Bolívar, ‘El Libertador’, morreu há 185 anos

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Comemora-se hoje a data da morte de Símon Bolívar, considerado o libertador da América Latina.

Chegou a ser referido como o ‘George Washington da América do Sul’ por vários historiadores, dado o seu incomensurável papel na luta pela autodeterminação de múltiplos países latino-americanos face ao domínio espanhol. Para o povo venezuelano, e não só, ele é uma enorme referência política ligada a um conceito libertário e de não subordinação às grandes potências. Por isso permaneceu no imaginário colectivo como um verdadeiro herói nacional e libertador. Durante a sua vida, este militar encabeçou um movimento que conduziria a Venezuela, o Panamá, o Peru, a Bolívia, a Colômbia e o Equador rumo à independência, contribuindo, por outro lado, de forma decisiva para os impulsionar rumo à democracia. Outros países da América Hispânica seguiriam o seu exemplo.

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Dada a presença significativa de madeirenses na Venezuela, a figura de Bolívar é bastante conhecida entre nós, existindo mesmo um busto do mesmo no Funchal (no Jardim Municipal). Nascido de famílias aristocratas em Caracas, Venezuela, no ano de 1783, um de entre cinco irmãos, Bolívar viu os seus pais morrerem muito cedo, sendo criado depois pelo avô materno, e mais tarde, por um tio, da casa do qual fugiria para se dirigir à residência de uma tia por quem sentia uma maior ligação afectiva. Passou também alguns meses na casa de Simón Rodríguez, um pedagogo que o marcaria e do qual ficaria amigo para a vida.

Estudou em Madrid, Espanha, a partir de 1799, ampliando conhecimentos de Matemática, Literatura, História e aprendendo a falar francês. Ali se casou com Maria Teresa Rodríguez del Toro y Alaysa, em 1802.

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A sua vida ficou marcada por um juramento, proferido no Monte Sacro, em Roma, diante de Simón Rodríguez e de Francisco Rodríguez del Toro, um seu amigo, dando conta de que não iria descansar antes que libertasse a América Latina do jugo espanhol.

As primeiras movimentações em prol da independência venezuelana apanharam-no ainda na Europa: eram então encabeçadas pelo general Francisco Miranda. Bolívar resolveu então retornar à Venezuela, passando primeiro pelos Estados Unidos, onde conheceu várias cidades. Integrou as juntas de Resistência na América Espanhola e, quando a Junta de Caracas declarou a independência em 1810, foi enviado para Inglaterra numa missão diplomática. Porém, Francisco Miranda, líder da Junta, acabaria por render-se aos espanhóis, sendo Bolívar obrigado a fugir para Cartagena das Índias. Ali redigiria o Manifesto de Cartagena.

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Não se ficaria por ali e liderou a invasão da Venezuela, em 1813, sendo proclamado El Libertador. Após a conquista de Caracas no mesmo ano, quando foi proclamada a Segunda República Venezuelana, comandou os nacionalistas colombianos, capturando Bogotá em 1814. Foi obrigado a fugir em 1815 para a Jamaica, onde pediu ajuda a Alexander Sabes Petión por ajuda. Redigiu aí outro documento importante, a denominada Carta da Jamaica.

Regressou em 1816 ao combate capturando Angostura, a actual Ciudad Bolívar, na Venezuela.

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Quis convocar os sul-americanos em torno de ideais de libertação, de igualdade e fraternidade, na senda da Revolução Francesa, e implementar a democracia como conceito político capaz de proporcionar a liberdade que ambicionava para os povos latino-americanos. Advogou, por outro lado, a separação entre religião e Estado e o fim da escravatura. Os ideais federalistas orientavam-no, também: foi o impulsionador do Congresso do Panamá, no qual estiveram presentes delegados do México, da Federação Centro-Americana, da Grã-Colômbia (que integrava Colômbia, Equador e Venezuela) e do Peru. Ali se desenvolveu um importante sentimento de pan-americanismo. Mas os nacionalismos e as especificidades de cada país acabariam por provar-se mais fortes e Bolívar, que sonhava constituir uma confederação de estados à moda dos Estados Unidos da América, teve a amargura de verificar que ao invés de mais países se juntarem à união pretendida, os que já pertenciam (incluindo a Venezuela) começaram a abandoná-la.

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Apesar dos ideais democráticos, o governo de Bolívar acabou por caracterizar-se mais pelo autoritarismo do que pela democracia, por via de uma centralização de poderes que se mostrou necessária, mas que desvirtuava os seus ideais federativos. Viu-se também confrontado com as durezas da ‘realpolitik’:; foi forçado a tentar algum apoio da Inglaterra para vencer a guerra contra os espanhóis, o que não foi fácil para ele, pois os ingleses eram governados por uma monarquia, e ainda por cima com relacionamento importante com Espanha.

Morreu pobre e deprimido em 1830, com apenas 47 anos. O militar que tinha enfrentado tantas batalhas tombaria vitimado pela tuberculose. Foi na Quinta de San Pedro Alejandrino, na Colômbia, que faleceu, após dar ordens ao seu ajudante de campo para queimar todos os seus escritos. Porém, o mesmo desobedeceu, e foi assim que muitos pormenores sobre os seus ideais libertários chegaram aos nossos dias.

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Em Bogotá, a capital da Colômbia, mais precisamente no sopé da montanha de Monserrate, encontra-se hoje a Casa Museu Quinta de Bolívar, que era uma residência de campo do Libertador. A mesma tem um bonito jardim e conta com objectos que documentam a sua vida, além de quartos que preservam a decoração da época. Esta é uma casa de estilo colonial situada na localidade de Candelaria, cujas origens, antigas, remontam a 1670.

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Bolívar, hoje transformado em herói nacional venezuelano, morreu exilado do seu próprio país. A sua memória só mais tarde seria reabilitada. Hoje, é lembrado como um dos maiores protagonistas da luta pela liberdade na América Latina.