Bordalo II leva tenda da PSP ao Rossio em crítica à repressão das acampadas pela habitação

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O artista urbano Bordalo II instalou esta sexta-feira, no Rossio, em Lisboa, uma intervenção artística que coloca uma tenda identificada com a palavra “POLÍCIA” no centro do espaço onde, nas últimas semanas, manifestantes pelo direito à habitação montaram acampamentos. A obra, rapidamente retirada pela polícia, pretendia denunciar a ação das forças de segurança junto aos protestos e reafirmar o acesso à habitação como um direito fundamental.

A instalação era composta por uma tenda azul e branca com a inscrição “POLÍCIA”, equipamento de proteção usado pelas forças de intervenção e um carrinho de mão carregado de pedras. Bordalo II acrescentou ainda um sinal de trânsito de peões alterado, com figuras que sugerem agentes a agredir um transeunte, num gesto de ironia sobre a violência policial.

“Uma casa onde morar é um direito fundamental. O Estado não pode instrumentalizar as forças de segurança para a violência”, escreveu o artista, acompanhando a peça com a frase: “Quem quer alimentar a violência que atire a primeira pedra.” A mensagem procura inverter a narrativa em torno das acampadas, deslocando o foco das tendas dos manifestantes para a presença e a atuação policial.

A intervenção surge após uma sequência de operações da PSP para retirar tendas montadas no Rossio no âmbito do movimento “Casa para Viver”. A 20 de outubro, a polícia desmantelou o acampamento de Lisboa e deteve 55 pessoas por desobediência, numa operação que começou por volta das 6h00. Os organizadores denunciaram violência e feridos, enquanto a PSP sustentou que a ação foi proporcional e que não foram utilizados bastões.

O movimento, que também esteve ativo no Porto, exige medidas estruturais para responder à crise habitacional, incluindo mais habitação pública, o fim dos despejos, o controlo das rendas e a recuperação de edifícios devolutos. As tendas tornaram-se o símbolo do protesto, mas a PSP tem mantido que a sua permanência durante a noite no espaço público configura uma contraordenação, mesmo quando o objetivo é simbólico.

A retirada da obra de Bordalo II não esbateu o impacto da imagem. Pelo contrário, a tenda policial no Rossio funcionou como uma réplica visual do confronto entre manifestantes e autoridades: um objeto associado ao protesto foi substituído pelo equipamento do Estado, num espaço que voltou a tornar-se palco do debate sobre habitação, liberdade de manifestação e uso da força pública.

A polémica mantém-se aberta. Para os ativistas, a remoção das tendas e as detenções revelam uma resposta desproporcionada a um protesto cívico; para a PSP, trata-se do cumprimento da lei num espaço público sujeito a regras. Entre as duas versões, Bordalo II deixou no Rossio uma pergunta visual: quem é que, afinal, está a montar a tenda?


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