Estepilha: falta de recursos ou de remunerações na hotelaria?

Rui Marote
A população da Madeira era de 250 mil pessoas. Hoje é de 220 mil. Com a chegada da pandemia, a nossa maior indústria, a hotelaria, paralisou. Emigrar para o Reino Unido com a saída da Grã-Bretanha da União Europeia, é cada vez mais difícil. O lay-off também chegou tarde, e muitos trabalhadores da hotelaria abraçaram outras profissões.
Os grandes hotéis, a trabalhar a 50%, fizeram uma escolha dos postos de trabalho, adquirindo os melhores e sobrecarregando-os com tarefas e com horários de 12 horas, sem receber horas extraordinárias. Recorrem a empresas privadas para efectuar certas tarefas, como é o caso de empregadas de quarto e de limpezas, alternando em outras unidades do mesmo grupo.
O Funchal Noticias fotografou em muitos restaurantes  da cidade, nas montras e nas portas de vidro, dísticos recrutando cozinheiro, ajudante de cozinha e empregados de mesa. A solicitação “eterniza-se” sem que haja candidatos.
Ninguém quer trabalhar abaixo do salário mínimo, e alguns preferem receber do desemprego, embora em certos casos a diferença não compense, quando o transporte é suportado.
Na hotelaria as gorjetas são praticamente coisa do passado, e nos restaurantes ficam magras moedas.
Uma pessoa na casa dos 45 no desemprego tem grande dificuldade em conseguir um posto de trabalho. São considerados velhos e os empresários recorrem à mão de obra temporária.
Não pagam férias, não pagam subsidio de Natal e sujeitam os empregados a ser” pau para toda a obra”.
O Estepilha tem conhecimento de um barman que trabalhou nos maiores pubs de Londres com cartas de recomendação. Concorreu a um hotel de cinco estrelas, foi chamado e ofereceram-lhe  emprego para servir às mesas. Recusou dizendo que não tinha prática nem nunca trabalhou nessa área. Resposta: para tirar e pôr pratos não é necessário prática.
A Madeira, que tinha pergaminhos e era conhecida no mundo pela qualidade nesta área, chega ao ponto de, com carteira profissional ou sem, ser o “verbo” desenrascar o que interessa. Há pequenas unidades hoteleiras no centro do Funchal nas quais nem o recepcionista sabe uma palavra da língua de Shakespeare. Contam-se pelos dedos em grandes unidades hoteleiras o numero de funcionários qualificados ou com carteira profissional. A fiscalização está adormecida e os trabalhadores com medo de reclamar os seus direitos.
Queixam-se ao sindicato os que são sócios do mesmo, mas na altura de intervir pedem que não se fale no nome deles. A queixa, consequentemente, não tem pés para andar, porque não assumem e preferem suportar os atropelos às leis.
Há hotéis nos quais o recepcionista nocturno é em part-time uma ou duas vezes por semana. Recebe aquela remuneração à “roda pedra”. Tudo fora da Lei.
Por este andar, a Melhor Ilha do Mundo brevemente torna-se-á um destino africano, devidamente localizado geograficamente na costa marroquina de Mazagão.