O Cultivo de Flores de Plástico – Dissonâncias

Leonor Coelho, professora universitária na UMa.

“Eu existo nas pedras da calçada” (Lili em O Cultivo de Flores de Plástico)

 Escritor multifacetado do panorama contemporâneo português, Afonso Cruz é um dos autores mais prolíferos e criativos da literatura portuguesa publicada atualmente. Tenho acompanhado a obra deste autor e vou dela dando conta em contexto de sala de aula, em colóquios e palestras. Disso pode ser exemplo a comunicação intitulada “Os livros que devoraram o meu pai d’Afonso Cruz: un roman à contre-courant?”, publicada, em 2015, pela editora Presses Universitaires de Bordeaux. Esta novela, cuja tónica é colocada nas múltiplas viagens do protagonista em busca do pai, desperta, quer num público juvenil, quer num leitor mais velho, o gosto da leitura. Nela se dá a ver a importância do livro e o prazer de percorrer, conjuntamente com o jovem Elias Bonfim, uma geografia literária global.  No jogo entre a realidade do protagonista, nas ficções da ficção que o adolescente próprio (re)cria e nos efeitos intertextuais com outros autores do cânone mundial, em geral, e europeu, em particular, este livro de Afonso Cruz sugere uma utopia da demanda paterna, das modernidades das vozes do texto e da escrita como imaginação e recriação. A lista de escritores de várias cartografias e géneros distintos, a bold e inserida no interior do corpo do livro, permite, em todo o caso, relevar a questão da educação literária e estética de uma cultura-mundo. Não uma cultura-mundo homogeneizada e economicista, mas a de uma cultura (literária) feita de particularidades e de esbatimentos de particularismos, de ruturas e de continuidades.

Pela multiplicidade de propostas editoriais que nos oferece, pelos universos fictícios vários e, não raras vezes, simultaneamente dialogantes entre si, pelos desafios que nos coloca a página de cada livro, como acontece, a título de exemplo, com A Carne de Deus (2008),  A Boneca de Kokoschka (2010), O Pintor Debaixo do Lava – loiças (2011), Jesus Cristo Bebia Cerveja (2012), Mar (2014), os vários volumes da Enciclopédia da Estória Universal ou Vamos Comprar um Poeta (2016), Afonso Cruz apresenta-se com um escritor incontornável do século XXI. Dois livros captaram a atenção dos estudantes: A Cruzada das Crianças – Vamos Mudar o Mundo (2015) e O Cultivo de Flores de Plástico (2013). Dirigidos, aparentemente, a faixas etárias distintas, em ambos os livros se encontra a reflexão sobre a hodiernidade distópica mundial e europeia. No primeiro caso, trata-se de um objeto compósito que conjuga escrita dramatúrgica, partituras, recortes de jornais e fotografia de manifestações sobre as distopias atuais. No segundo, a observância da contemporaneidade disfórica do texto dramático (sem o recurso à nomenclatura clássica – atos, cenas e didascálias – , mas sem delas fugir pelo efeito numérico dos nove momentos da peça), aliada à simbologia das trezes ilustrações a preto de Maria João Lima, acentua situações dissonantes representativas deste Mundo global, desta Europa atual e deste Portugal de hoje.

A literatura como Arte? A literatura como Aprendizagem?  A literatura como Espelho? A literatura como Pensamento? A literatura como (In)utilidade? Foram algumas das questões colocadas em debate. Algumas respostas dos estudantes são aqui sumariamente apresentadas: o livro reenvia para questões de rutura e continuidade na escrita dramatúrgica; a escrita de Afonso Cruz apresenta o absurdo e o vazio existencial; o texto aborda a cultura de conflito dos seres à margem da sociedade; o flagelo social e a perda de referências identitárias estão presentes nos quatro retratos da miséria humana transformados em diálogo; não é (apenas) uma escrita de non sens da vida humana; trata-se de um texto repleto de sentidos e de sensibilidades.

Veja-se a observação de uma das personagens, que nos permite, em jeito de sinopse, apresentar o livro:

“Jorge No fundo é isso. Ninguém nos vê. Somos invisíveis. A miséria é uma poção de invisibilidade. Quando as roupas ficam rotas, quando estendemos uma mão, puf, desaparecemos. Somos as pombas dos ilusionistas. Isto dava para um negócio, dava para ganhar a vida com os turistas. Levava-os a ver fantasmas numa cidade assombrada. Levava-os a verem-nos. Olhem, damas e cavalheiros, meninos e meninas, esta é a Lili, tem saudades de ser criança, tem no nariz o cheiro do tabaco dos dedos do pai e rostas nos braços, por aqui, por favor, cuidado com os pés, não pisem as camas, parecem cartões, eu sei, ali ao canto está o couraçado Korzhev, que se deixou ficar, com os ícones na lapela, sigam-me, é um deserto meio russo e traz o barulho do mar nos bolsos, atenção, cavalheiro, saia de cima do cobertor, vejam, ali, ali ao fundo, uma genuína senhora de fato, que ainda há poucos meses andava a alcatifar o mundo, minhas senhoras e meus senhores, e ainda tem na voz restos da vida anterior, do tempo em que havia casas. Palmas, por favor. E eu? Eu sou o Jorge, também invisível como qualquer fantasma, vivo nas ruas. Obrigado, obrigado, e agora, se me permitem, vou comer a minha sopa que está a arrefecer há tantos anos.” (p. 34)

O teatro, ao comunicar com o público, pode consciencializar o espectador. Pode, em todo o caso, deixá-lo em suspenso, numa interrogação que o alerte para a encenação do tema central. Neste caso concreto, o texto, e respetiva encenação, aborda os que não têm voz e os que não queremos ver. Neste excerto, ao dialogar em modo direto com o espectador, Jorge recupera, ainda, a tradição pretérita da representação de rua. Texto dramático da nossa contemporaneidade, estas vidas desfeitas, agora retratadas, resultam da instabilidade económica, afetiva e identitária. O texto apresenta, de facto, a vida de quatro sem abrigo no limiar da sobrevivência, numa cidadania em perigo ou mesmo inexistente: discriminação e mobilidades periclitantes; busca de sentidos da vida e da verdade; obsessão e carência afetiva; desemprego e suicídio.

– Couraçado Korzhev traduz uma demanda do mapeamento físico e identitário; é um ser abandonado e incompreendido pelos companheiros de viagem; um “preto russo” à deriva; um mestiço alcoólico nas ruas da cidade: “O andar cambaleante leva os bêbados para casa, diz um provérbio russo.” (p. 22)

– Jorge tem um casamento falhado; abandonou a casa e os filhos; é um ser sem hipocrisias sociais; procura a verdade, mas viu a vida virar do avesso: “Para viver na rua basta um passo em falso”. (p. 17)

– Lili é o espelho da errância e do abandono paterno; utiliza, de forma obsessiva, as chaves encontradas numa rua para abrir uma porta que lhe permita recuperar a infância perdida e o reencontro paterno: “Quando vim para a rua, comecei a lembrar-me dele e ele já não está morto, mesmo que esteja longe, num lugar qualquer que não sei onde fica”. (p. 63)

– A Senhora de fato apresenta duas versões identitárias; uma versão camuflada pela vergonha (a da jornalista que investiga estas realidades) e uma versão real (a do desemprego e da perda da estabilidade laboral, social e identitária) finalmente confirmada: “Trabalhava numa empresa de decoração. Chamava-se De Coração. Vendia alcatifas, era isso que eu fazia. De repente deixei de poder pagar a casa, deixei de poder pagar os carros, a comida dos gatos e do retriever”. (p. 22)

São quatro versões de desencanto e de finitude. São, contudo, quatro reflexões para uma (re)construção da humanidade. O texto dramático de Afonso Cruz foi levado a palco. CASA. O cultivo de flores de plástico foi apresentado na Sala Estúdio do Teatro da Trindade pela Associação Gato que Ladra. Com encenação de Rute Rocha, música de Marco Miranda (M.PeX) e com as vozes de Cristina Cavalinhos (Lili), Jorge Mateus (Jorge), Maria D’Aires (a Senhora de fato) e Pedro Barbeitos (Couraçado Korkev), esta recriação assente no texto de Afonso Cruz dramatiza as ansiedades e os declínios do ser humano e atenta nos atropelos causados pela cegueira de uma sociedade vazia, pautada pela aparência e pelo ganho.

A alienação humana, a solidão do indivíduo, o conflito entre o desejo e a punição, a linha ténue que separa o bem e o mal, a tensão entre o desespero e a esperança são topoi incontornáveis nas propostas de dramaturgos de vários séculos e geografias distintas. Essas “constantes dramatúrgicas”, agora reconfiguradas pela ironia e pelo humor com sentido trágico, recriam vidas reais, apesar de se tratarem de “estórias” fictícias. O olhar de Afonso Cruz sobre estas realidades dissonantes que atravessam a Europa, e que não poupam Portugal, levam-me a falar de um texto de advertência. É certo que a literatura é a arte da linguagem e da plasticidade da palavra. Mas não é menos verdade que a literatura pode ser inquietação, reflexão e, assim sendo, pensamento e análise. Tal como refere Leonidas Donski, num livro conjuntamente assinado com Zygmunt Bauman (Cegueira Moral. A Perda da Sensibilidade na Modernidade líquida), a propósito do romance A Possibilidade de uma Ilha de Michel Houellebecq, o livro de Afonso Cruz aponta para temas sombrios, culturas cíclicas do desespero causado por atropelos numéricos e sociais, vê e prevê trajetos, quer existenciais, quer históricos sofridos, cada vez mais constantes.

Se a literatura não tem função, sendo fruição e estética, ela pode, ainda assim, tentar modificar o presente disfórico pela reflexão que opera, propor uma política de um Mundo mais humanista, de uma Europa mais social, de uma Nação que ainda o é (ou deveria) sê-lo, como sublinha Bairro Ocidental de Manuel Alegre). A crítica à cultura do numérico que atingiu a sociedade hodierna, o despertar da consciência de um público para uma outra História, fazem desta escrita dramatúrgica uma palavra da urgência e da responsabilidade.

Nesta síntese de realidades inquietantes, nesta tematização de um mundo (de uma Europa e de um País aparentemente) sem saída, resta-nos esperar que nos possamos afastar do cárcere da angústia e desespero de modo a que Couraçado Korzhev não diga:

“Andamos a regar flores de plástico, é isso que fazemos. Temos coisas que não servem para nada. É tudo plástico. E nós regamos essas flores e esperamos que cheirem a coisas boas. Mas é plástico. Temos coisas, em vez de tentarmos ser felizes, substituímos a vida por plástico, a felicidade por plástico e o próprio plástico por plástico. Trabalhamos para regar uma vida destas.” (p.54)

Afonso Cruz parece partilhar da opinião de Pierre Jourde. Em « Quelles ambitions pour l’écrivain du XXIe siècle ? », Jourde sustenta: “être engagé dans sa culture, dans l’histoire de la littérature au travers de son travail fait partie de l’engagement de l’écrivain.”.

Através deste texto/espelho, Afonso Cruz está atento à cultura da modernidade líquida, à globalização frenética e à numerização de uma sociedade lucrativa (veja-se, nesse sentido, a mensagem de um outro texto seu: Vamos Comprar um Poeta). Sendo verso e reverso de situações frequentes, a escrita dramatúrgica deste autor apela à cultura da atenção para os lugares “não-casa” e para os excluídos do sistema. Opõe-se, pois, à cartografia do abandono, ao valor financeiro que dita condutas, à cultura do individualismo que inunda os nossos dias.

 

Referência bibliográfica:

Afonso Cruz, O Cultivo de Flores de Plástico, Carnaxide, Editora Alfaguara/Objectiva, 2013.