Na hora da consagração

1. Disse Bruno Lage na hora da comemoração da última vitória que sagrou campeão do campeonato 2018/2019 o Benfica: «Tem de partir de nós, do nosso exemplo, começar a olhar para os nossos adversários e, quando eles ganharem, também lhes dar mérito. Só assim é que também eles vão começar a dar-nos mérito». Mais: «O futebol é apenas o futebol e há coisas mais importantes na nossa sociedade e no nosso país pelas quais temos que lutar». É verdade que há coisas mais importantes que ver um conjunto de homens a dar pontapés numa bola, dar caneladas uns nos outros, a serem empurrados e a se deitarem ao chão. Mas, é isto o futebol dentro das quatro linhas, fora do campo do jogo, é o palavreado que todos bem sabemos que eu escuso de reproduzir aqui.   

2. Porém, passados esses dias iluminados por esta mensagem desconcertante de um homem do futebol, os portugueses, juntamente com todos os cidadãos da União Europeia, foram chamados às urnas para a eleição dos deputados para o Parlamento Europeu. Ganhou entre nós absolutamente o alheamento manifestado numa abstenção que quase chega aos 70%. Parece que os portugueses ligaram muito mais às estratégias do jogo engendradas por Bruno Laje (que resultaram em pleno) do que ao seu apelo à luta pelas coisas mais importantes da vida e do nosso país.

3. As palavras de Bruno Laje são importantes e surpreenderam por terem vindo de um meio onde habitualmente ninguém fala senão de jogadas, de jogadores, de árbitros e de tudo o que se relaciona só e exclusivamente com futebol. Daí, quiçá, ter caído em saco roto…

4. O futebol cativa muita gente e até mesmo aqueles que confessam pouco ou nenhum interesse pelo futebol, na hora crucial onde prevalece a pátria, o clube da terra ou a cidade onde residem, não deixam de vibrar com mais ou menos entusiasmo. Somos humanos e ninguém foge desse pulsar tão idiossincrático da condição humana.

5. Vamos agora à demissão tão relevante da sociedade portuguesa às questões cruciais que lhe dizem respeito. Sinto-me deveras impressionado quando as pessoas fazem finca pé e ostentam como um troféu a sua demissão na hora do voto. As razões que alegam são sempre as mesmas e quase todas comuns a todos. Vejamos. Políticos, «são todos iguais», «são todos uns corrutos que só querem é tacho»; «nas campanhas eleitorais falam com toda a gente, mas quando estão no poleiro não ligam nenhuma a ninguém»… Uma infinidade de situações que todos nós há muito que escutamos. Porém, ficam boquiabertos quando lembramos apenas duas coisas. Uma é que na morte e no voto somos todos iguais, ricos e pobres, instruídos ou letrados; outra, é que muita gente sofreu e morreu para que nós hoje tenhamos esta possibilidade de expressar a nossa opinião mediante o voto. Outras vezes, faço questão de lembrar também que indo ou não votar, o que é real mesmo, é que estes eleitos por outros amanhã estão a decidir sobre a vida de todos. Enfim, certo é que se existem argumentos para justificar a alienação, também os há para convencer à participação.

6. A democracia, com vícios, defeitos e todas as possibilidades que a levem a ser também um sistema cheio de vicissitudes negativas, ainda assim é o melhor sistema político que temos na organização da vida em sociedade. Até acho que devíamos votar mais vezes e todos os assuntos de elevada importância deviam ser escrutinados popularmente através dos votos. Mais ainda, os eleitos deviam ser avaliados ao fim de dois anos, se não tivessem cumprido 50% das promessas que fizeram em campanha eleitoral deviam sair imediatamente de funções e eram convocadas novas eleições. A vida de todos é importante de mais para estar entregue só a alguns durante tanto tempo. Obviamente, que o poder é afrodisíaco e que muitos se apegam a ele como lapas e dificilmente querem deixar a cadeira de veludo com todas as mordomias que o poder ainda confere. 

7. Tanta gente diz que no privado os gestores e os administradores ganham muito mais do que qualquer político em funções públicas. Sim, deve ser verdade e admito que seja assim. Aqui há negócios, perdas e ganhos do interesse de alguns. É um jogo que não é de todos. Na coisa pública, sendo espaço de todos e para todos, deve ser diferente, mesmo que para cativar os melhores seja necessário dar o melhor. Mas, também se espera que quem se proponha para servir o bem comum tenha a consciência de que vai a prazo e com o sentido do serviço em favor de todos muito bem vincado.

8. No entanto, vemos tudo ao contrário. Enquanto não são eleitos, são simpáticos com todos, maravilhas distribuídas a rodos, promessas e mais promessas e todos os engodos que bem sabemos das campanhas eleitorais. Uma vez eleitos, tudo é feito ao avesso do comportamento que tinham e fazem-se esquecidos de tudo o que disseram. Nada pode ser pior para descredibilizar a política e os políticos do que estas duas faces tenebrosas que contribuem para a morte da democracia.

9. Face a esta realidade não admira a elevada abstenção, como também não admira nada a manifestação de desejos às claras que regressem as nomenclaturas ditatoriais e os fascismos. Nada mais perverso se cheirarmos um pouco da história dos extremismos por esse mundo fora. São incontáveis as vítimas, da exclusão, da pobreza, os descartáveis, os deslocados, os órfãos, os mortos… Com a barbárie a ser a regra número um. Por isso, deve ser urgente recentrar os ideais da democracia, aperfeiçoá-la e inventar caminhos novos que seduzam quem anda alheado da participação. A meu ver, isso pode ser feito, com pessoas sérias e que sejam consequentes no que diz respeito à fidelidade aos princípios, à honra quanto ao cumprimento da palavra dada, a atenção a todos os cidadãos em todas as horas e não apenas nas campanhas eleitorais, e, sobretudo, o cumprimento escrupuloso das promessas…

 

10. Não basta olhar e lamentar-se que a abstenção é elevada na noite das eleições. É preciso olhar para esse campo todos os dias e em todas as horas, fazendo o que se deve fazer, para que todos possam ver que a sua vida está melhor com a ação dos políticos eleitos. Se verificámos continuamente que afinal tudo piora com as políticas direcionadas para os interesses dos poderosos em detrimento da generalidade dos cidadãos, nada feito, o que se espera senão mais demissão, mais abstenção. Finalmente, quem não tem jeito para a coisa política ou pública, pensa só no tacho e no dinheiro que vai ganhar, deixe-se estar e vá procurar outra coisa para fazer, deixando assim o nosso mundo em paz.