Crónica de viagens: 32 anos depois, o regresso à Ilha Resplandecente, o Sri Lanka

É para mim emocionante o meu retorno ao Sri Lanka. Visitar o país hoje é uma experiência completamente diferente de há 32 anos atrás (no auge do conflito que então ocorria). Desde o fim da guerra civil em 2009 que áreas que antes eram totalmente inacessíveis ou perigosas se abriram ao turismo, revelando praias desertas, templos milenares preservados e uma natureza vibrante.
Conheci Colombo capital e Kandy. O foco da minha viagem é o Triângulo Cultural, as montanhas de chá e o outrora inacessível Norte e Leste.
Na época da guerra, as estradas para o centro-norte eram altamente vigiadas ou bloqueadas. Hoje essa área é o coração histórico do país.
O conflito envolveu dois grupos étnicos: os Cingaleses, que foram a maioria da população (cerca de 75% maioritariamente budistas que habitam o centro e o sul da Ilha e os Tâmis, a maior minoria, cerca de 15%, maioritariamente hindu, concentrada no norte e no leste do país. Os motivos da guerra tinham a a ver com a herança colonial do “dividir para reinar”. Durante o período  colonial (1815-1948) a administração britânica frequentemente favoreceu a minoria tâmil, concedendo- lhes melhor acesso à educação de língua inglesa e cargos na administração pública. Quando o país se tornou independente, a maioria cingalesa assumiu o poder politico  com um forte sentimento de ressentimento histórico  e o desejo de recuperar o controle total da ilha.
Em 1956 o governo aprovou a Official Language Act, que substituiu o inglês pelo cingalês como a única língua oficial do país. Isso marginalizou  a minoria tâmil ,que falava a a língua tâmil. Perderam empregos no funcionalismo público e enfrentaram severas desvantagens nas universidades e na justiça, pois não conseguiam comunicar oficialmente com o Estado.
Em 1972, o país mudou o nome de Ceilão para Sri Lanka e aprovou uma nova constituição que deu ao budismo o status de religião primordial do Estado.
Como a maioria dos Tâmis é hindu (ou cristã/muçulmana), os mesmos sentiram-se oficialmente transformados em cidadãos de segunda classe. Após décadas de protestos pacíficos dos políticos tâmis  que foram ignorados ou respondidos com violência  por extremistas cingaleses, a frustração deu lugar à luta armada.
Em 1976 foi fundado o grupo paramilitar  conhecido como Tigres Tâmis (LTTE), liderado por Velupillai Prabhakaran. O objectivo do grupo era criar um estado independente chamado Tamil Eelam no norte e leste do Sri Lanka.
A guerra civil explodiu oficialmente em Julho de 1983, no evento trágico conhecido como Julho Negro e só terminou em Maio 2009 com o exército do Sri Lanka a lançar uma ofensiva militar devastadora que resultou a morte do líder Prabhakaran e no colapso definitivo dos Tigres Tâmis. Foi o fim desse período sombrio e que permite hoje visitar as regiões afectadas pelo conflito que se reconstruíram.
Porque se chamava Ceilão este país? Foi uma adaptação europeia iniciada pelos portugueses em 1505, a partir de termos muito mais antigos usados para descrever os habitantes locais. A palavra tem raíz no sânscrito (Simhaladvipa) e o idioma páli (Sihala) que significa “ilha ou terra dos cingalesesv(ou literalmente “terra dos leões”)
ao longo do temp, comerciantes árabes adaptaram o termo para Sahilan. Quando os navegadores portugueses chegaram á região, aprofundaram  essa fonética e baptizaram o local de Ceilão.
Mais tarde os colonizadores ingleses britânicos mantiveram a grafia em inglês como Ceylon. Só em 1972 mudou de nome, mais precisamente em 22 de Maio. O significado Sri Lanka na língua local: Lanka significa “Ilha” e Sri é um prefixo respeitoso que significa “sagrada” ou “resplandecente”.Portanto, o nome. significa “Ilha” Resplandecente.
Os portugueses chegaram ao Ceilão acidentadamente, m 1505 quando navegavam em direcção às Maldivas e foram desviados por uma forte tempestade . Caravelas comandadas por Dom Lourenço de Almeida (filho do primeiro vice-rei da Índia) foram empurradas para aquela ilha, e cedo se aperceberam da sua riqueza estratégica para controlar a fonte de canela mais valiosa do mundo. Em 1518 receberam permissão para erguer o primeiro forte em Colombo.
Em 1597 assumiram o controle  territorial directo e oficial da costa litoral  da ilha.
O declínio português começou no contexto da Guerra Luso-Holandesa. Os holandeses atacaram sistematicamente as fortificações portuguesas. E caiu em 1658 o último bastião português na Ilha,  após cercos sangrentos na capital Colombo.
Mesmo tendo saído da Ilha há quase quatro séculos. a herança portuguesa é visível no Sri Lanka deixando marcas que duram até hoje. Apelidos de familia (sobrenomes), por exemplo. Muitos cingaleses ainda carregam sobrenomes portugueses. Exemplos muito comuns na ilha incluem  Fernando, Perera, Silva, Fonseka, Corea (de Correia) e Pinto.
Palavras portuguesas ligadas ao dia a dia como almariya (armário),janela, sapattu (sapato) e paan (pão) também existem. 6% do Sri Lanka é católico e muitas igrejas costeiras mantém tradições e santos introduzidos
pelos missionários portugueses.
Os luso-descendentes (Burghers Portugueses) nasceram do casamento de soldados e colonos portugueses com mulheres locais . Formaram uma classe social urbana e muito específica. As suas casa seguiam o estilo ibérico, com varandas internas e janelas com treliças.
Mesmo após a expulsão dos portugueses em 1658 essa comunidade manteve a língua (o crioulo português) e a religião católica vive nas suas casas há gerações  resistindo à forte pressão de conversão dos holandeses protestantes.
Aqui fica fica um pouco da história deste país e da presença portuguesa. Aqui estou após 32 anos para completar as viagens que não fiz neste país.
Nas próximas crónicas de viagem tentarei dar-vos a conhecer marcos históricos deixados pelos portugueses, como fortalezas, cultura, música e gastronomia e as belezas deste país asiático.

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