Jardins Suspensos da indiferença: O matagal que engole o património do Funchal

Rui Marote
Quem caminha hoje pelas artérias centrais do Funchal depara-se com um cenário que contrasta com a imagem de “Pérola do Atlântico” que a promoção turística teima em vender. A capital madeirense, outrora orgulhosamente reconhecida como uma cidade asseada e cuidada, enfrenta um processo visível de degradação urbana. Hoje, o que impera no coração da cidade são os buracos na via pública, lixeiras improvisadas e, de forma quase caricata, autênticos jardins suspensos de matagais que brotam livremente nos telhados de edifícios históricos.
Este cenário de desleixo asfixia, em primeiro lugar, quem mantém a cidade viva: os seus moradores e o comércio tradicional. As lojas de rua, que resistem a custo perante a concorrência dos grandes centros comerciais, veem as suas montras rodeadas por calçadas destruídas e fachadas decadentes. Onde deveria haver brio e atractividade para os clientes, há poeira, lixo acumulado e infiltrações. Para os residentes do centro histórico, a qualidade de vida degradou-se ao ritmo das paredes descascadas. Viver no Funchal tornou-se um exercício de frustração, onde o património que deveria ser motivo de orgulho comunitário passou a ser um vizinho incómodo e perigoso.
O fenómeno de abandono não escolhe quadrantes. O Palácio Ornelas, outrora imponente na sua arquitetura privada, definha a olhos vistos, servindo de abrigo à vegetação que deita abaixo a dignidade do edificado. Pouco acima, na Rua de João Tavira, os telhados transformaram-se em matas aéreas, denunciando proprietários que há muito desistiram de cuidar do que é seu. No entanto, a desresponsabilização privada é apenas o reflexo de um mal maior: o péssimo exemplo que vem de cima.
O caso do Colégio dos Jesuítas, no Largo do Colégio — actual complexo da Universidade da Madeira —, é a prova viva de que o Estado e as instituições oficiais falham gravemente na tutela do que é público. As paredes exteriores e interiores deste monumento estão profundamente marcadas pela humidade crónica e pela falta gritante de uma simples demão de pintura. Quando a tutela deixa o património público chegar a este estado de pré-ruína, passa uma mensagem clara ao mercado: o desleixo é tolerado.
O resultado desta inércia institucional é o chamado “efeito contágio”. Quando o Estado não toma conta do que é seu, os privados fogem, desinvestem e abandonam. Sem uma forte reabilitação pública, o comércio local fecha as portas e os moradores abandonam o centro. O Funchal arrisca-se a transformar-se num postal ilustrado de ruas esburacadas, onde a natureza invasora vai engolindo a história à pressa, perante a aparente passividade das autoridades. O Funchal exige uma liderança que resgate o brio, apoie os seus comerciantes e devolva a dignidade às suas gentes.

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