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O Governo voltou a colocar os carros elétricos no centro da política ambiental, anunciando apoios que podem chegar a 80% do valor de aquisição para famílias carenciadas, além de incentivos adicionais para a população em geral. A medida foi apresentada como um passo decisivo para descarbonizar os transportes e aliviar a fatura dos combustíveis. Mas, para muitos portugueses, a pergunta continua a ser simples: se já há dificuldade em pagar a eletricidade em casa, como se vai carregar um carro elétrico?
A aposta não é, em si mesma, errada. O transporte rodoviário continua a ser uma das principais fontes de emissões e a eletrificação da frota é uma tendência europeia inevitável. Um carro elétrico pode custar menos por quilómetro do que um movido a gasolina ou gasóleo, sobretudo quando o carregamento é feito em casa, em horários de tarifa mais baixa. Além disso, Portugal tem vindo a aumentar a produção de eletricidade a partir de fontes renováveis, o que reduz, em teoria, a pegada ambiental deste tipo de veículo.
O problema está na sequência das políticas. Não basta subsidiar a compra de automóveis; é preciso garantir que há eletricidade acessível, rede elétrica preparada, carregadores suficientes e preços previsíveis. Quem vive num apartamento, sem garagem ou lugar de estacionamento fixo, depende de carregadores públicos — e estes continuam a ser escassos, caros ou pouco fiáveis em várias zonas do país. A DECO tem alertado precisamente para a necessidade de a infraestrutura de carregamento acompanhar o crescimento do parque elétrico, com disponibilidade, interoperabilidade e qualidade de serviço.
Há ainda uma questão social que o Governo não pode ignorar. Anunciar apoios generosos a famílias com menores rendimentos pode parecer uma resposta à exclusão, mas não resolve o facto de muitos desses agregados enfrentarem primeiro a pobreza energética: casas mal isoladas, faturas elevadas e dificuldade em aquecer ou arrefecer a habitação. Colocar um carro elétrico na frente desta realidade pode soar desconectado se não houver, em paralelo, medidas fortes para reduzir o custo da energia e melhorar a eficiência das habitações.
A crítica de que “não temos eletricidade” é, portanto, uma simplificação. Portugal tem eletricidade, mas enfrenta constrangimentos reais: custos elevados, pressão sobre a rede de distribuição, dependência pontual do gás quando faltam renováveis e um sistema de carregamento ainda desigual entre grandes centros urbanos e territórios mais isolados. Ignorar estes limites seria tão errado quanto rejeitar a eletrificação por completo.
O Governo precisa de perceber que a transição para o carro elétrico não se faz apenas com um cheque à compra. Faz-se com investimento na rede, com mais produção renovável e armazenamento, com tarifas justas, com carregadores acessíveis a quem não tem garagem e com transportes públicos fortes. Caso contrário, o país arrisca-se a subsidiar uma solução ambiental que, para muitas famílias, continuará fora de alcance — ou, pior, a transformar a fatura da luz no novo pesadelo de quem quis fazer a escolha certa.
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