
AF!
Que alegria nacional! O Estado anunciou que vai ajudar as famílias mais carenciadas a comprar carros elétricos, comparticipando até 80% do valor. Finalmente, a solução para quem não consegue pagar a renda, não tem poupança e vive num terceiro andar sem elevador: um automóvel novo, silencioso, ecológico e — sobretudo — impossível de carregar.
Porque nada diz “inclusão social” como entregar um carro elétrico a alguém que mora num apartamento sem garagem. O beneficiário poderá estacionar a quinhentos metros de casa, caminhar até lá com um cabo debaixo do braço e esperar pacientemente que exista um carregador livre, funcional e não ocupado por um SUV que chegou às 18h e só sai na segunda-feira.
E que bela matemática: o Estado paga 80%, mas a família continua a ter de arranjar os restantes 20%, mais impostos, seguro, combustível — quer dizer, eletricidade — e a pequena questão de ter algum dinheiro para viver. É como oferecer 80% de um bolo a quem não tem farinha, forno nem mesa.
Claro que há um subsídio para instalar um posto de carregamento em casa. Muito sensato. Basta ter casa. E garagem. E permissão do condomínio. E um eletricista. E paciência para lidar com a administração. Detalhes irrelevantes, certamente.

Entretanto, as famílias continuam à procura de casa, os arrendamentos continuam a subir, as garagens continuam a custar como um pequeno país, e o carregamento público continua a ser uma experiência de fé. Mas não se preocupem: em breve, quem não tem onde morar poderá pelo menos dormir dentro do seu novo carro elétrico — desde que encontre um lugar para estacionar.
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