Há 70 anos, a tromba de água que marcou Machico e Santa Cruz

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Machico, 3 de novembro de 2026 — Completam-se hoje 70 anos sobre uma das maiores tragédias naturais registadas na Madeira no século XX. A 3 de novembro de 1956, uma violenta tromba de água atingiu as freguesias de Machico, Porto da Cruz, Água de Pena, Santo da Serra e Santa Cruz, deixando seis mortos, destruição generalizada e uma população marcada para sempre pela força das águas.

As ribeiras transbordaram com uma violência improvável, arrastando pedras, lamas, animais, mobiliário e construções. Estradas ficaram cortadas, pontes ruíram e várias localidades ficaram isoladas, impedindo tanto a fuga dos habitantes como a chegada rápida dos socorros. Em Machico, a destruição atingiu pontes essenciais à circulação, enquanto no Porto da Cruz quatro pontes foram totalmente destruídas.

Uma noite de desespero

Para além das perdas humanas, a catástrofe privou milhares de pessoas de água potável, mantimentos e comunicações. Casas foram inundadas ou arrasadas, lavouras desapareceram sob a lama e o gado foi arrastado para o mar. Os relatos da época descrevem um clima de pânico e desespero, agravado pela dificuldade em avaliar a dimensão real dos estragos.

A aluvião de 1956 ficou na memória coletiva ao lado das grandes catástrofes de 9 de outubro de 1803 e de 24 de outubro de 1842. Embora o número de vítimas tenha sido menor, a destruição de infraestruturas, habitações e terras agrícolas tornou o episódio um dos mais graves da história recente do concelho de Machico.

Uma resposta solidária

A tragédia provocou, porém, uma forte mobilização solidária. População, imprensa, empresas locais e estrangeiras, membros da comunidade britânica residente e até turistas contribuíram com donativos para apoiar as vítimas. Entre as contribuições registadas estiveram apoios de instituições religiosas, da Cruz Vermelha, da Casa dos Pescadores do Funchal, da Aquila Airways e da Legião Britânica no Funchal.

Também a Academia de Música da Madeira e o Clube Desportivo Nacional se disponibilizaram para organizar iniciativas beneficentes em favor das populações afetadas. O Estado respondeu com a construção de pontes provisórias, a recuperação das vias de comunicação e a edificação de 25 casas em Machico destinadas a pescadores locais que perderam as suas habitações.

Memória que permanece

As imagens captadas pelos fotógrafos Manuel e Raul Perestrelo, expostas na montra do seu estúdio, ajudaram a dar visibilidade à dimensão da tragédia e constituem hoje um importante testemunho visual daquele dia.

Sete décadas depois, a aluvião de 3 de novembro de 1956 continua a lembrar a vulnerabilidade da Madeira face aos fenómenos meteorológicos extremos — mas também a capacidade de solidariedade de uma comunidade capaz de se unir diante da adversidade.


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