Crónica Urbana: O milho do vizinho é sempre melhor que o nosso

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Rui Marote

A minha avó esmerava-se quando cozia milho. Peneirava-o, separando o farelo, colocava banha de porco, torresmos e favas e nunca se esquecia da couve picada. Uma vez por semana, à sexta-feira, era norma ir à casa da avó para comer milho quente. A vizinha da minha avó, por seu turno, cozia milho à terça-feira, e oferecia sempre um prato. Que não vinha com aquelas mordomias de torresmos e favas – somente couve e banha. E nós devorávamos a pratalhada num instante, mesmo frio. Era num abrir e fechar de olhos!

A minha avó exclamava: “Não percebo! O milho da vizinha é melhor que o nosso!” Todo este nariz de cera (termo jornalístico para textos inúteis) vem a propósito de ter sido surpreendido, numa papelaria de livros escolares, com a enorme oferta de mochilas e outros utensílios escolares do Real Madrid e do Barcelona, objectos devidamente certificados (oficiais) pelas lojas dos merengues e catalães.

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Nada temos contra  a livre circulação dessas mercadorias. Mas questionamo-nos se o milho do vizinho será melhor que o nosso.

Ninguém espera encontrar mochilas do Marítimo, Nacional e União a serem comercializadas. E se fossem, era negócio falido, pela certa. Ora, somos engolidos por estes clubes gigantes, e os nossos jovens carregam às costas o Real Madrid e o Barcelona, publicitando orgulhosamente desde cedo o que não é nosso.

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Um secretário regional que já não está no activo tocava sempre a mesma “música” nos seus discursos: consumir o que é nosso, alertava. Está na moda colocar nos nossos produtos um selinho a chamar a atenção de que é produto madeirense. Mas os madeirenses continuam a ter vergonha de o ser, e a teimosamente comprar o que não é nosso, muitas vezes não porque o que é nosso tenha falta de qualidade, mas porque o apelo que o que é de fora faz ao consumidor local é mais forte e atractivo.

Ora, pode-se apreciar futebol, mas fará muito sentido apregoar-se fã de clubes de outras paragens, inclusive de outros países? E a adoração que tantos madeirenses têm por clubes de futebol que não os da sua terra é apenas uma metáfora para tantas outras coisas…