Os bispos portugueses foram a votos em questões sobre a família

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Esta notícia caiu sobre nós como um raio que vinha do fundo da caverna da hipocrisia e daquela tenebrosa atitude de Pilatos quando diante de Jesus com o povo por detrás aos berros de «crucifica-o», depois de lhe perguntar insistentemente se «Ele era Rei» e «o que era a verdade», lavou as mãos para ficar pelos séculos fora a ideia que norteia todos aqueles que não querem tomar decisões ou saírem frescos do meio da lama ou passarem enxutos por entre os pingos da chuva.

Há muito tempo percebi que a vida de muitos bispos está nesses pratos da balança. Tudo fazer sem decidir nada, para que a cruz peitoral e o anel dourados estejam sempre luzidios.

Por isso, fomos tomados de assombro um dia destes com esta notícia do Sol (31/07/2015): «A revolução na Igreja posta em marcha pelo Papa Francisco já está a dividir os bispos portugueses. Na última reunião plenária, em Abril, a discussão acendeu-se e a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) partiu-se ao meio. De um lado, o grupo encabeçado pelo bispo de Leiria-Fátima, António Marto, que defende a abertura da Igreja nos temas da família. Do outro, os que estão com o cardeal-patriarca de Lisboa, Manuel Clemente, e consideram que não se pode pôr em causa a doutrina. Os bispos ilhéus estavam deste lado da barricada. Não fora a subserviência a Lisboa ser beliscada por causa de coisas menos como essas da família com a multidão de excomungados que a Igreja há muitos anos foi divorciando das suas fileiras.

O conteúdo da notícia resume-se a isto: «No centro da polémica está o lugar na Igreja dos católicos divorciados que voltaram a casar civilmente. O tema, lançado no Sínodo da Família do ano passado, em Roma, gerou um enorme debate em todo o mundo e obrigou a Igreja portuguesa a clarificar-se. Neste debate, e depois de uma votação secreta feita durante aquela reunião, os mais conservadores venceram. Mas o grupo do bispo António Marto foi derrotado por pouco».

E agora como ficam os bispos perante as suas comunidades se tivermos em conta que o Papa Francisco já afirmou que é necessário integrar na Igreja todos até mesmo essa multidão de recasados, facto que nós dizemos, finalmente… Bravo Papa Francisco e aplaudimos de pé. O Papa disse o seguinte Srs. Bispos:

«A Igreja não ignora que a situação dos divorciados e recasados contradiz o sacramento do matrimónio, mas, por outro, o seu coração materno, animado pelo Espírito Santo, leva-a sempre a buscar o bem e a salvação de todas as pessoas”. «Estes batizados, que estabeleceram uma nova relação depois da dissolução do seu matrimónio sacramental, precisam de um acolhimento fraterno e atento, no amor e na verdade, estas pessoas não foram excomungadas, e não podem ser tratadas como tal, elas fazem sempre parte da Igreja», afirmou convictamente Francisco na Ala Paulo VI.

A missão da Igreja é estar no mundo e procurar a aí ser fiel ao Evangelho de Jesus Cristo. Se a Igreja está no mundo terá de ser do mundo e deverá assumir todos os condicionalismos peculiares do mundo em que está. Mas, não deve ser oportunista nem deve funcionar segundo a lógica do mundo. A Igreja deverá sabiamente denunciar em cada momento tudo o que viole a dignidade humana e integrar todos os fiéis. A Igreja que exclui não é a Igreja de Jesus Cristo. Muito menos não pode como se fosse a instituição mais perfeita e a mais pura de todas, que não é, afirmar-se sem pecado ou sem responsabilidade nenhuma perante os sintomas degradantes da sociedade e do mundo. As questões sobre a família têm como base esta triste ideia.

Sempre que a Igreja enveredou pela defesa de si mesma a qualquer preço não ganhou nada com isso, pelo contrário, perdeu em todas as frentes. Assim, consideramos que, por um lado, terem ido a votos para se entenderam, lavaram as mãos pretensamente escondidos e prestaram um mau contributo à sociedade em geral e às suas dioceses, mas, por outro, fizeram passar a ideia que não alinham com a intenção do Papa Francisco, que pretende levar a adiante a revolução na Igreja Católica e a integrar todos os que há anos foram considerados anátemas só porque o seu matrimónio falhou.

A sociedade, por mais que os bispos expliquem e procurem enquadrar o seu conservadorismo sobre as questões da família como sendo um contributo à família e à comunidade, não entende assim e manifesta que a Igreja está preocupada mais com o que eventualmente venha a perder e com o fim da sua posição hegemónica na sociedade. Tudo questões secundárias, até porque há já muito tempo que perdeu essa hegemonia no mundo. Não querer ver isso é viver fora deste mundo acima das nuvens.