Crónica de viagem: Haran, na Anatólia, cidade importante da tradição abraâmica

 

E tomou Tera a Abraão, seu filho, e a Lot filho de Haran, filho de seu filho e Sarai, sua nora, mulher de seu filho Abraão e saiu com eles de Ur dos caldeus para ir à terra de Canaã, e vieram até Haran e habitaram ali. (…) E assim partiu Abrão, como o Senhor lhe dissera, e foi Lot com ele; e era Abrão da idade de setenta e cinco anos quando saiu de Haran.
                                  Génesis 11,31 e 12,4
Continuo as minhas deambulações pela Turquia. Deixei Sanliurfa bem cedo e na estação de autocarros apanhei um “dolmus” (táxi ou minibus partilhado) para Haran, a cerca de 55 quilómetros de distância.
Haran é uma cidade pequena, que rodeia um enorme espaço em ruínas daquela que foi outrora uma das grandes cidades do “crescente fértil”. Em seu redor voltam agora a crescer campos de cultivo de arroz e algodão, graças às barragens construídas pela Turquia ao longo dos rios Eufrates e Tigre. Ali se encontram casas típicas de terracota em formação de colmeia, construídas segundo técnicas ancestrais e ali erigidas há já dois séculos. Mas antes destas que hoje ali vejo, existiram outras e outras recuando no tempo  até há seis mil anos atrás. É interessante pensar na antiguidade destas urbes, e imaginar que Harran era já uma localidade notável no tempo dos assírios. Os romanos desenvolveram o local e por ali passaram bizantinos e árabes, até que, na sua cavalgada imparável, os mongóis arrasaram tudo aquilo.
O interior (tecto) das casas de terracota
As ruínas encontram-se em dois locais: o castelo localizado no extremo Este da cidade e a cidade com as muralhas. Algumas portas são ainda visíveis, bem como a impressionante mesquita e o minarete, um dos mais antigos da Anatólia que ainda hoje se mantém de pé.

Abraão, o pai da Fé, o primeiro patriarca bíblico, considerado pai biológico, adoptivo e ético de todos os povos, também fez sentir aqui a sua presença.

Figura fundamental nas três grandes tradições  monoteístas, nomeadamente o judaísmo, o cristianismo e o islão, carrega em si a ideia primordial da paz: se todas as nações são irmãs entre si, filhas de um único Pai, por que existe ainda tanta guerra?
Conta o Génesis, o primeiro livro da Bíblia, que Deus chamou Abrão (ainda só com um “a”) e disse-lhe: “Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai e vai para a terra que te mostrarei. E farei de ti uma grande nação, e abençoar-te-ei, engrandecerei o teu nome; e tu serás uma benção”. Naquela época Abrão era ainda um homem de de 75 anos de idade e vivia em Haran, importante centro comercial do mundo como já atrás descrevemos.
Sempre imparável nas minhas viagens, levo um bocadinho da presença da Madeira aos cantos mais remotos
A pouco mais de 50 km de Sanliurfa, Haran fica muito próxima da Síria.
Mesmo sem garantias prévias da dupla promessa de terra e descendência, Abrão acreditou em Deus, invisível e omnipresente. Partiu sem saber para onde ia. Não levava nas mãos qualquer contrato que garantisse a posse de terra. Embora a sua esposa Sara fosse estéril, não duvidou, em momento algum, que teria posteridade mais numerosa que as estrelas do céu. Foi a sua Fé plena e irrestrita em Deus que deu origem à tradição religiosa monoteísta que prega a existência e a adoração de um só Deus, algo que foi especialmente inovador no mundo antigo e cuja herança histórica e cultural ainda hoje se faz sentir. E Deus mais tarde disse: “E não se chamará mais o teu nome Abrão, mas Abraão (…) porque por pai da multidão de nações te tenho posto (…)”.
A importância da tradição abraâmica é tal que até a famosa revista internacional “National Geographic” publicou, em Dezembro de 2001, uma grande reportagem de capa dedicada a esta personagem bíblica.