“Este Senhor Salazar / É feito de sal e azar.”, como escreveu Fernando Pessoa

O chamado “Centro Interpretativo do Estado Novo” vai abrir portas ainda este ano, com as obras a terem início já este mês no espaço da antiga escola-cantina Salazar, ao lado da casa onde viveu o ditador, em Santa Comba Dão. A iniciativa avançou pela mão do presidente da Câmara Municipal, Leonel Gouveia (PS), que afirmou não se destinar a um “santuário para nacionalistas”, mas onde também não se quer “diabolizar o estadista”. O primeiro dos destinos parece-me ser claramente a prioridade, e o segundo deverá ler-se “beatificar o estadista”. Julgo que é muito mais esta a ideia de base. Vá lá, senhor presidente, então não sabe vossa excelência que “Tapar o sol com a peneira” dá maçada e é prática inútil. O que nos vale é que a empreitada é coisa para uns poupaditos 170 mil euros. Coisa de somenos. Assim como assim, estamos num país podre de rico, além de que até o mais distraído reconhece que é por uma “boa causa”, sem dúvida!

Para efeitos de análise deste esdrúxulo “fenómeno”, urge questionar o que é que se pretende verdadeiramente do suposto “Centro interpretativo”? Será porventura uma homenagem a um ditador com as contas do país arrumadinhas (muito bem), enquanto o povo mirrava na mais horrenda miséria? Ao fim e ao cabo, que virtudes teve a governação do Tóino mais célebre do país?

A guerra colonial, o “orgulhosamente sós”, a morte prematura de milhares de jovens ou a deficiência permanente e os traumas de outros tantos? Eleições fantoches? A fome e uma lata de sardinhas para toda uma família? A escola para ricos? O trabalho e a mortalidade infantil? O analfabetismo? O obscurantismo? Os bufos? A emigração em massa? O exílio? A censura? A Pide? A ausência de Liberdade? A opressão, a repressão? A injustiça? A tortura? A perseguição? O racismo? O medo da própria sombra?

É bom que se recorde que quando soube da morte de Hitler, o ditador (imagine-se!) decretou luto nacional. Sim senhores! Luto nacional em homenagem ao açougueiro da carnificina da II Guerra Mundial. Comovente!!! Afinal era um dos seus angelicais ídolos. Então, e na mesma linha do “fake” “Centro Interpretativo”, por que não construí-los  uns atrás dos outros em memória de pedófilos, violadores, assassinos, ladrões, corruptos, corruptores, proxenetas, traficantes ou, ainda, erguer altares à violência doméstica e seus protagonistas, entre outras sub-espécies humanas??? Sim, porque não? Era uma questão de “aproveitar a embalagem” e fazer roteiros turísticos, romarias e missas cantadas que “certamente” dariam  excelentes cartões de visita, já para não falar do retumbante “prestígio” democrático do nosso país lá fora.

Já do lado dos indefectíveis apoiantes da iniciativa, o argumento (quer se goste ou não do Estado Novo) é o de que foram quase cinco décadas do século XX português que todos os que quiserem têm o direito de conhecer. Quem não quiser visitar… não visita, dizem os seguidores mais salazarentos. Cheira-me que o objetivo, o verdadeiro objetivo, é contar outra história sobre a História. Essa é que é essa. Pois é, convém lembrar que Salazar ainda vive no coração amargurado de muitos portugueses saudosistas dos tempos da Velha Senhora como “o Obreiro da Pátria” ou o melhor português de sempre.

«Salazar faz cá muita falta» ou “Isto só entrava nos eixos com um Salazar”, por exemplo, são revivalismos que ainda se ouvem com alguma frequência e fervor. Em boa verdade, protegendo os olhos da “poeira” que alguns julgam que nos conseguem atirar, a verdadeira base da criação do museu  mais não é que uma tentativa de descarado branqueamento de um período negro da nossa História, erguendo um “altar” ao fascismo. Dito de outra forma, tentar levar à prática o manhoso ditado “Com papas e bolos se enganam os tolos”.

Em todo o caso, se o presidente da Câmara de Santa Comba Dão ansiava tanto pelo museu ou mausoléu à Ditadura e ao seu principal carrasco, não seria mal pensado que o fizesse, mas com o seu dinheiro ou dos seus amigos e apoiantes. Nunca, por nunca com o dinheiro dos contribuintes, sobretudo com o das vítimas ou descendentes daqueles que foram perseguidos, presos, torturados ou assassinados pelo Regime de má memória que se pretende agora lavar. De resto, já não é nova a tentativa de branquear o Estado Novo através da criação de um museu dedicado à figura de António de Oliveira Salazar, presidente do Conselho da mais longa ditadura fascista da Europa. Bons tempos, aqueles! Que saudades! “Orgulhosamente sós” num recorde europeu escrito a sangue e terror.

Por estas e por todas as razões que a História não permite apagar ou rasurar, o argumento de que um museu sobre Salazar poderá ser neutro não colhe. De todo. Só muito, mas muito ingenuamente  poderá alguém imaginar que se trata de um museu que visa o esclarecimento do povo português e, sobretudo, das novas gerações, relativamente ao que foi o fascismo, a repressão, o obscurantismo e os assassinatos, durante 48 anos. Não obstante, este peculiar presidente da Câmara, o PNR, e outros reacionários afins, esses sim, não caberão em si de irreprimível contentamento com a tentativa de descarada ressurreição do  seu “Mestre”.

O que é verdadeiramente iniludível é que, contrariamente  ao que se procura com o Museu do Aljube, em Lisboa, e com o Museu Nacional da Resistência e Liberdade, em Peniche, este espaço não se configura como  denúncia dos crimes e da política de Salazar, apoiada pelos grandes grupos económicos e financeiros.

Note-se que já em 2008 chegou à Assembleia da República uma petição dinamizada pela União de resistentes Antifascistas Portugueses (URAP), com cerca de 16 mil subscritores, que condenava a abertura deste museu.

No texto afirmava-se que o espólio para o acervo museológico – não contando com o que existe na Torre do Tombo – não teria qualquer relevo para o estudo objetivo da história deste período, e que com objetos de uso pessoal do ditador não se construía um centro de estudos. “Centro de estudos” é para ler sem rir.

Conforme se lê no documento, “Este projeto assume o objetivo de materializar um polo de saudosismo fascista e de revivalismo do regime ilegal e opressor, derrubado pelo 25 de Abril de 1974”. Fruto desta petição,  o relatório final viria a ser aprovado por unanimidade no sentido de dever a Assembleia da República “condenar politicamente qualquer propósito de criação de um museu Salazar e apelar a todas as entidades, e nomeadamente ao Governo e às autarquias locais, para que recusem qualquer apoio, direto ou indireto, a semelhante iniciativa”. No mesmo relatório ficaria muito claro que “a Assembleia da República não pode ter uma posição neutral entre a ditadura e a democracia», já que a Constituição da República portuguesa «proíbe as organizações que perfilhem a ideologia fascista”. Porém, e parafraseando o surrealismo de um Augusto Santos Silva, aquando do familiar caso das “Golas”, “Seria um absurdo uma interpretação literal da lei”. Afinal, é tudo uma questão de interpretação e, curiosamente, o dito museu até foi batizado de “Centro Interpretativo”. Nada mais lógico! Não é que encaixa que nem uma luva?

Em suma, numa época em que se assiste  ao renascer de perigosas ideologias nacionalistas, xenófobas e totalitárias, de extrema-direita ou de extrema-esquerda, a condenação expressa na petição de 2008 é ainda mais atual e justifica em toda a linha a nova petição que agora circula nas redes sociais, contando já com cerca de 14 mil assinaturas de condenação a uma iniciativa que mais não é que, encapotadamente, uma inqualificável, indisfarçável e indefensável “propaganda do regime corporativo fascista do Estado Novo”.