Há maior consciência na prevenção contra incêndios, revela Rui Jesus 2º comandante dos BVM, corporação que já vai em 6 mil intervenções este ano

Rui Nunes BVM
“Quando os incêndios chegam a uma determinada dimensão, torna-se difícil”. Foto Rui Marote

A menos de um mês do final do período de vigência do Plano Operacional de Combate aos Incêndios Florestais (POCIF), pelo menos na fórmula inicialmente pensada, podendo esse prazo ser alargado, como já admitiu recentemente o presidente do Governo Regional, os Bombeiros Voluntários Madeirenses colocam a fasquia alta do ponto de vista da eficácia, em termos de prevenção e de planificação. A “lição” resultante dos incêndios de 2016 parece ter sido bem “estudada”, envolvendo todos os intervenientes neste processo de vigilância e de preparação, a que se alia uma maior consciencialização por parte das populações, ainda mal refeitas dos efeitos trágicos dos fogos que entraram na cidade para desespero daqueles que tinham como missão o respetivo combate.

Corporação mista, com profissionais e voluntários

Rui Jesus, 53 anos de idade, uma vida dedicada aos bombeiros. Começou por baixo, em 1984, tem escola neste combate, é o segundo comandante de uma corporação mista, entre os profissionais e os voluntários. É segundo comandante desde março de 2017, comandante não há. Para já, não. Trata-se de uma decisão que cabe à Associação de Bombeiros, entidade que gere os BVM. Não tem implicações do ponto de vista da capacidade de intervenção. A orgânica contempla um comandante e quando os responsáveis entenderem preencher o lugar, fá-lo-ão no momento e da forma que considerarem mais conveniente. É um processo pacífico.

São 149 operacionais e 20 viaturas

Gere uma força que pouco diferencia de uma outra existente no Funchal, os Bombeiros Sapadores, tutelados pela Câmara Municipal. Uma é gerida por uma associação, formada por um grupo de cidadãos, outra é gerida por um município. De resto, a formação, esclarece Rui Jesus, “é preparada de igual modo, com cursos idênticos, como só assim faria sentido”. Também tudo muito semelhante quando falamos de vencimento, valendo a equiparação assegurada pelo Governo Regional em 2008, naquilo que toca aos bombeiros profissionais, que também existem numa corporação de voluntários.

Os BVM representam uma corporação mista, do tipo 1, que obriga a ter mais de 120 bombeiros. Tem, presentemente, 149 operacionais, entre eles 43 profissionais. Há 20 no quadro de Reserva (voluntários que, num determinado período, estão impedidos de cumprir o serviço) e 11 no quadro de Honra (elementos com mais de 15 anos de serviço e estão impossibilitados de realização de trabalho operacional). Ao todo, contam-se 21 mulheres. E falando de meios, tem o que precisa para o trabalho que é exigido. Há 20 veículos, de diferentes tipologias, suficientes para a resposta. Não há faltas. Nos registos deste ano, mostra 6020 intervenções, a maior parte na emergência pré-hospitalar.

Cada corporação fica com uma parte da cidade

Rui Jesus define a articulação entre corporações como “muito boa”, o mesmo acontecendo entre estas e os serviços de Proteção Civil, quer quando falamos de intervenção municipal, quer quando abordamos a questão sempre que está em causa uma atuação de âmbito regional. “No concelho do Funchal, temos um plano que, falando em termos práticos, divide a cidade em duas metades, evitando as sobreposições que existiam no passado. Cada corporação tem a seu cargo uma parte da cidade, sem prejuízo de uma intervenção conjunta sempre que a dimensão da ocorrência justificar, havendo um perfeito entendimento nesse sentido. Quando a situação passa ao âmbito regional, submete-se ao Plano do Serviço Regional de Proteção Civil”.

Tirar ilações dos incêndios de 2016

Rui Jesus BVM
“Todas as entidades, desde Proteção Civil a bombeiros, quando são submetidas a uma intervenção como a ocorrida em 2016, “tiram as suas ilações sobre o que terá corrido menos bem”. Foto Rui Marote

O que mudou desde os incêndios de 2016? Estamos melhor preparados, há uma maior consciencialização generalizada para a adoção de determinados procedimentos que alteraram comportamentos e atitudes que possam, de algum modo, facilitar a prevenção e, consequentemente, a intervenção a tempo e horas para evitar a tragédia que ocorreu na cidade?

O responsável operacional dos BVM lembra que “em situações de catástrofes, e temos assistido a isso um pouco por todo o mundo, existem, por vezes, condições atmosféricas extremamente adversas que contribuem para cenários de certa forma incontroláveis, como foi o caso dos incêndios de 2016 no Funchal. Veja agora em Monchique, com 1500 homens que não conseguiram, numa primeira fase, controlar os incêndios. Quando os incêndios chegam a uma determinada dimensão, torna-se difícil”.

Rui Jesus não deixa grande margem para dúvidas. Diz que todas as entidades, desde Proteção Civil a bombeiros, quando são submetidas a uma intervenção como a ocorrida em 2016, “tiram as suas ilações sobre o que terá corrido menos bem. E certamente que todos vão retificando as suas posições, veja-se por exemplo o trabalho que tem sido desenvolvido nas florestas, com áreas corta-fogo, intervenção nas ribeiras e limpeza de terrenos”. Além disso, confessa que “a chegada do helicóptero permitiu um apoio importante numa primeira intervenção”.

É aqui, na limpeza de terrenos, que todo o cuidado é pouco. O que é público, é público, mas o que é privado, por vezes, traz grandes contratempos, por falta de sensibilização nos respetivos trabalhos de limpeza. “Tenho notado uma alteração generalizada no comportamento da população, com mais pedidos para controlar queimadas. É verdade que ainda há um ou outro terreno por limpar, mas em termos gerais, verifica-se uma maior sensibilização”.

Intervenção urbana sem problemas

Nas diferentes vertentes da intervenção, a área florestal é preocupante, mas a atenção dos bombeiros vira-se, também, para a componente urbana, na defesa de pessoas e bens, cuja salvaguarda deve estar, sempre, na linha da frente do plano estratégico das medidas. Os acessos poderão constituir algum obstáculo no trabalho dos bombeiros, com obstáculos em ruas já de si estreitas e onde é dificil passar carros de maior porte. Uma situação que, na ótica de Rui Jesus, não gera qualquer tipo de apreensão nos bombeiros. Isto porque a corporação dos Voluntários Madeirenses dispõe de diferentes tipos de viaturas, algumas delas preparadas para uma intervenção em locais de mais difícil acesso. Fala numa situação pontual, no Bairro dos Moinhos, em que a alternativa é transportar as mangueiras em caso de necessidade de intervenção, devido à falta de acessos para viaturas. De resto, é preciso dizer, também, que muitos dos acessos estão, hoje, melhores, o que facilita o trabalho dos bombeiros”.