inveja, as páginas do Diário de Notícias, não apenas as letras gordas, no café do Bichana. E, enquanto saboreava lentamente o café, com os óculos de perto bem encaixados no nariz e a cabeça enfiada no jornal, deixava escapar comentários, as suas sentenças, como lhes chamava a clientela do café, quando as ouvia.
Viúva, tinha na vizinhança o seu maior entretenimento. Ou melhor, nas particularidades da vida dos seus vizinhos. Não que manifestasse curiosidade sórdida pelos que a rodeavam, ou se desse a mexericos. Era, antes, uma pessoa interessada. E, graças à sua simpatia, à disponibilidade para ouvir e à particular amabilidade com que se oferecia para ajudar, acabava, sem grande esforço, por conhecer factos e pormenores que não lhe diziam respeito.

Também não os procurava. As pessoas é que lhos confiavam. Às vezes, bastava-lhe uma pergunta inocente. «Então, e a tua mãe, já está melhor?» A pergunta parecia coisa pouca. Mas, se a pessoa se demorasse na resposta, Conceição escutava com a atenção de quem não queria perder palavra. Não interrompia. Não dava conselhos, a menos que lhos pedissem. E, mesmo quando lhos pediam, começava invariavelmente por dizer que não era ninguém para se meter na vida dos outros. Depois, lá vinha o que achava.
Foi assim que, ao longo dos anos, veio a saber quase tudo sobre toda a gente. Havia quem lhe contasse problemas de saúde, quem lhe falasse de dinheiro, quem desabafasse sobre os filhos e quem, por razões que só mais tarde se percebiam, lhe revelasse coisas que nem ao marido tinha contado.
Conceição guardava tudo. Não por maldade, certamente. Tinha boa memória. E, quando alguma coisa que sabia chegava aos ouvidos de quem não devia, nunca era por sua culpa. «Eu cá não disse nada!» – fazia questão de esclarecer. E dizia-o com tal convicção que, por momentos, quase parecia verdade.
Mostrava-se particularmente interessada quando o Diário trazia alguma notícia sobre um dos seus vizinhos. Lia-a uma vez, depois outra, e antes de fazer qualquer comentário ou crítica pensava duas vezes. Não era mulher de se precipitar.
Foi assim que, certa manhã, encontrou o nome do Senhor Apolinário nas páginas do jornal.
Com ele tinha bom relacionamento. Cumprimentava-o sempre que se cruzavam e desejava-lhe um dia feliz com a graça de Deus. Apolinário respondia-lhe que iria tentar, mas que, para isso, escusava a intervenção divina.
De início, Conceição ficou atónita. Depois percebeu que ele não era da Igreja, apesar de ter estudado nos meios dos padres. Durante algum tempo, ainda se interrogou sobre o que teria acontecido para tamanha mudança. Não encontrando resposta que a satisfizesse, acabou por desistir.
Havia coisas que não se explicavam. Ou, pelo menos, não se explicavam à Conceição. Para ela, era quase uma ofensa à ordem natural das coisas.
Nesse dia, foi através do Diário que ficou a saber que o Senhor Apolinário, por artes, arranjara um emprego para o genro no albergue onde trabalhava. Para isso, contara com a ajuda de um velho amigo, homem de grande confiança, experiente nessas andanças e com provas dadas.
Conceição releu a notícia. Não que tivesse alguma coisa contra o Senhor Apolinário. Muito pelo contrário. Sempre o considerara uma pessoa educada e de boas maneiras. Ficara-lhe, é certo, a impressão de que era um tanto manhoso. Mas uma coisa era conhecer alguém e outra, bem diferente, perceber como procedia.
Voltou a ler. Depois pousou o jornal sobre a mesa e ficou alguns instantes a olhar para a chávena de café. «Por artes…!» – murmurou.
Era uma expressão que dizia muito, sem precisar de explicar coisa alguma.
Pois então se o rapaz tinha curso e estava desempregado, o sogro não haveria de lhe deitar a mão? Claro que haveria. Para que serviam os conhecimentos, senão para ajudar a família quando era preciso?
O problema estava do outro lado. Mas, bem vistas as coisas, também devia haver quem lhe deitasse a mão. Se não tinha, não era culpa do Senhor Apolinário.
Conceição pensou um pouco. A vida era assim. Uns contavam com conhecimentos, outros com sorte ou cunhas, e outros tinham de se desenrascar como podiam. Não era bonito, talvez, mas também não constituía novidade para ninguém. E depois, quem é que podia garantir que, se fosse ao contrário, o outro não faria exatamente o mesmo?
Conceição voltou a pegar na chávena. «Quem tem padrinhos não morre mouro» – rematou.
Era uma coisa que sempre se dissera. E alguma verdade havia de ter. Bebeu o último gole de café e dobrou o jornal.
Para Conceição, o senhor Apolinário não fizera nada de extraordinário. Limitara-se a ajudar os seus. O que, pensando bem, era uma obrigação. O resto eram os outros que tinham de resolver.
Conceição, sem estudos nem amigos em lugares de mando, compreendia perfeitamente essas coisas. Também ela, se tivesse ao alcance da mão uma maneira de pôr um dos seus à frente dos outros, não via razão para deixar passar a oportunidade. Não lhe chamaria cunha, porque nem sabia bem se a palavra se aplicava àquilo. Na sua cabeça, era um jeitinho, palavra simpática e que servia para quase tudo.
O doutor Apolinário era mais fino. Sabia onde pôr a mão, a quem bater à porta e, sobretudo, como fazer parecer que a porta se abrira sozinha e que ele, por acaso, ia a passar.
E, já à saída do café do Bichana, ainda se ouviu a sua voz: «Isto é só invejidade!»
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