Para nós, os leigos em matéria científica, o fascínio da História transporta-nos, muitas vezes, para concepções erróneas sobre o processo Histórico. Se tentarmos ler os autores que nos esclarecem sobre estas temáticas, podemos compreender que o conhecimento da História remete para a necessidade de dar valor, não apenas à queda dum império, às acções dum rei, ou à valentia dum chefe ou dum herói, ao gigantismo dum monumento, mas também ao nascimento duma criança, ao diálogo dos gestos, à descoberta dos símbolos, aos actos humanos na sua globalidade.
O viajante que procura, na fisionomia dos lugares, encontrar pistas para o conhecimento do passado, aproxima-se necessariamente dos seus habitantes, precisa de ouvi-los, de apelar para a sua memória, condescender com os seus pontos de vista, entender a dimensão dessa experiência de vida, observar a sabedoria que emana duma ancestralidade vivida na autenticidade dos respectivos costumes e tradições, saber das lutas e dissabores provocados pelos os contextos sociais em que se inseriam. Acerca disto podemos evocar as palavras de José Mattoso quando diz:…«a ignorância ou o desprezo pelo passado, exprimem um olhar curto, obtuso, grosseiro sobre a vida».
Quem percorre as aldeias pelo país adentro e se embrenha nos seus núcleos primitivos realiza um simulacro de retrospectiva histórica que não só atende ao encanto das pequenas ruas de calçadas estreitas, à sedução das casas de pedra e à mítica dos castelos, mas também à imponente presença dos belos solares, dignas testemunhas dum poderio económico que lhes concede uma importante marca de referência. Linhares da Beira, na vertente ocidental da Serra da Estrela, é certamente um desses lugares.
Dos tempos mais remotos, sec. XII do calendário Juliano, Era de Cristo, restam os vestígios dum pequeno fórum e duma estrada romana de cinco quilómetros que se mantém visível ainda hoje.Nos tempos mais recentes foi vila e sede de concelho até 1855, com antigo foral concedido por D. Afonso Henriques em 1169.Vila próspera enquanto rica na lavoura, com algumas residências solarengas e um ou outro resquício manuelino, a emigração esvaziou-a pouco a pouco, desde meados do século passado. Alguns resistentes aguardam de ano a ano o regresso dos filhos e netos, pois são eles a maioria que tentou superar lá fora as carências que sofreu cá dentro.
Amélia Católico fez questão de nos deixar o seu nome em assinatura da história que nos relatou sobre a sua infância. A casa de pedra, como todas as outras, era entrada comum de duas famílias e ainda ali está, desabitada, mas robusta e de fresca fachada. Duas famílias de boa e pacífica vizinhança. Ela, a Amélia, vive agora em França com os filhos e vem até cá ver os que restam. Dos mil e trinta habitantes em 1865, contam-se agora cento e vinte residentes.
Amélia tem bom porte e falas inteligentes. Contou como fora de miséria o tempo dela: Trabalhavam quase todos nas terras dos senhores que as arrendavam para receber em troca os produtos da lavoura, o pão, as hortaliças e os queijos. Quando a colheita era fraca em ano de intempéries, tudo o que colhiam era para pagar aos proprietários. Era tudo para os senhores, repetia. Ficávamos sem nada. Passávamos fome para não perder as terras. Muita miséria, voltava a repetir Amélia. Quem não tinha trabalho vivia da ajuda dos vizinhos. As crianças andavam descalças. Brincavam descalcinhas na neve, ali, na rua de baixo… era uma dor d´alma…e a voz de Amélia denunciava o abalo.
De repente em arroubo da minha contemplação surge a visão indefectível do poema exausto de Augusto Gil, o poeta da Guarda, viva testemunha deste passado das serras, «Batem leve levemente…»Poema exausto mas tão real e incontestável como essas pedras: «…e noto por entre os mais/ uns traços miniaturais/de uns pezitos de criança. .. E descalcinhos, doridos /a neve deixa ainda vê-los / primeiro bem definidos/ depois em sulcos compridos/ porque não podia erguê-los…. E uma infinita tristeza/ uma funda turbação/ entra em mim, fica em mim presa. /Cai neve na Natureza/e cai no meu coração.
É esta relação com o passado da história que define a «atitude contemplativa» dos que aspiram a uma proximidade significativa com os vestígios históricos, para além da fisionomia das paisagens e do seu rosto físico. Voltando a José Mattoso, darrelevo à«observação que procura captar todas as dimensões; não apenas as aparentes e imediatas, mas também as ocultas; não apenas as mensuráveis e classificáveis segundo parâmetros das diversas taxonomias científicas, mas também o que pode ser captado num registo poético».
Linhares da Beira ostenta, como todo complexo histórico das aldeias da Serra da Estrela, o padrão da sua antiga abastança, através das suas casas senhoriais, e coabita com as pequenas moradias encastradas em enormes penedos, uma beleza agreste, ao mesmo tempo harmoniosa e aprazível, fiel à natureza da sua origem: a serra escalvada e pedregosa que a resguarda e lhe define o carácter.
Julho,2019 Irene Lucília Andrade
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