Estepilha, SNS de aplausos, INEM de milagre: em Portugal, o normal ainda parece extraordinário

AF!

No país do “está tudo sob controlo” até que alguém importante precisa de ser atendido, o elogio de Marcelo Rebelo de Sousa ao SNS e ao INEM soa quase como uma piada pronta. O ex-Presidente foi assistido, correu tudo bem, e lá vieram os agradecimentos públicos, cheios da habitual solenidade institucional. Bonito. Comovente. Quase dá vontade de acreditar que vivemos num sistema de saúde exemplar e não numa engrenagem exausta que só parece funcionar quando a luz dos holofotes incide em cima dela.

A verdade, essa teimosa, é bem menos elegante. O SNS português tem profissionais que mereciam medalhas, estátuas e, no mínimo, não serem tratados como recursos infinitos por governos que adoram discursos e têm alergia a soluções. O INEM faz milagres com meios que cheiram muitas vezes a sobrevivência do que a eficiência. E depois aparece um elogio presidencial, como se meia dúzia de palavras simpáticas resolvessem anos de degradação, filas intermináveis, urgências entupidas, equipas em rutura e cidadãos deixados à espera de uma pulseira, de uma ambulância ou de uma resposta que não venha tarde demais.

É aqui que entra a hipocrisia nacional em modo premium. Quando é um figurão do Estado, o serviço responde, os meios aparecem e o discurso institucional ganha verniz de sucesso. Quando é o cidadão comum, o cenário muda: horas de espera, portas cheias, profissionais no limite e uma espécie de lotaria clínica em que ninguém sabe se sai atendido, transferido ou simplesmente esquecido no corredor da emergência. Em Portugal, a saúde pública funciona muitas vezes como um espetáculo de sobrevivência: para o público em geral, drama; para os de cima, eficiência súbita.

O mais irónico é que Marcelo até tem razão no elogio. Os profissionais do SNS e do INEM merecem, de facto, reconhecimento. O problema é que o reconhecimento virou substituto de investimento. Aplaude-se porque é mais barato do que resolver. Exalta-se a coragem das equipas porque é mais conveniente do que reforçar meios, contratar pessoal, reorganizar serviços e parar de fingir que o sistema aguenta eternamente à base de sacrifício humano e boa vontade. A política portuguesa adora este truque: quando falta capacidade, distribui-se retórica; quando falta planeamento, celebra-se a dedicação; quando falta tudo, chama-se “resiliência”.

No fim, o elogio presidencial acaba por denunciar aquilo que tenta suavizar. Se o SNS e o INEM merecem destaque por terem feito o seu trabalho, então o país está tão habituado ao desgaste que já considera extraordinário aquilo que deveria ser normal. E isso é, talvez, o retrato mais fiel da saúde em Portugal: um sistema que continua de pé não porque o poder o tenha tratado bem, mas porque há profissionais a segurar as pontas com teimosia, competência e uma paciência que o Estado há muito esgotou.


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