Do agastamento do Senhor Infante na ilha do Porto Santo

Infante – Que vindes aqui fazer com tão grande atrevimento?

1.ª voz – O príncipe fala?

2.ª voz – Encomendei com voz…

3.ª voz – E Lisboa não vai querer pagar, com certeza!

5.ª voz – Porto Santo merece, Senhor Professor Marcelo Caetano.

4.ª voz – Já o avisei de que agora o Professor é outro.

 

 

Infante – Por todas as terras, vejo o meu nome em praças e ruas. Meu retrato desejais e meu corpo também pretendeis. Até me assentaram na longínqua Tanegashima, ilha que nem em sonhos vislumbrei e onde os navegadores deste Reino somente chegaram mais de 80 anos depois de entregar a minha alma a Deus. Bem sabeis, mordomo-mor, que de mim licença nunca alcançastes para tanto enfeitamento e folgança.

2.ª voz – Senhor, por recompensamento do vosso feito, quis que aqui fôsseis sempre lembrado, e, para maior glória, na presença deste meu companheiro de jornada.

1.ª voz – A esta vossa ilha vim, excelente príncipe e poderoso Senhor.

5.ª voz – Porto Santo merece, Senhor Professor Marcelo Caetano.

4.ª voz – Homem, lembre-se de que agora o Professor é outro.

Infante – Vós não ousais pensar que me maravilho ataviado de bronze, com tão desmesurada altura e assente neste acanhado plinto. Sempre cuidei de me resguardar de pintores e escultores, quer como governador da Ordem de Cristo, duque de Viseu ou Senhor da Covilhã.

2.ª voz – Ainda que assim fosse a vontade de Vossa Alteza, é assaz conhecido o vosso rosto. Com esse, um escultor da Madeira deu vulto à vossa pessoa.

Infante – Há quem me reveja num daqueles painéis de Nuno Gonçalves. Outros me identificam com uma ilustração da Crónica de Guiné. Mas nunca usei o chapeirão borgonhês com que me cobriram a cabeça. Não fosse a destruição do meu túmulo no Mosteiro da Batalha pelos malvados invasores franceses, e teriam conhecido a minha fisionomia pelos traços da estátua jacente.

2.ª voz – Senhor, quis tão-só proceder como em 1960, quando por todo o Portugal se assinalou, de maneira exaltada, o V Centenário da vossa morte. Era eu muito jovem e fiquei arrebatado por esses momentos gloriosos de patriotismo, dos quais jamais me esqueci.

Infante – Esse é o tempo do passado. Mas fostes mais além. Buscastes o tempo em que ainda não eras nascido. Desenterrastes o cinzel de Francisco Franco que me petrificou para uma exposição internacional em Vincennes, nesse distante ano de 1931. Celebrava-se o colonialismo, mas havia já vozes de protesto contra a política ultramarina imperial. Nos anos 80, Paris não me quis, e deslocaram a minha estátua para Nantes. Colocaram-me numa praça onde ninguém me conhece. Aos meus pés, inscreveram o cognome de O Navegador. Henri le Navigateur, porque chegaram a me confundir com um Fernando de Magalhães. Nunca me conformei com esta roupagem da imaginária oficial da ditadura, nem com aquela alcunha. Até às mãos do Criador, fui sempre um cruzado. Com 64 anos ainda combati muçulmanos em Alcácer Ceguer.

1.ª voz – Vossa glória e fama, Senhor, vai além do Norte de África. Depois do descerco de Ceuta, todos os anos, enviastes navios em busca de novas terras.

2.ª voz – E assim descobristes o Porto Santo e, um ano depois, a Madeira.

5.ª voz – O nosso Porto Santo, Senhor Professor…

4.ª voz, num aparte segredado – Cale-se.

Infante – Sempre no passado, mordomo-mor. Não sabeis que procurei terras a sul das águas conhecidas? Destas ilhas já havia manifesta certidão. Mandei-as povoar, antes que os castelhanos a tomassem. No Atlântico, meu grande desejo era passar o Cabo do Bojador e alcançar a terra de Guiné, para acrescentar a santa fé de Nosso Senhor Jesus Cristo e trazer ao Reino muitas mercadorias e fazer bom trato.

2.ª voz – Bem sabeis, Vossa Alteza, que fostes o Senhor deste arquipélago…

Infante – Da Madeira, veio-me bom proveito.

3.ª voz, num aparte – Essas contas estarão já feitas?

Infante – Doei o Porto Santo a Bartolomeu Perestrelo, mas nesta ilha o capitão não pôde tirar grande proveito da lavra, pela praga dos coelhos e a escassez de água. Arrecadou pão nalguns anos, criou gado e colheu sangue de dragão.

2.ª voz – Agora, Senhor, ficarás sempre na memória desta ilha e do seu povo.

Infante – Os moradores deste lugar serão sempre dignos de lembrança. Mas não me apraz trajar de bronze no meio destas palmeiras. Nem a mim nem a Deus trouxestes benefícios com esta obra. Bem sabeis que sempre fiz mercês aos que bem me serviam. Nunca deixei de recompensar os serviços que me prestaram com coroas e dobras de ouro, algumas vezes contraindo dívidas, que paguei com terras dos meus senhorios. Mas a vós não farei acrescentamento com galardão de natureza alguma.

2.ª voz – Senhor! Sabeis o grande trabalho que tenho levado a efeito. Nunca me pareceu que de vós haveria de receber ouro, pois outros rendimentos diligencio. Bem conheceis como desejo ser feito cavaleiro, e, se isso for da vossa vontade, sempre com a minha gratidão e lealdade contareis. Por meus merecimentos e bondade, fazei-me esse acrescentamento.

Infante – Não me apraz que me houvésseis requerido honra tão avantajada, depois de me embalsamares neste bronze. Só ao povo desta ilha é devido merecido tributo, no tempo certo. Fostes aos confins para me desinquietares e tomastes a dianteira no folguedo por artifícios do pôr-do-sol sem ao calendário atenderes. Uma máxima vos darei, que vos pode trazer grande benefício. Lembrai-vos do dito de Túlio, que dei a conhecer ao cronista Zurara, quando escreveu os meus feitos: não abasta ao homem fazer boa coisa, mas fazê-la bem.

5.ª voz – Falastes bem, Senhor Infante.

 

E todos se retiraram com a cabeça baixa e o semblante carregado. O Infante, porém, continuava a pensar no futuro daquela ilha, do seu país e até da Humanidade.